O clássico da afirmação?

  • por João Vitor Poppi
  • 8 Anos atrás

Palmeiras e Santos vinham com dez e cinco jogos sem derrota (no campeonato regional), respectivamente. Invencibilidade que não convenceu as exigentes torcidas, relutantes quanto ao desempenho dos times nesse inicio de temporada.

O time da capital só conseguiu competitividade a partir da estreia na Libertadores: vitória por 2×1 frente ao Sporting Cristal, do Peru. Aquele jogo marcou uma mudança tática alviverde, com passagem do 4-3-3 para um desenho tático com dois jogadores abertos e dois centralizados (fazem a função de meias armadores e se apresentam ao ataque), marcando os laterais e volantes adversários. O famoso esquema sem centroavante. O elenco estava todo desfalcado, mas a mudança não ocorreu apenas por isso. Ela veio também pela necessidade do time ser mais sólido. Alguns jogos mais à frente, agora com mais opções, o treinador passou a utilizar o 4-2-3-1, tática diferente da anterior, mas com o principal conceito idêntico: meio-campo congestionado. 

Independente do esquema tático, o Palmeiras busca dominar seus adversários através do seu meio-campo (normalmente com cinco jogadores). É rápido, possui mobilidade e tem boa chegada ao ataque, mas carece de criatividade – principalmente com as lesões de Valdivia. E sempre busca agredir ofensivamente com jogadas pelos lados do campo. Mas parece que alguém faltou às aulas.

Muricy Ramalho fez tudo que o Palmeiras queria: entregou o meio campo ao adversário e deixou os lados do campo desprotegidos. O Santos foi ao clássico definido no 4-3-3. Os dois pontas atuaram bem adiantados e não voltavam para recompor o meio-campo, muito menos marcaram as decidas dos laterais do rival. O time alvinegro ficou com dois buracos no seu campo. A distância dos laterais para os pontas era imensa e, à frente dos volantes, existia uma área não preenchida – tarefa para ser realizada através da movimentação de Cícero e Arouca.

Os volantes alvinegros várias vezes tinham que sair para ajudar os laterais a marcar. Surgia então espaço para Léo Gago e Charles chutar de longa distância, umas das principais armas do time verde no jogo. O time mandante utilizou um 4-2-3-1 torto. Leandro atuou com muita profundidade pela esquerda, Wesley partiu do centro para o lado esquerdo e Charles ficou mais recuado pelo lado direito, sempre preenchendo aquele flanco, ofensivamente e defensivamente.

Marcio Araújo e Léo Gago pressionaram Cícero e Arouca, respectivamente. Com espaço e sem nenhum armador para marcar, a dupla palmeirense conseguiu empurrar os santistas ao campo defensivo. Wesley, com muita movimentação, conseguiu deslocar Renê Jr. da cabeça de área por diversas vezes. Leandro prendeu Bruno Peres na defesa. Com Weldinho e Juninho descendo ao ataque com frequência, o Palmeiras conquistou o ”homem a mais” ofensivamente. Charles jogou na faixa intermediária (pela direita), não chegando à linha de fundo, mas sim afunilando para o meio. Léo, seu marcador natural, pouco acompanhou o ex-Cruzeiro, ficando mais preso na lateral esquerda. Desse problema defensivo surgiram perigosos chutes da entrada da área.

A marcação do Palmeiras começava da intermediária ofensiva. A maior parte da primeira etapa teve o ataque palmeirense forçando pelo lado esquerdo, com Leandro jogando de forma aguda, Juninho se apresentando vindo de trás, Wesley sempre caindo por ali e Léo Gago dando suporte. A intenção era clara: forçar pelo lado direito defensivo santista. O objetivo era tirar a saída de bola alvinegra, deixando B. Peres e Arouca, os dois motores do time, presos na defesa.

primeiro tempo palmeiras x santos


Com muita movimentação, marcação encaixada e atuando nas costas do pontas santistas, o Palmeiras foi melhor nos primeiros 45 minutos. O time treinado por Kleina não conseguiu transformar intensidade em gol. Para isso faltou aquele passe diferente, típico de um camisa dez, para dar maior poder de infiltração na área adversária. Mais ainda, faltou quem definisse com precisão as jogadas.

Muricy viu que sua escolha pelo terceiro atacante foi um erro. Substituiu Neílton por Alan Santos no intervalo. O time passou a atuar com praticamente duas linhas de quatro. A segunda linha só não era bem definida porque Arouca se posicionava mais adiantado e não ficava na extremidade direita.

O time visitante melhorou. Conseguiu se desafogar, pois tirou o ”homem a mais” do Palmeiras no meio-campo. Com isso, B. Peres teve espaço para fazer o que mais sabe: atacar com velocidade. Em seis minutos, o Peixe criou duas preciosas chances de gol. Após boa triangulação ofensiva dentro da área adversária, Giva chutou fraco. Logo em sequência, o lateral-direito santista cruzou com liberdade. André, sozinho e sem goleiro, errou o gol.

segundo tempo palmeiras x santos


Kleina não apostou para ver. Sacou Charles para entrada de Rondinelly, que fez sua estreia com a camisa verde. Leandro foi deslocado para o flanco direito e o estreante ficou com o esquerdo, revezando com Wesley. O time ganhou força ofensiva, pois agora tinha profundidade nos dois lados.

O Palmeiras mais uma vez conseguiu prender os laterais adversários no campo defensivo. Parou de sofrer perigo e dominou a posse de bola, mas não criou. O jogo só deixou de ser morno aos 21 minutos, com mais uma alteração de Kleina: Vinícius na vaga de Caio. E o Palmeiras voltava a atuar sem centroavantes (Wesley e Rondinelly por dentro e Vinícius – esquerdo – e Leandro – direito – pelos lados).

Mais força na transição na retomada ao ataque e maior velocidade pelos lados: esses foram os ganhos do time alviverde com a segunda substituição. O Santos continuava com a marcação mais ajustada em comparação ao primeiro tempo, mas não conseguia criar, o que fez apenas nos dez minutos iniciais da segunda etapa.

Os dois time foram cansando e o nível da partida caiu muito. As únicas jogadas de perigo eram os chutes de fora da área, por parte do time verde, que perduraram por todo jogo. Já nos minutos finais, Rafael pulou atrasado em um longo chute de Wesley. No rebote, Vinícius errou um cruzamento tranquilo, que deixaria Leandro de frente para o gol, sem goleiro, e evidenciou o problema que assolou o Palmeiras no duelo: a falta da precisão no momento de definir uma jogada, tanto o último passe quanto a finalização.

O 0x0 prorrogou a invencibilidade dos clubes na competição, juntamente com as dúvidas das torcidas quanto a produção dos dois times. O clássico que poderia ser o do início da afirmação para uma das duas equipes se tornou o das ”afirmações”. O jogo deu ainda mais munição para afirmar que o Palmeiras precisa de um ”matador” e que sem Valdivia o meio campo carece do passe em profundidade. O momento alviverde pede paciência e apoio da torcida. Não se viu nenhum brilhantismo dentro das quatro linhas, mas o time está evoluindo bem dentro de suas perspectivas. Perdeu apenas uma partida no Paulistão – e nenhum clássico – e se vencer a próxima partida em casa pela Libertadores volta à zona de classificação. Kleina está conseguindo dar padrão tático e mobilidade ao Palmeiras, o que é um grande feito, considerando a reformulação feita no elenco verde.

Pelos lados da Baixada Santista é nítido que o time ainda não está estruturado para jogar com dois pontas, como no desenho tático desse domingo. Sobra muito espaço pelos lados, o meio campo não consegue prender a bola e Bruno Peres perde campo para apoiar o ataque. Consequentemente perde-se velocidade e leva pressão do adversário.

O melhor Santos de 2013 foi o dos primeiros jogos, com Renê Jr. fazendo o papel de um falso terceiro zagueiro, atuando como líbero; Arouca e Cícero na cabeça de área (tudo isso dava liberdade para B.Peres e Guilherme atuarem como alas, dando força aos flancos); Montillo centralizado, para pensar o jogo; Neymar com espaço para flutuar, posicionando como segundo atacante; e André ou Miralles de centroavante. 

Muricy mudou depois que Assunção ganhou condições de jogo. Tirou Renê Jr. do time para entrada do ex-capitão do Palmeiras, passou Cícero para o lado esquerdo e escalou seu time no 4-2-3-1. A partir desse momento, o Santos não se encaixou mais. Ocorreram muitas mudanças táticas e o time não ganhou padrão de jogo. O currículo do técnico é de causar inveja, mas ele vem errando em algumas escolhas, principalmente nos últimos jogos. O elenco do Santos é bom e Muricy é competente o suficiente para fazer o time entrar nos trilhos. Basta voltar a fazer o simples, pois sua história mostra: o básico é sinônimo de vitórias.

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Acadêmico de Jornalismo. Analista Tático. Redator na DPF e na Vavel Brasil.