Lilian Thuram, craque dentro e fora dos campos

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  • 6 Anos atrás

LILIAN THURAM craque dentro e fora dos campos_

Por Gustavo Ribeiro

Nascido em 1972, na ilha de Guadalupe (departamento ultramarino francês), o lateral e zagueiro Lilian Thuram é um dos jogadores mais importantes da história do futebol do país, seja dentro ou fora de campo.

Thuram chegou à França aos nove anos de idade, mas só começou sua carreira profissional no Mônaco em 1991, com dezenove anos. Lá, jogou por cinco temporadas e conquistou um título: a Copa da França. Com sua raça e seus carrinhos sempre visando a bola, logo virou ídolo da torcida. Foi jogando pelo time do Principado que conseguiu sua primeira convocação para a seleção.

Em 1996, o lateral/zagueiro chegou ao Parma. Sob o comando de Carlos Ancelotti e ao lado de Buffon, Fabio Cannavaro e Hernán Crespo, fez história no time, conquistando o vice-campeonato italiano logo em sua primeira temporada (o título ficou com a Juventus). As principais conquistas de Thuram pela equipe italiana foram a Copa Uefa, Copa Itália e a Supercopa Italiana. Em 1997, foi eleito o melhor jogador estrangeiro do Campeonato Italiano e, pela France Football, o melhor jogador francês da temporada.

BRILHO NA SELEÇÃO FRANCESA

Pela seleção, Thuram já havia disputado a Euro em 1996, quando os Bleus foram eliminados na semifinal pela República Tcheca. Dois anos depois, lá estava ele levantando a taça da Copa do Mundo, que foi disputada em seu país.

Thuram marcou apenas dois gols pela seleção em sua carreira, mas estes foram os mais importantes dos Bleus naquela Copa antes da grande final. Os gols aconteceram no jogo válido pela semifinal do torneio, realizado no Stade de France. De um lado, estava a seleção francesa, que, depois de eliminar a Itália, tinha conseguido de vez o apoio dos até então desconfiados torcedores. Do outro lado, a Croácia, disputando a sua primeira Copa do Mundo e chegando à semi após eliminar a Alemanha.

Os croatas saíram na frente com um gol do meia Asanovic. Mas, logo depois, apareceu a estrela de Thuram, que, com dois gols ainda na primeira etapa, levou os Bleus para a final. O primeiro gol saiu depois de boa tabela com Djorkaeff, que terminou com Thuram chutando na saída do goleiro. Aos 24 minutos, Thuram, de novo, roubou a bola do meia Jarni, bateu de canhota de fora da área e virou o placar, levando a França à sua primeira final em uma Copa do Mundo.

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Thuram chuta para marcar o gol contra a Croácia. (fonte:tangosyetruscos)

Na final, o adversário era o tradicionalíssimo Brasil que, com Ronaldo, Edmundo, Roberto Carlos e Rivaldo, era o favorito ao título. Jogando como lateral direito, Thuram apoiou menos o ataque e se preocupou mais com a defesa. Com dois gol de Zidane e um de Petit, a França venceu por 3×0 e conquistou o título. Thuram foi escolhido o terceiro melhor jogador da Copa do Mundo de 1998, ficando atrás somente de Ronaldo e do croata Davor Suker, artilheiro da competição.


Em 2000, ao lado de Zidane, Thierry Henry, Laurent Blanc, Patrick Viera, Deschamps (atual técnico da seleção) e David Trezeguet, conquistou a Uefa Euro, sendo titular em cinco dos seis jogos na competição. Na derrota para a Holanda, a única da França no torneio, o lateral/zagueiro não esteve em campo.

Na Euro de 2004, a campanha foi muito abaixo da expectativa, sendo a França eliminada nas quartas de final para a Grécia, que venceu com um gol do atacante Angelos Charisteas.

DE VOLTA À TRAJETÓRIA EM CLUBES

Em 2001, depois de ótimas temporadas pela seleção e pelo Parma, a Juventus abriu os cofres e pagou 34,4 milhões de euros por Thuram. Na equipe de Turim, o atleta jogaria mais uma vez ao lado do goleiro Buffon, seu companheiro nos tempos de Parma. Logo na sua primeira temporada, conquistou o Campeonato Italiano, ficando um ponto na frente da vice-campeã Roma. Na temporada seguinte, de novo, conquistou o Campeonato Italiano, mas a derrota na final da Liga dos Campeões para o Milan acabou com a alegria do título.

Thuram com a camisa da Juventus (Fonte:orgullobianconero)

Thuram com a camisa da Juventus (Fonte:orgullobianconero)

Em 2004, a equipe de Turim anunciou a contratação do técnico Fabio Cabello e do jogador Fabio Cannavaro, com quem Thuram também já havia jogado nos tempos de Parma. O time venceu os dois campeonatos nacionais seguintes, mas, em 2006 estes títulos foram revogados por conta de um escândalo de manipulação de resultados. Além de perder os dois últimos títulos, o clube foi rebaixado.

Com o rebaixamento da Juventus, vários jogadores saíram do clube, Thuram inclusive. Depois de disputar 201 jogos pelo Parma e 145 pela Juve, estava na hora de mais um desafio na sua carreira.

O FINAL DE CARREIRA

Por 5 milhões de euros, Thuram se tornou o novo reforço do Barcelona, o então campeão da Liga dos Campeões, que tinha como destaque Ronaldinho Gaúcho. Seu desempenho, entretanto, foi muito prejudicado por lesões e ele não era considerado titular absoluto – disputava a posição com Puyol e Rafael Márquez, ambos em ótima fase. No time catalão, conquistou apenas a Supercopa da Espanha, em 2006.

Pela seleção, ainda disputou a Copa do Mundo de 2006, sendo vice-campeão e eleito um dos melhores zagueiros do torneio. Na ocasião, Thuram chamou atenção também por sua atitude fora dos gramados, ao criticar o político de ultradireita Jean-Marie Le Pen. O líder da Frente Nacional declarou não conseguir reconhecer aquela seleção como francesa devido à “proporção de atletas negros”, ao que Thuram respondeu:

-Jean-Marie é o tipo de sujeito que deve se assustar quando vê um time de negros defendendo a seleção de basquete dos Estados Unidos. Ele não conhece a sociedade e a história da França, que um dia pretende dirigir. Pega mal um candidato a presidente não saber que existem franceses que são negros, brancos, mulatos. Quando entramos em campo pela nossa seleção, jogamos como franceses. Pela França. Quando a torcida celebra nossas vitórias, comemoram como franceses, não como pessoas brancas ou negras. Só posso dizer uma coisa a ele: a seleção francesa tem muito orgulho de ser francesa. Se Le Pen tem um problema com o nosso time, azar dele. Porque somos a verdadeira França. Não a França que ele deseja. 

Essa declaração foi feita depois da vitória sobre a Espanha e antes de vencer o Brasil, com show de Zidane. Os Bleus, entretanto, acabariam perderam a final para Itália nos pênaltis. A seleção francesa se tornou conhecida não apenas pela mistura de raças, mas pela sua riqueza futebolística e suas muitas vitórias, como o Mundial de 1998 e as Euros de 1984 e 2000. 

Depois de uma trágica eliminação na primeira fase da Euro 2008, Thuram anunciou sua aposentadoria da seleção, pela qual atuou em 142 jogos e marcou dois gols. Em 2008, o jogador estava a um passo de acertar sua transferência para o Paris Saint-Germain, mas, por causa de um problema cardíaco descoberto pelos médicos do clube francês, a negociação não se concretizou. Em agosto de 2008, depois de 646 jogos oficiais na carreira, anunciou sua aposentadoria do futebol. 

A LUTA CONTRA O RACISMO

Em 2008, após sua aposentadoria, criou a fundação Lilian Thuram que desenvolve atividades de conscientização como forma de combate ao preconceito racial.

Em 2010, o jogador francês lançou um livro chamado “Mes étoiles noires” (“Minhas estrelas negras”, em português), no qual aborda questões relacionadas ao racismo. No livro, Thuram diz que Itália é um país racista e se refere, dentre outras coisas, a um cântico dos torcedores da Juventus cuja letra diz que “um negro não pode ser italiano”. 

Livro "Mes Étoiles Noires" e a luta contra o racismo (fonte:imaniye.net)

Livro “Mes Étoiles Noires” e a luta contra o racismo (fonte:imaniye.net)

São poucos jogadores na história do futebol conhecidos por sua consciência política, social e racial e por suas preocupações além dos campos. Lilian Thuram é um exemplo como atleta e como ator social, destacando-se por seu compromisso no combate à discriminação.

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