O dia em que o Bale parou

  • por João Vitor Poppi
  • 8 Anos atrás

 

Todo time adversário do Tottenham fica com a famosa dúvida: como marcar Gareth Bale? O Fulham conquistou o direito de respondê-la, completando a missão com extrema eficácia. No clássico local disputado em White Hart Lane, vitória surpreendente do Fulham, colocando a terceira derrota consecutiva no currículo do time treinado por André Villas-Boas.

E foi exatamente no técnico português que o primeiro holofote foi lançado. Surpreendeu a todos: escalou Ekotto no meio-campo pelo lado esquerdo, passou Vertonghen para lateral esquerda e deixou nomes como Dempsey e Holtby no banco de reservas. O maior prejudicado pela questionável escolha, além do Tottenham, foi Bale, mesmo que essa afirmação seja um pleonasmo na atual temporada.

O time treinado por Martin Jol marcou o arco, não a flecha. Combateu quem realmente arma o jogo dos Spurs. E não é Bale – o camisa onze é a flecha. O Fulham jogou recuado, com as habituais duas linhas de quatro e Brayn Ruiz à frente da segunda. Mas, no momento em que os Spurs partiam para fazer a saída de bola e começar a construir as jogadas, Karagounis e Ruiz se adiantavam, encurtando a marcação em cima de Dambélé e Parker, respectivamente. Marcar os dois volantes no momento em que eles recebem a bola tirou o espaço e tempo deles pensarem. Os ”botes” dos Cottagers foram certeiros em cortar o mal pela raiz, melhor dizendo, em cortar a bola que, caso contrário, chegaria limpa para Bale. 

Foi nesse momento que a escolha questionável de Vilas-Boas prejudicou o desempenho do time, e/ou de Bale. Com os volantes acuados, a saída seria que os laterais fizessem, ou, no mínimo, ajudassem a transição ofensiva. Não foi possível. Vertonghen e Ekotto bateram cabeça: um ocupava o espaço do outro, muito mal posicionados. Não era incomum ver, nos momentos em que o Tottenham era atacado, Vertonghen como um terceiro zagueiro e Ekotto em sua posição de origem, o que gerou espaços para o Fulham atacar pelo setor. Pela direita, Naughton esteve sumido. 

Por não receber nenhuma bola em profundidade, o camaronês não conseguiu ser muito produtivo atuando como winger. Sua principal característica não foi respeitada: vir de trás para receber em velocidade. O time mandante insistiu muito pelo desorganizado lado esquerdo, enquanto Sigurdsson ficou totalmente apagado pela direita. O winger finlandês ficou entre Risse e Dejagah e pouco se movimentou.

Bale, mais uma vez, atuou centralizado na linha de três, com seu time disposto no 4-2-3-1. O galês ficou em uma zona morta do campo ”criada” pela estratégia adotada pelo time visitante. Atuou entre as duas linhas de quatro adversárias, com Sidwell se desprendendo para vigiá-lo de perto.



Tudo que podia abastecer Bale foi bloqueado. Tamanha engenharia tática deu resultado: apenas um arremate de dentro da área, com Bale desviando de cabeça uma cobrança da falta nos primeiros 45 minutos. A disciplina, o equilíbrio mental e a força nos momento de desarmar o time rival foram virtudes dignas de aplausos por parte do Fulham que teve ainda dois escapes ofensivos: Riether (em cima dos espaços deixados por Ekotto e Vertonghen) e os lançamentos longos de B.Ruiz para os dois wingers, principalmente Dejagah.

Na segunda etapa, Villas-Boas tentou corrigir seu erro. Substituiu Dawson por Dempsey, Vertonghen e Ekotto voltaram para suas posições de origem, e o americano iniciou no meio campo pela esquerda. O lado esquerdo melhorou, mas os maiores problemas continuavam sem solução: Dembélé preso à marcação e Bale na zona morta do campo.

O Tottenham teve um falso ímpeto ofensivo com Dempsey em campo, e foi através dele que o Fulham fez o gol da vitória. Com as linhas mais adiantadas, o Fulham encontrou espaço para construir o contra-ataque definido por Berbatov, que não comemorou.

Com a zaga exposta e nenhuma criatividade ofensiva, a desvantagem aumentou e o empate ficou menos provável. O técnico português, então, partiu pro tudo ou nada. Colocou Defoe na vaga de Sigurdsson e, pouco tempo depois, trocou Dembélé por Carrol. A imagem abaixo ilustra o novo posicionamento do time.



A partir dos dezesseis minutos da segunda etapa, Bale trocou de posição e passou a jogar aberto pela direita. A partir daí, os Spurs fariam suas ”estreias” naquela partida, todas com a participação de Bale.

Aos 24 minutos da segunda etapa, o time mandante deu seu primeiro chute de dentro da área adversária com Defoe – Bale centralizou para dar passagem ao lateral. Quatro minutos depois, ocorreu a primeira jogada armada, vinda de trás. Carrol fez fila na faixa central, Bale entrou em diagonal na área – deu a opção de passe, o que não existiu durante o jogo – mas não alcançou a bola. Nos últimos minutos, Defoe perdeu gol cara a cara com Schwarzer, após cruzamento rasteiro do galês, a única chance clara de gol do Tottenham.

O atual 4º colocado da Premier League está entrando em um momento delicado. Existe vida sem Gareth Bale? Esse é uma questão muito batida, mas que agora está vindo com um direcionamento diferente. Antes, era feita quando o jogador não tinha condições de entrar em campo. A partir do jogo contra o Fulham, passou a ser feita considerando-se as estratégias táticas para anulá-lo. Se esse ”novo” questionamento sobre Bale se tornar comum, a classificação para a próxima Uefa Champions League estará sob forte ameaça, junto com a participação do time na atual Europa League. 

Escalar o camisa onze na faixa central do campo o deixa mais próximo do gol, mas também tem seus pontos negativos. O posicionamento central tira a velocidade do meia em muitas ocasiões e dificulta sua movimentação (mais voltada para jogadas em profundidade). Além disso, como no jogo contra o Fullham, a participação de Bale pode ser totalmente comprometida caso a marcação consiga bloquear as bolas direcionadas a ele. 

A participação de Dembélé também precisa ser olhada com cuidado, pois o belga está organizando (por trás) o time há tempos. Sem sua categoria aparecendo para orquestrar o meio, a bola não vai chegar a Bale como deveria. Também vale ressaltar que Lennon faz muita falta ao time, pois o winger inglês abre espaços, o que ninguém está conseguindo fazer em seu lugar.

O Tottenham sem Bale ainda é o Tottenham. Mas qual é o desempenho do time sem Bale? Cabe ao técnico Villas-Boas responder nos próximos capítulos da saga dos Spurs pela vaga na UCL e pela taça da UEL. Seu trabalho é de muita qualidade, mas encontrar (ou não) a solução para as fortes marcações que virão em cima de Bale, e na bola direcionada a ele, decidirá seu o futuro e também o do clube.

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Acadêmico de Jornalismo. Analista Tático. Redator na DPF e na Vavel Brasil.