O Brasil e o Brasil da Copa

  • por Doentes por Futebol
  • 8 Anos atrás

Elaborado por Luiz Felipe Nunes

No dia 7 de Abril, após sucessivos adiamentos, a nova Arena Fonte Nova será entregue pela construtora responsável ao governo da Bahia. Fechada desde 2007, a Fonte Nova, apontada por um relatório do Sinaenco (Sindicato da Arquitetura e Engenharia) como o estádio mais mal conservado do país entre 27 analisados, se tornou um símbolo do descaso público e da velha mania brasileira de ignorar a prevenção. Em 25 de novembro de 2007, poucas semanas depois da divulgação do relatório, parte do anel superior do estádio cedeu e dezenas de torcedores despencaram de uma altura de mais de 20 metros. Sete morreram durante a partida entre Bahia e Vila Nova-GO, válida pela fase final do Brasileirão da Série C de 2007.

O acidente, ocorrido poucos meses após a confirmação do Brasil como sede da Copa do Mundo de 2014, lançou desconfiança na comunidade internacional sobre a capacidade brasileira de organizar tal evento e fez explodir o movimento por melhoras nos estádios. Este movimento começou, em grande parte, motivado pela necessidade de melhorias imposta pelo Mundial. Pela análise do estado de manutenção dos estádios brasileiros da Sinaenco, a tarefa não seria nada fácil. Os 27 estádios analisados em 17 capitais e em Santos apresentaram falhas estruturais, algumas delas bem graves.

O Mané Garrincha, em Brasília, é um dos mais prováveis elefantes brancos após a Copa. | Foto: Arena.

O Mané Garrincha, em Brasília, é um dos mais prováveis elefantes brancos após a Copa. | Foto: Arena.

Campeões de falhas no relatório, Mineirão e Fonte Nova passaram por grandes melhorias para receber a Copa do Mundo. O estádio de Salvador foi implodido, e no local nasceu outra Fonte Nova, moderna, longe de ser o pior estádio do Brasil. Os antigos Verdão, Vivaldão, Machadão e Mané Garrincha também vieram abaixo e deram lugar à Arena Pantanal, Arena Amazônia, Arena das Dunas e Estádio Nacional, respectivamente. Arena da Baixada, Castelão e, mais uma vez, Maracanã, que apareceram no relatório, passaram por intervenções. Entre as arenas que não receberão a Copa, o Olímpico não passou por reformas, mas deu lugar à Arena do Grêmio, e o Palmeiras, acompanhando a fase das modernizações, constrói a Arena Palestra. No grupo dos estádios que não foram avaliados pelo Sinaenco, o antigo Independência virou Arena Independência, o Beira-Rio passa por reforma e a Arena Corinthians e Arena Pernambuco estão com obras avançadas. Um número expressivo para o país que, até meados de 2010, tinha apenas a Arena da Baixada e Engenhão como exemplos de modernidade de estádios.

Mineirão um dia antes da reabertura. Foto: Lancenet

Mineirão um dia antes da reabertura. Foto: Lancenet

 

Ao todo, entre as arenas estudadas pelo Sindicato, dez passaram por reformas profundas e um foi subutilizado. Todos estão localizados em cidades que receberão a Copa. O número corresponde a menos da metade dos estádios listados no Relatório do Sindicato com a ‘validade vencida’. Estádios brasileiros importantes em cidades fora da rota da Copa, como o Orlando Scarpelli em Florianópolis, o Mangueirão, em Belém ou até mesmo a Vila Belmiro (terceiro lugar nada glorioso entre os estádios mais precários), ainda apresentam estruturas abaixo do aceitável. Não faz muito tempo desde o episódio em que uma ambulância não conseguiu entrar no gramado da Vila para socorrer o zagueiro Rafael Marques, do Atlético-MG, durante partida contra o Santos. Já o Serra Dourada, sede do Superclássico das Américas, realizou reformas mínimas para receber a Seleção. Nada que insira o estádio no rol das arenas modernas do país. Por apresentar falhas importantes (como pode ser visto no episódio em que um torcedor tricolor literalmente nadou nas arquibancadas inundadas), o gigante Morumbi se prepara para uma grande reforma futura, mas, até agora, recebeu apenas modificações pontuais. Outros estádios de relevo, como o Pacaembu, Ilha do Retiro e Arruda, seguem o mesmo caminho.

O temor de que se forme um Brasil do Futebol Moderno dentro do Brasil do Futebol Precário é real. A possibilidade de, na mesma cidade, existirem um estádio caindo aos pedaços e uma arena digna de Champions League existe de fato. Mas deve-se considerar que os novos estádios no país são um indício mais que aceitável de que os tempos estão a mudar no futebol brasileiro. Futuramente, as lembranças do assustador tubo metálico com espinhos (que mais parecem uma arma medieval) no Olímpico, os inúmeros fossos separando torcida do campo com arames pontiagudos como no Mineirão, as grades de ferro pontiagudas separando setores, placas de publicidade que atrapalham visão do torcedor e os outros inúmeros problemas típicos de estádios brasileiros devem ficar mais distantes. Esperamos que uma tragédia como a da Fonte Nova em 2007 nunca mais se repita.

A reforma da Fonte Nova custou R$ 591,7 milhões. O estádio vai sediar 3 partidas na Copa das Confederações de 2013, incluindo a partida entre Brasil x Itália na fase de grupos e uma disputa de 3º lugar e 6 jogos na Copa do Mundo de 2014. A previsão é que no final de março o estádio seja inaugurado com shows e o clássico Ba-Vi.

Comentários