O “sonho” da Beneliga

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Poucos países tem uma tradição futebolística, tanto em clube quanto em seleções, tão grande como a Holanda. O Ajax é o quarto maior vencedor do campeonato europeu de clubes, com 4 títulos. Tem ainda um título da Recopa e um da Copa da UEFA, hoje Europa League, além de 3 Supercopas Europeias.

PSV, Feyenoord e Twente também já conquistaram copas europeias, e Twente e AZ Alkmaar chegaram a finais. No total, são 14 títulos nesse tipo de torneio para os clubes holandeses, incluindo a Supercopa, além de 8 vice-campeonatos.

A Bélgica, embora hoje esteja distante dos seus tempos dourados, tem certa tradição no continente. O Brugge chegou à final da Liga dos Campeões de 1977-78 e o Anderlecht conquistou títulos das outras três competições europeias (Recopa, UEFA e Supercopa). Além disso, o Mechelen também conquistou uma Recopa e uma Supercopa.

Além dos três citados, ainda chegaram em finais europeias o Standard Liege e o Real Antuérpia. No total, são 7 títulos e 7 vice-campeonatos em copas do continente.

Porém, desde a final da Copa da UEFA de 2001-2002 (e posterior participação na Supercopa de 2002, em que perdeu para o Real Madrid), em que o Feyenoord bateu o Borussia Dortmund por 3-2 em Roterdã, nenhum time de algum dos países chega a uma final europeia.

Com a queda de rendimento nas grandes competições e com o enfraquecimento financeiro das suas grandes equipes, belgas e holandesas por vezes sugeriram (principalmente os belgas) que juntar as duas ligas em uma só competição poderia ser, do ponto de vista competitivo, uma boa solução.

Com o fortalecimento do aspecto competitivo, já que a liga teria a participação de mais clubes grandes/médios do futebol europeu, como PSV, Ajax, Feyenoord, Twente, AZ, Anderlecht, Brugge, Standard Liege e Genk, em um efeito cascata viriam contratos de TV maiores e uma maior exposição de jogadores, que poderia gerar até a volta de grandes jogadores e fortalecimento econômico dos clubes.

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Foto: Reprodução – Michel Verschueren, dirigente do Anderlecht da Bélgica.

Em 1996, quando o Ajax ainda era bem forte a nível mundial, o dirigente do Anderlecht, Michel Verschueren, foi o primeiro a expor na mídia razões para que as ligas belgas e holandesas se juntassem em uma liga maior, que atraísse mais público e receita, tornando os clubes da região mais fortes. Houve uma série de ações e ideias, e muitos diziam que a Euro 2000, que seria realizada nos dois países, aceleraria a criação da liga.

O tempo passou e novas ideias foram surgindo na Europa, como a Liga do Atlântico, em que participariam holandeses, belgas, portugueses, escoceses e países escandinavos, ou a Superliga, apoiada pelo G-14, que envolveria os melhores clubes do continente. Foram várias ideias e algumas negações da UEFA, que não queria, dentre outros fatores, ter seu poderio como organizadora de torneios diminuído.

Assim, a ideia da Beneliga, que poderia também envolver um time de Luxemburgo, esfriou, e apenas lembranças esporádicas apareceram na mídia durante alguns anos.

Em 2012, a discussão voltou à tona. Roland Duchâtelet, presidente do Standard de Liege, declarou que se o projeto da Beneliga não fosse para frente em dois anos seu clube pediria adesão ao campeonato francês. Disse ainda que grandes clubes da região, como Ajax, PSV, Anderlecht, Brugge e Standard Liege, aprovam a ideia, e que a única salvação para os clubes belgas seria o modelo de uma liga conjunta.

Ajax e PSV logo negaram a afirmação, enquanto a liga francesa afirmou que não haveria chance alguma do time belga jogar lá. O fato, porém, começou a chamar a atenção da mídia para a ideia.

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Foto: rtbf.com – Roland Duchâtelet, presidente do Standard de Liege, também da Bélgica.

O próprio Verschueren, pai da ideia na década de 90, declarou que as coisas mudaram e que nos dias atuais não seria mais necessária a criação da liga. Chegou a afirmar que o futebol belga não está em crise, já que seus clubes tem uma vaga direta na fase de grupos da Liga dos Campeões e contratos de TV razoáveis.

Mars Overmars declarou que nos seis meses em que trabalhou no Ajax nunca o assunto foi discutido. Para ele, 12 dos 18 clubes da primeira divisão, pelo menos, não teria interesse na competição.

Marco Van Basten, ao contrário, sempre se mostrou a favor da ideia, em entrevistas sobre o assunto concedidas em anos anteriores. Chegou a sugerir até o formato, em 2006. Segundo ele, seriam 10 clubes holandeses e 6 belgas. Da mesma forma, Vincent Kompany demonstrou a mesma opinião favorável à liga ano passado em seu twitter.

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Foto: Reprodução – Van Basten, hoje treinador do Heerenveen, da Holanda.

Michel Platini, presidente da UEFA, lembrou às equipes interessadas, porém, que no caso da substituição dos campeonatos locais pela Beneliga, as vagas para as competições europeias não seriam acumuladas. Assim, hoje a liga teria apenas duas vagas, e se Ajax e PSV, por exemplo, confirmarem o favoritismo em uma temporada, não haveria times belgas na Liga dos Campeões. Da mesma forma, não haveria holandeses se Anderlecht e Standard liderassem a tabela. Esse é, com certeza, uma dos maiores empecilhos para a criação da liga.

Ainda falando da chancela da UEFA, nos últimos dias a entidade rejeitou a criação da liga conjunta que russos e ucranianos queriam fazer para substituir suas ligas locais. Porém, em reunião conduzida por Theodore Theodoridis, diretor da UEFA, a ideia de uma liga dos Balcãs, envolvendo os países que formavam a antiga Iugoslávia mais Hungria e Bulgária, foi considerada interessante.

A favor da Beneliga, porém, ressalta-se que a UEFA aprovou, em caráter de teste, durante três anos, uma liga multinacional com belgas e holandeses no futebol feminino. Na primeira fase, as equipes participantes se dividiram em dois grupos, um apenas com belgas e outro com holandesas. Na segunda fase, que está em andamento, quatro equipes de cada chave estão jogando um octogonal que decidirá o campeão. Para a Liga dos Campeões Feminina da temporada que vem, classificar-se-ão o melhor colocado de cada país.

A Beneliga pode, sim, ser a salvação para que os clubes da região voltem a se tornar forte economicamente e possam competir de igual para igual com os grandes clubes europeus. Quem sabe com a Liga, um dia, podemos ver renascer na região grandes esquadrões como o Ajax do início dos anos 90, ou times com poder suficiente para chegar às finais da maior competição de clubes do continente, como o Brugge da temporada 1977-78 e o PSV de 1987-88.

Enfim, aguardemos novos capítulos…

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Sergio Rocha é torcedor do Madureira e sempre teve o sonho de escrever sobre esportes em geral, embora tenha optado pela carreira de engenheiro civil. No "currículo", cadernos recheados de resultados esportivos e agendas da década de 90, quando antes da internet acessava rádios de diversos locais do país buscando os resultados esportivos do Acre à Costa Rica. Além de fanático por futebol, é fanático por praticamente todos os esportes, e no tempo livre que sobra sempre busca os últimos resultados esportivos do PGA Tour ou dos futures da ATP. Além disso, coleciona quadrinhos da Disney e é louco por astronomia.