Os pecados de Vadão, ou: e agora, Sport?

Hoje à tarde, a diretoria rubro-negra fez o anúncio de que Vadão não seria mais o comandante do Sport. Desde o final de dezembro no cargo, o treinador não conseguiu fazer o time apresentar um futebol à altura das expectativas da torcida, que foi tomada por um sentimento de grande insatisfação com o treinador após a traumática eliminação nas quartas de final da Copa do Nordeste. As pífias exibições do time no Campeonato Pernambucano deixaram a instabilidade em níveis críticos, de modo que a demissão do treinador se tornou inévitável.

Oswaldo Alvarez parecia desnorteado desde a eliminação para o Campinense. Contando com o apoio irrestrito da diretoria, empreendeu uma caça às bruxas no elenco rubro-negro, colocando no banco de reservas os principais medalhões do grupo. Hugo, que vinha tendo atuações apagadas e tomando cartões amarelos infantis, demonstrava uma apatia preocupante nas partidas, e sua ida para o banco foi unanimidade entre a torcida leonina. Cicinho e Felipe Menezes, por outro lado, viviam bom momento: o primeiro apenas continuava a excelente fase de 2012, quando foi eleito o melhor lateral direito do Brasileirão; enquanto o segundo vinha crescendo de produção e deixando para trás a má reputação que construiu com sua inércia na temporada passada. Esse bom desempenho de ambos, entretanto, aparentemente não foi suficiente para convencer Vadão de que mereciam a titularidade, ainda que a decisão do treinador tenha sido duramente contestada pela torcida.

Lateral Cicinho virou bode expiatório com o mau desempenho.

Lateral Cicinho virou bode expiatório com o mau desempenho.

Para colocar seus ‘bodes expiatórios’ no banco, Vadão passou a escalar o time numa tentativa de 4-2-3-1, que na prática vinha funcionando mais como um mal arranjado 4-2-4. A defesa, alinhada com Moacir, Gabriel, Maurício e Reinaldo, apresentava as mesmas fragilidades que vinha mostrando desde o início da temporada, a despeito das atuações seguras de Maurício – que serviram para deixar evidente o caráter tático dos problemas. O meio-campo vinha sendo povoado apenas por dois volantes (Rithelly e Fábio Bahia), enquanto os quatro homens de frente tentavam se revezar na função de criador de jogadas – que nenhum deles está habituado a fazer. Sandrinho, grata revelação, foi nas últimas partidas o mais próximo que o Sport teve de um meia de criação, apesar de ser ser um jogador mais agudo. Na frente, Roger tem feito o papel de “camisa 9” clássico. Mas com a falta de oportunidades criadas, vinha tendo poucas chances de finalização, o que o forçou a ter que buscar mais o jogo no meio-campo – e, com isso, mostrar toda a sua falta de intimidade com a bola. Criando pouco e defendendo mal, o Sport vinha oferecendo pouca resistência mesmo aos adversários mais frágeis, e os pálidos resultados vinham expondo todas as deficiências da equipe, mesmo com algumas vitórias construídas na individualidade de alguns jogadores.

Com a lesão de Roger, Vadão apostou em Felipe Menezes e achou o time que fez as melhores atuações do Sport na temporada: fim do gargalo na criação de jogadas.

Com a lesão de Roger, Vadão apostou em Felipe Menezes e achou o Sport que fez suas melhores atuações na temporada: fim do gargalo na criação de jogadas e o apoio qualificado pela direita com Cicinho.

Após a eliminação no Nordestão, o treinador rubro-negro passou a jogar sem meias de ofício. À frente, os quatro atacantes que não têm chance de concluir em gol.

Após a eliminação no Nordestão, o treinador rubro-negro passou a jogar sem meias de ofício. À frente, um amontoado de atacantes que não têm chance de concluir ao gol.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Já havíamos discutido aqui sobre os problemas táticos do time do Sport. Vadão começou o ano tentando reeditar o 4-3-3 de Sérgio Guedes, que quase salvou o Sport do rebaixamento em 2012. Mas a tentativa esbarrou na falta de criatividade do único meia Hugo, que deixava o meio-campo do Sport constantemente sem a posse de bola. Assim, os ponteiros Felipe Azevedo e Gilsinho se viam frequentemente antes da linha do meio-campo, marcando o lateral adversário, e mesmo quando recuperavam a bola não conseguiam criar jogadas pois geralmente apareciam isolados. Roger, jogando como referência, pouco participava do jogo. Com a lesão do camisa 9, Vadão promoveu a entrada de Felipe Menezes no onze inicial, o que resolveu o gargalo na criação rubro-negra. O time apresentou outro volume de jogo e conseguiu resultados elásticos, como as goleadas ante o Sousa e o Fortaleza. No entanto, nas quartas de final, o treinador rubro-negro resolveu mexer no que estava dando certo, e tirou Felipe Menezes do time para adicionar outro volante, Moacir. A entrada do jogador tirou o poder de retenção de bola do Sport, e Hugo mais uma vez se viu isolado. A mexida se mostrou catastrófica, e em função dela o Sport passou 180 minutos correndo atrás dos jogadores da Raposa paraibana. A eliminação machucou a torcida, mas acima de tudo, a apatia e a resignação do time diante da intensa movimentação do Campinense tornaram a situação praticamente insustentável para o treinador. As exibições do time no Pernambucano, muito abaixo da crítica, culminaram na sua dispensa, que deixa agora no clube um cenário de incertezas.

A diretoria prometeu um grande nome. Veio Lucas Lima, 21 anos, do Internacional.

A diretoria prometeu um grande nome. Veio Lucas Lima, 21 anos, do Internacional. | Foto: Alexandre Lops

Como se sabe, os problemas do Sport não serão plenamente resolvidos com a mudança no comando técnico. A diretoria rubro-negra vem tomando uma série de decisões controversas, que têm deixado os torcedores irados. Sob a promessa de profissionalizar o departamento de futebol, o presidente Luciano Bivar sondou “grandes nomes” da gestão esportiva no Brasil, mas terminou efetivando no cargo o interino Marcos Amaral, torcedor rubro-negro e sem nenhuma experiência na gestão profissional de futebol. Prometeu ainda, para o mesmo dia, a apresentação de um meia que “solucionaria” os problemas de criação do Leão. Chegou o anônimo Lucas Lima, vindo por empréstimo do Internacional. A gota d’água foi a implantação de um “cercado” entre as sociais da Ilha do Retiro e o banco de reservas normalmente ocupado pelo Sport, de modo a impedir manifestações e críticas da torcida. Curiosamente, ele já havia declarado, num programa de rádio, que um grupo de torcedores iria ao jogo contra o Serra Talhada para “agredir quem vaiasse” o time. Difícil esperar algo diferente vindo de um dirigente que vive por aí dizendo que a torcida pega demais no pé do time, entre outras reclamações “injustas”.

O cercado da vergonha: na tentativa de abafar as críticas da torcida, diretoria usa grades da censura.

O cercado da vergonha: na tentativa de abafar as críticas da torcida, diretoria usa grades da censura.

Agora, sem Vadão, a diretoria de futebol tem a chance de fazer as pazes com a torcida se confirmar os rumores que apontam a volta do técnico Sérgio Guedes. O “McGyver” caiu nas graças da torcida pelo seu estilo vibrante e pelo padrão de jogo que rapidamente implantou no time, e definitivamente é o nome preferido dos rubro-negros para suceder Vadão. As condições são favoráveis: com a campanha vacilante do XV de Piracicaba no Paulistão, o treinador pode se demonstrar inclinado a aceitar um eventual convite leonino. Já deu até declarações neste sentido, e seria provavelmente o nome mais indicado para trabalhar com o mesmo elenco que só ele conseguiu fazer render à altura das expectativas da torcida. Há ainda outros nomes no mercado, como Renato Gaúcho, o tetracampeão Jorginho, que teve bela passagem no Figueirense, e Vica, que acabou de deixar o Fortaleza e, segundo alguns, tem admiradores entre os diretores rubro-negros. Nenhum deles teria tanto apelo entre os torcedores quanto Sérgio Guedes, mas certamente todos dariam de cara com um grande abacaxi para descascar: a relação com uma diretoria que dá sinais constantes de amadorismo e um elenco que ainda não rende tudo o que pode. Seja quem for o treinador escolhido, o ano do Sport tem tudo para ser muito longo.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.