Música, cinema, ‘stand up comedy’, poesia e… futebol!

MACUFE

Na cidade de Bloemfontein, bem no centro da África do Sul, essa mistura tem se tornado tradição. Capital judicial e sexto maior município do país, seu nome pode ser traduzido como “fonte das flores”, enquanto na língua local, o sesotho, a cidade é conhecida como Mangaung, que significa “o local onde o guepardo se esconde”. Ela fica localizada no Estado Livre (Free State), e foi sede da última Copa do Mundo, que lhe deixou de herança o belíssimo Free State Stadium. Nesta cidade, as raízes da cultura africana se enroscam nas tradições boer e saxônicas, bebem das novas tendências do pop e florescem no desabrochar das mais diversas expressões culturais, juntas num só evento: o Mangaung African Cultural Festival, mais conhecido como Macufe.

Em Bloemfontein, o futebol volta a ser expressão cultural.

Festival Macufe: em Bloemfontein, o futebol ganha espaço ao lado de outras expressões culturais africanas.

Desde 1997, o festival é promovido pelo governo do Free State e tem atraído um público maior a cada ano. Sua primeira edição contou com a presença de 30 mil pessoas, enquanto a última recebeu cerca de 160 mil pagantes, segundo a organização do evento. É um número expressivo, que consolida a iniciativa como um dos maiores festivais de toda a África. O Macufe, entretanto, se propõe a ser mais do que um festival de música. É um grande reunião da cultura do continente africano, em quase todas as suas expressões. Tudo isso num ambiente que incita a troca de experiências entre esses diversos campos da criatividade humana. Nele, estão presentes artistas africanos e estrangeiros, dos desconhecidos aos mais renomados, como o cantor de soul americano Maxwell.

A “cidade das flores”, conhecida no país pela sua hospitalidade, é completamente tomada pelo festival: teatros, cinemas e ruas recebem de braços abertos os desfiles, shows, exposições de artesanato, declamações de poemas, exibições de filmes e apresentações de ‘stand up comedy’. Experimentações culturais como o intercâmbio entre músicos sul-africanos e congoleses, realizado na edição de 2012, dão ao evento um caráter inovador, capaz de unir culturas que nunca sequer haviam sido aproximadas.

Trecho da apresentação da cantora americana Angie Stone no festival:

Um pouco das apresentações de ‘stand-up comedy’:

Em meio à frenética ebulição no espírito da cidade, o futebol evidentemente não poderia ficar de fora. A organização do festival então lançou, em seu último dia, um torneio amistoso: a Macufe Cup, em que o Bloemfontein Celtics desafia o tradicional Kaizer Chiefs, levando em média mais de 35 mil torcedores ao moderno estádio Free State. O jogo tem caráter amistoso, mas o troféu e a rivalidade em jogo são suficientes para ocasionar jogos equilibrados, e uma grande vontade de vencer, sobretudo por parte dos Celtics. O time da casa, de menor expressão, já sofreu derrotas homéricas diante dos Chiefs em sua história e o orgulho ferido sempre fala mais alto. Na última edição, por exemplo, a equipe de Joanesburgo resolveu poupar alguns jogadores e dar ritmo de jogo a outros recém-contratados, como o meia da seleção Tsepo Masilela. Do outro lado, os Celtics se aproveitaram da presença massiva de sua torcida e conquistaram uma boa vitória por 4×3, recuperando a taça que havia sido perdida na edição anterior.

Com o estádio lotado e tanta inspiração no ar, tem sido uma tarefa cada vez mais dura tirar o caneco das mãos dos Celtics. O troféu, para o povo de Bloemfontein, tem sido a cereja do bolo de um festival que dura apenas uma semana, mas que sempre deixa suas sementes para enriquecer a cultura da cidade, mantendo-a permanentemente num estado de espírito digno do nome que carrega.

Abaixo, os gols da última edição da Macufe Cup, vencida pelos Celtics:

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.