Saudosismo e o futebol

  • por José Eduardo Volpini
  • 8 Anos atrás

Texto elaborado por Eduardo Santos Silva

Do Houaiss:


saudosismo

substantivo masculino
1 tendência, gosto fundado na valorização demasiada do passado
2 fidelidade a princípios políticos, ideais, usos e costumes que já não são aceitos
3 P mistura de filosofia e religiosidade nacional, baseada no sentimento mais característico da alma portuguesa, a saudade
3.1 lit P movimento literário, defendido por Teixeira de Pascoaes (1877-1952) e inserto entre o Simbolismo e a geração modernista, que reclamava para a literatura portuguesa, esp. para a poesia, a ideia místico-filosófica da valorização da saudade como uma feição típica dessa literatura inicial maiúsc.
Etimologia

saudoso + -ismo; ver 2sol(i)-

A nostalgia começa a aparecer quando o que vemos no presente sempre parece pior do que o que vimos no passado. Pode acontecer em todas as áreas: música, gastronomia artes, cinema, televisão, e, pasmem, até tecnologia (quantas vezes ouvimos que era bem melhor quando se compravam discos, fitas e cds?).A nostalgia também está presente no futebol. A geração que viu Pelé jogar não aceita que o Rei possa ser superado, que haja um driblador como Garrincha, que um zagueiro tenha a mesma categoria de Franz Beckembauer e que existam goleiros páreos para Yashin.

Todo esse pensamento é legítimo quando se está falando de monstros sagrados do futebol. Esses podem até ser superados em campo, mas conquistaram um lugar especial no imaginário popular que dificilmente será perdido. O que não acontece em outros casos…

Muitas vezes, eventos do passado são exaltados não por sua qualidade, mas porque foram vividos intensamente. No futebol, é comum se ver a aclamação de jogadores de outrora que muitos atuais superam. 

Evair era um excelente centroavante, mas será que Barcos é tão pior?
Rincón foi um dos maiores volantes da história corintiana (se não o maior), mas é tão errado achar que Paulinho pode superá-lo?
Eusébio foi um grande ídolo português, mas Cristiano Ronaldo fica tão atrás dele?
Totti era pior que Roberto Baggio?
Thiago Silva jogava menos que Gamarra?
Um lançamento do Gérson era mais genial que os do Marcelinho Carioca ou Beckham?
Luis Fabiano tinha um faro de gol pior que Serginho Chulapa?

Os exemplos são inúmeros e não apenas com jogadores. Até mesmo os campeonatos estaduais são considerados por alguns inferiores aos de antigamente. Será que são?

Os mesmos que defendem que todos os times do interior eram fortes em épocas passadas não conseguem explicar como o domínio dos grandes era até maior, visto que existiam pouquíssimas zebras.

Eusébio e Cristiano Ronaldo. Foto: Zimbio.

Eusébio e Cristiano Ronaldo. Foto: Zimbio.

Há quem diga que os campeonatos europeus também eram mais fortes, mas os mesmos times fracos como Cesena, Getafe, Wigan e tantos outros também eram destroçados por craques de outrora, não era uma especialidade de Messi ou Van Persie.

E chegamos, por fim, ao maior torneio de futebol: a Copa do Mundo. A impressão que se passa é que a Copa favorita de qualquer um é aquela que foi acompanhada na adolescência, com todo o deslumbramento que essa idade traz. À medida que as pessoas envelhecem, parecem esquecer que um Togo x Arábia Saudita pode ser tão legal quanto era antes.

Roberto Baggio e Francesco Totti. Foto: Soccer Euphoria

Roberto Baggio e Francesco Totti. Foto: Soccer Euphoria

Jogos, times e jogadores ruins sempre irão existir. Os bons também, na mesma proporção. A maneira com que se lida com essa situação é que vai definir como o debate deve ser levado.

A nostalgia no futebol é um bom tema numa mesa de bar, mas tem que ser deixada de lado em um debate mais profundo e sério para que não ocorra o risco de injustiças e deslumbramento excessivos.

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