O último estadual profissional

Em 1943, o Decreto-Lei nº 5.812 desmembrou o estado do Amazonas em seis territórios: Ponta Porã, Iguaçu, Amapá, Rio Branco, Guaporé e Fernando de Noronha.

Em 1962, o Território Federal de Rio Branco mudou o nome para Território Federal de Roraima e tal foi transformado em Estado membro pela Constituição Federal de 1988, artigo 14 do Ato de Disposições Constitucionais Transitórias.

Daqueles territórios oficializados em 1943 que geraram Estados, o Amapá teve campeonato estadual já em 1944 e Rondônia (que era Guaporé) em 1945.

Uma dúvida paira sobre Roraima. Embora não se ache registros, há de se acreditar que houve campeonato no estado pelo menos na década de 50, já que em 1948 foi fundada a Federação Riobranquense de Desportos, renomeada posteriormente para Federação Riobranquense de Futebol. A revista Placar 1.105, de 1995, vai mais longe e afirma que o campeonato amador local existe desde 1939.

O fato é que o campeonato amador de Roraima tem registros de campeões desde 1960. Até 1994, em 35 campeonatos disputados, os maiores vencedores foram o Atlético Roraima Clube e o Baré Esporte Clube, ambos de Boa Vista, com 13 títulos. Por esse motivo e pelo quesito histórico, esses times fazem o maior clássico do Estado, apelidado de Bareima.

Jogadores do Baré campeões em 1969. Fonte: Site Click nos Campeões

Jogadores do Baré campeões em 1969.
Fonte: Site Click nos Campeões

O Atlético Roraima foi o primeiro clube de futebol do Estado, fundado em 01/10/1944 por Adolfo Brasil e alguns amigos, em sua maioria comerciantes da cidade de Rio Branco.

O Baré Esporte Clube foi o segundo clube a surgir, tendo sido fundado em 26/10/1946 por Aquilino da Morta Duarte e outros sócios que tinham abandonado o Atlético Roraima.

O site Campeões do Futebol traz um bom histórico sobre a Federação Riobranquense e o Estádio João Mineiro, o primeiro do Estado. A matéria pode ser lida em http://www.campeoesdofutebol.com.br/roraima_historia.html.

FRF
Desde 1974, o campeonato local é realizado pela Federação Roraimense de Futebol. A revista Placar, nas décadas de 70 e 80, quando registrava resultados do campeonato local, por muitas vezes descrevia erroneamente a competição como “campeonato profissional de Roraima”.
Com relação ao profissionalismo, em 1995 foi disputado, por assim dizer, o primeiro campeonato profissional “oficial” do Estado, com a participação de apenas três equipes: Baré, Atlético Roraima e Atlético Progresso Clube, time da cidade de Mucajaí fundado em 1959.

Assim, o campeonato roraimense foi o último campeonato estadual a abandonar o amadorismo (pelo menos no nome). Dentre os demais Estados brasileiros, os últimos a implantar o profissionalismo tinham sido o Acre, em 1989, e o Tocantins, em 1993. Segundo a mesma revista Placar citada anteriormente (edição 1.105), só houve a inscrição de três clubes porque a CBF cobrava R$ 100,00 por atleta inscrito.

O campeonato teve um regulamento inusitado. Os três times jogariam três triangulares em jogo único entre eles, e depois haveria a final entre os campeões dos turnos.

Em 28 de maio, um domingo, finalmente era dado o pontapé inicial para o profissionalismo no último Estado brasileiro. No jogo de estreia, o Baré goleou o Progresso por 4×0.

Sete dias depois, Progresso e Roraima não saíram do 0x0. No jogo final do turno, o empate em um gol entre Baré e Roraima garantiu ao time do Baré o título do primeiro turno.

No segundo turno, o Roraima apenas empatou com o Progresso no primeiro jogo: 1×1. No segundo jogo, o Baré venceu novamente o Progresso por 2-0. Mais uma vez com a vantagem do empate para vencer o turno, o Baré acabou perdendo do Roraima, que assim sagrou-se campeão do turno, por 1×0.

No terceiro turno, o Roraima finalmente conseguiu vencer o lanterninha Progresso por 2×1. O Baré fez 4×1 no time de Mucajaí e mais uma vez jogaria pelo empate contra o Roraima para vencer o turno. Em um jogo emocionante, o Roraima venceu por 3×2 e sagrou-se campeão do terceiro turno.

Roraima e Baré, assim, decidiram o campeonato em jogo único, com a vantagem do empate sendo do Roraima, que havia vencido dois turnos e entrado em tal fase com dois pontos extras. Com a terceira vitória em quatro jogos contra o rival no campeonato, 2×0, o Roraima foi proclamado o primeiro campeão roraimense profissional.

Poster do Roraima campeão em 1995. Fonte: Placar

Poster do Roraima campeão em 1995.
Fonte: Placar

Na artilharia do torneio apareceu Sousa, do Atlético Roraima, que marcou 7 dos 10 gols de sua equipe na competição.

As três equipes participaram do campeonato brasileiro da série C do mesmo ano, dividindo o grupo 21. Na primeira fase, o Roraima ficou com 6 pontos, na liderança da chave, seguido pelo Baré, com 5 pontos, e pelo Progresso, com 4.

Na segunda fase, o Roraima foi eliminado pelo Nacional de Manaus, após derrota por 4×0 em Manaus e empate sem gols em Boa Vista. O Baré, por outro lado, eliminou o Rio Negro, também de Manaus, após vitória por 2×0 em casa e empate em 3×3.

Nas oitavas de final, porém, o algoz do Roraima foi também o do Baré. O Nacional venceu o confronto agregado por 2×0 (2×0 e 0x0) e passou as oitavas de final. O time acreano, assim, terminou entre as 32 melhores equipes da competição, um resultado bom para quem acabara de se profissionalizar, considerando que a competição tinha 107 equipes.

Falta de apoio do governo e de patrocínio de empresas privadas ainda são tidos como os principais empecilhos para que o futebol profissional seja realmente sustentável no Estado. Em 2012, por exemplo, quatro times (Baré, Progresso de Mucajaí, River e Real de São Luiz do Anauá) desistiram de participar da competição com tais alegações. Assim, disputaram a competição apenas seis equipes: São Raimundo (campeão), Naútico (vice), Real, Rio Negro, Roraima e Gas.

Em 2013, cinco times dos nove que são filiados à FRF se inscreveram no estadual: Atlético Roraima, São Raimundo, Baré (que volta após dois anos), Progresso de Mucajaí e GAS. As equipes do Rio Negro, River e Real de São Luiz do Anauá, alegando problemas financeiros, desistiram do campeonato. A participação do Naútico é a grande incógnita até agora. O campeonato, que começaria em 23 de março, já foi adiado por pelo menos mais uma semana.

Hoje, o campeonato roraimense ainda pode ser considerado um dos mais fracos do país, ao lado dos certames do Amapá e Rondônia. Esse ano, será realizado o 19º campeonato estadual profissional, mas, como se vê nas notícias da região, o amadorismo ainda toma conta do futebol local. A tendência, pelo menos por mais alguns anos, é que a situação se mantenha.

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Sergio Rocha é torcedor do Madureira e sempre teve o sonho de escrever sobre esportes em geral, embora tenha optado pela carreira de engenheiro civil. No "currículo", cadernos recheados de resultados esportivos e agendas da década de 90, quando antes da internet acessava rádios de diversos locais do país buscando os resultados esportivos do Acre à Costa Rica. Além de fanático por futebol, é fanático por praticamente todos os esportes, e no tempo livre que sobra sempre busca os últimos resultados esportivos do PGA Tour ou dos futures da ATP. Além disso, coleciona quadrinhos da Disney e é louco por astronomia.