O futebol na Polônia da II Guerra Mundial

  • por Igor Leal da Fonseca
  • 8 Anos atrás

Introdução

1º de Setembro de 1939: uma Europa descrente vê a Polônia ser invadida pelo exército da Alemanha, evento que dá início à II Guerra Mundial. Pouco mais de uma quinzena depois, a União Soviética ataca a Polônia pelo leste. O pais mal tinha completado 20 anos de independência – conquistada no fim da I Guerra Mundial – e já se via retalhada novamente, mais uma vez tendo os russos como um dos principais algozes. A Polônia foi ocupada e perdeu grande parte de sua população nos anos que se seguiram, em virtude da brutal caçada do Nazismo contra os judeus poloneses.

Mas por que estamos falando disso em um site sobre futebol? Porque existia futebol na Polônia antes da II Guerra Mundial e o mesmo foi suprimido pelos alemães, em uma história que poucas pessoas conhecem. Vamos contá-la.

Antes da conquista da Polônia pela Alemanha e pela URSS, os dois países assinaram o famoso pacto Molotov-Ribbentrop. Pelo trato, ficou estipulado que Alemanha e URSS não entrariam em conflito, não apoiariam nenhuma outra nação que estivesse em guerra com as duas potências signatárias e dividiriam vários territórios no leste da Europa. Especialmente a Polônia, que, como falamos acima, foi retalhada pelos 2 países.

Assinatura do pacto Molotov-Ribbentrop

Assinatura do pacto Molotov-Ribbentrop.

A divisão da Polônia em 1940.

A divisão da Polônia em 1940.


Em 1939, a Polônia já tinha uma liga nacional, organizada desde 1927 e com 5 times campeões nos anos anteriores. Em 1938, o Ruch Chorzów (vice campeão na temporada 2011/12) havia levantado o título. Em 1939, liderava a competição, quando a mesma foi interrompida após a invasão que deu início à II Guerra Mundial. Após as ocupações, podemos dividir o futebol na Polônia em 3 partes:



Futebol em Varsóvia, Cracóvia e Alta Silésia, áreas de ocupação da Alemanha

Demonstrando toda sua ferocidade contra o país, os nazistas baniram todos os clubes esportivos, impedindo suas atividades, algo que não ocorreu em nenhum outro país da Europa ocupada pela Alemanha. Jogadores e ativistas poloneses arriscavam suas vidas na prática do esporte, em campeonatos clandestinos disputados em Cracóvia e Varsóvia. Somente na Alta Silésia o esporte era disputado livremente, mas apenas por alemães.

Em 1940, as proibições se tornaram mais brandas e a cidade de Varsóvia foi palco de um torneio envolvendo 13 times. O Czarni bateu o Bimber por 3×1 e levou o título, mas foi o último jogo disputado no estádio da cidade, pois o mesmo fora interditado por autoridades da Alemanha. Mais de um ano depois, no Natal de 1941, Alfred Nowakowski criou uma liga clandestina em Varsóvia, que contava com times da cidade e de outras áreas adjacentes. A liga foi disputada nos anos de 1942, 1943 e 1944 (neste, interrompida). Em 1942 e 1943, o título foi conquistado pela equipe do Polonia Warszawa. Em 1944, a liga foi abolida em virtude dos eventos que passaram à história como o Levante de Varsóvia (excelentemente retratados no filme Uprising). O futebol ainda tinha a audiência das pessoas e centenas lotavam os campos espalhados pelos subúrbios de Varsóvia. Ainda em 1942, o Hurgan Wolomin encarou um time formado por alemães e búlgaros. Os poloneses venceram por 3×2. Ao contrário do acontecido na Ucrânia, os vencedores viveram para contar a história.

Em Cracóvia, outra grande cidade polonesa – que tinha 3 dos 7 times que disputavam a Liga da Polônia, a tônica das proibições foi a mesma. Mas já em outubro de 1939 começaram a ser disputadas partidas clandestinas. Foi organizada em agosto de 1940 a primeira liga da Cracóvia, graças à liberação da área do parque para a disputa de esportes, especialmente o futebol. A edição de 1940 foi vencida pelo Wisla, que ganhou todas as partidas. Alguns jogos tiveram até 3000 pessoas assistindo. No ano seguinte, a competição passou a contar com 13 equipes (contra 8 do ano anterior) e Wisla e Cracóvia terminaram empatados na primeira posição, tendo que ser realizado um jogo extra, vencido pelo Wisla por 3×2. Há muitos relatos de soldados alemães assistindo os jogos, mas sem importunar as equipes ou os torcedores. Em 1942, o Juvenia Sports Park (local de disputa dos jogos) foi fechado, impedindo a realização do campeonato. Em 1943, a liga estava de volta, dessa vez com 22 equipes. Mas aconteceram diversos distúrbios no andamento das partidas, gerando inclusive uma suspensão da disputa após várias brigas generalizadas durante os jogos, mas foi novamente liberada em 15 de agosto.

Foi disputada, em 17 de outubro de 1943, a final da Liga da Cracóvia, no Estádio Garbania. 10 mil pessoas viram o jogo Wisla x Cracóvia acabar após imensa briga, ocasionada por um pênalti marcado a favor do Cracóvia. O jogador Gracz, do Wisla, agrediu o árbitro Milusiński e todos os outros jogadores da equipe deixaram o campo. A pancadaria seguiu pelas ruas ao redor do estádio, mas sem intervenção de autoridades alemãs. De acordo com Hans Mitschke, comandante alemão do distrito, ”fãs de futebol são iguais em todos os lugares”. O Cracóvia foi declarado vencedor por 3×0 e conquistou a liga. Em 1944, a disputa não terminou, em virtude dos problemas ocasionados pela ocupação alemã.

Na Alta Silésia, a única ordem alemã foi para que as equipes mudassem seus nomes, mas os confrontos continuaram normalmente, com jogadores inclusive sendo liberados para a disputa das ligas da Cracóvia e Varsóvia.

Futebol na Polônia ocupada pela U.R.S.S.


Ao contrário dos alemães, os soviéticos não proibiram a disputa de esportes na sua área de ocupação, chegando a escolher poloneses para jogar por times soviéticos. Associações desportivas polonesas deixaram de existir, passando todas a terem equipes soviéticas, que se aproveitavam da infraestrutura das instalações locais.

Também, ao contrário do lado alemão, não há registros confiáveis de disputas de competições, existindo poucos dados sobre o futebol. Cabe destacar a atuação de jogadores e funcionários do Junak Drohobycz, expoente da resistência polonesa que ajudou na fuga de centenas de pessoas, procuradas pelos soviéticos, para a Hungria. A equipe se extinguiu ainda em 1939, sendo recriada na Hungria e excursionaria pela Iugoslávia. Ainda teve sede em Tel Aviv e no Iraque antes de se mudar para a Itália em 1944, quando fez um jogo contra o Napoli com mais de 35 mil pessoas presentes. A equipe do Junak mudou de nome, passando a se chamar ”Os Carpatos”, e contou com a presença de jogadores poloneses que haviam servido no exército alemão e que foram capturados/descartados pelos Aliados durante a guerra.

Cabe também relembrar uma partida disputada em outubro de 1939, entre a equipe do Exército Vermelho, que ocupava Bialystok, e uma equipe polonesa da mesma região. O time polonês vencia por 2×0 – apesar da arbitragem pró URSS – quando foi alertado no intervalo que deveria ”perder o jogo”. Ao contrário dos ucranianos, os poloneses não enfrentaram as forças de ocupação e perderam por 3×2.



Futebol em outras áreas da Polônia

Em Lodz, as disputas de partidas clandestinas começaram ainda em 1939. Em 24 de outubro de 1943, a polícia alemã interrompeu o jogo entre Wólka x Wicher, prendendo vários jogadores e torcedores das duas equipes. Em Piotrków Trybunalski, 5 equipes disputavam partidas de futebol, mas sempre na clandestinidade. Em Rzeszów, apesar da dura perseguição a jogadores no começo da II Guerra, mais tarde foram organizadas partidas entre poloneses e alemães, havendo inclusive relatos de alemães providenciando transporte para equipes polonesas.

Em Proszowice ocorreram jogos entre Proszowianka e uma equipe formada por jogadores da Cracóvia. Também aconteceu um confronto entre o Proszowianka e um time formado por soldados alemães. Os oficiais venceram por 4×1. Não há relatos de violência ou pressão de autoridades durante o jogo.

Há ainda relatos de partidas e competições disputadas nas cidades de Siedlce, Jędrzejów, Sandomierz, Grójec e Chełm, além de outras cidades da Polônia, mas sempre com muita repressão alemã e jogos sendo realizados de forma clandestina.

A Liga da Polônia só foi restabelecida por completo em 1948. Mas o país havia perdido a cidade de Lwów para a URSS (hoje Lviv, Ucrânia) e grande parte de seus clubes e jogadores. O futebol polonês só voltaria a brilhar nos anos 70 . Pagou muito caro pela guerra realizada em seu território.

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33 anos, morador do Rio de Janeiro. Rubro Negro de coração, apaixonado pelo Maracanã, tem no Barcelona o exemplo de clube para o que entende como futebol perfeito, dentro e fora do campo. Estudioso da memória do futebol, tem nessa sua área de maior atuação no site, para preservar a memória do esporte. Dedica especial atenção aos times mais alternativos, equipes que tiveram grandes feitos, mas que não são tão lembradas quanto as maiores do mundo. Curte também futebol do centro e do leste da Europa, com uma coluna semanal dedicada ao assunto. Um Doente muito antes de fazer parte desse manicômio, sua primeira memória acadêmica é uma redação sobre o Zico, na qual tirou 10 e a mesma foi para o mural da escola. Nunca trabalhou com futebol dessa forma, mas adora o que faz junto com o restante do pessoal e se pergunta o porquê de não ter começado com isso antes. Espera recuperar o ''tempo perdido''. Acha Lionel Messi o melhor que viu jogar e tem em Zico, Petkovic e Ronaldo Angelim como heróis.