Kenny Dalglish, “King Kenny”

  • por Lucas Amaral Nunes
  • 7 Anos atrás

Kenny Dalglish comemorando um de seus muitos gols

Enquanto conduzia o veículo, Bill Shankly olhou para o banco ao lado e defrontou com um garoto gordo, que acabara de ser reprovado nos testes das categorias de base do Liverpool. “Mais um reprovado nos testes”, pensou.

O treinador edificou uma gloriosa carreira no Liverpool durante as quase duas décadas em que comandou a equipe, a partir de 1959. Eternizou-se ao reconstruir o clube, quando conduziu os Reds da segunda divisão ao título inglês da primeira divisão, feito que realizaria por mais duas vezes em sua carreira. Um perito estrategista, exímio motivador, mas, acima de tudo, um distinto observador, responsável por levar ao Liverpool uma série de notáveis jogadores como Ron Yeats e Ian St. Jon, e revelar tantos outros como Gerry Byrne e Roger Hunt. Mas naquele dia, o olhar falhou.

O menino em questão era o até então pequeno Kenny Dalglish, e naquela situação sentia-se grato por ter recebido uma carona do célebre técnico do clube no qual almejara ingressar sem sucesso. Anos mais tarde, em 1977, o mesmo clube que o rejeitou pagaria a uma grande quantia para trazê-lo de Glasgow a Liverpool, e Shankly faria uma intensa pesquisa para descobrir quem deixara passar tamanho talento, apenas para descobrir que o culpado era ninguém menos que ele próprio.

Antes, Dalglish se tornou ícone nacional pelo clube que o revelara, o Celtic, este sim com um olheiro orgulhoso. Desde pequeno, malbaratava horas de seus dias à janela do quarto, de onde podia assistir aos treinamentos de seu time de coração, o Rangers, sonhando com uma oportunidade de trocar passes com alguns de seus ídolos. Mas, quando abriu a porta da frente, aos 16 anos de idade, encontrou à porta um representante do maior rival com caneta e papel às mãos. E, assim, Kenny iniciou sua gloriosa trajetória no futebol, com a camisa verde e branca dos Sellics, como eram conhecidos.

À época, o Celtic era tido como uma potência europeia, e venceria, naquele mesmo ano, a Liga dos Campeões. Ele não participou dessa conquista, mas deixou a equipe com quatro Campeonatos Nacionais e o mesmo número de Copas. Rumo a Anfield por uma quantidade de cifrões recorde, se tornou a transferência mais cara no futebol até aquela data. Os torcedores do Liverpool nunca se sentiriam tão gratos pelo clube ter gastado tanto dinheiro em um único jogador.

Com um futebol sutil, calculista, mas ao mesmo tempo letal e esforçado, o segundo atacante do Liverpool é considerado, ainda hoje, como um dos mais inteligentes jogadores da história, com noções acerca da tática e estratégia acima dos demais. Rapidamente a torcida cessaria as lamentações pela perda do astro Kevin Keegan, vendido ao Hamburgo na temporada anterior. Ao lado do galês Ian Rush, formaria uma dupla inesquecível no cenário bretão. Lado a lado, venceriam duas das três Liga dos Campeões que Dalglish esbanja no currículo. Além disso, o craque escocês venceu a Premier League por seis vezes, duas a mais do que venceria a League Cup . Conquistou também a FA Cup por duas vezes, fora heptacampeão da FA Charity Shield e triunfou também na Supercopa Europeia.

A partir de 1985, já como treinador, triunfou por quatro vezes na Primeira Divisão Inglesa, três sob o escudo do Liverpool e um pelo Blackburn. Além disso, duas FA Cup, uma League Cup e por mais quatro vezes a FA Charity Shield. Um retrospecto que o transformou, para muitos, no maior ídolo da história dos Reds.

Bill Shankly faleceu em 1981, sem ter treinado Dalglish, uma de suas maiores frustrações. Porém, antes, deixaria claro que aquela fora uma de suas maiores falhas na carreira: “Se tivesse a chance, não teria deixado aquele garoto descer do carro. Gostaria que aquela carona tivesse durado por anos”.

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Lucas é jornalista desde 2011, mas o fanatismo pelo futebol o acompanha desde o berço. Aficionado por história, jogadores antigos e contemporâneos e causos e contos sobre o mais famoso esporte bretão. Participou de sites como o cruzeiro.org e o fanáticos por futebol. Atualmente atua como editor do futebol mineiro na Doentes por Futebol, onde também é o responsável pela coluna “Lendas do Futebol”.