TAPAR O SOL COM A PENEIRA… CRIMINALIZAR NÃO É A SOLUÇÃO!

  • por Doentes por Futebol
  • 8 Anos atrás

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No dia 20 de fevereiro de 2013, ocorreu mais um desfecho trágico em uma partida de futebol. A partida entre Corinthians e San José, pela Copa Libertadores da América, terminou com um garoto de 14 anos morto por um artefato pirotécnico lançado da arquibancada corinthiana. Lamentamos profundamente o assassinato deste jovem boliviano, como também lamentamos as garotas e garotos que são mortas(os) e violentadas(os) nos jogos Brasil a fora. Porém queremos com esse texto traçar uma visão crítica do debate sobre as torcidas organizadas que se confronte com as visões amplamente divulgadas na mídia sobre a violência das torcidas organizadas e as visões de que a solução para isso é o fim das TO’s.

Por: Raoni Marques e Marcelo Ramos – Militantes do Campo de Juventude Rompendo Amarras

Com o ocorrido em Oruro, mais uma vez está havendo grande debate na mídia burguesa sobre o fim das Torcidas Organizadas (T.O.’s) como meio de findar a violência nos estádios brasileiros. Entendemos que este não é o caminho; o fim das T.O.’s não chega nem perto de resolver o problema da violência nem nos estádios, nem na cidade como um todo. E os órgãos responsáveis sabem disso, não é por menos que há um processo de elitização do acesso ao futebol desde os anos 1990, com uma busca evidente por um “tipo” determinado de torcedor.

É preciso primeiro localizar a criminalização das torcidas organizadas como parte do processo de criminalização e extermínio da juventude negra, pobre da periferia das cidades brasileiras. Pois, não é o jovem filho da “classe média e alta” que compõe a massa das torcidas organizadas, mas sim os jovens da classe trabalhadora pauperizada que visualizam nas torcidas organizadas uma forma de potencializar uma autoafirmação através do entretenimento futebolístico, as vezes único alívio das pancadas cotidianas da opressão do capitalismo.

As Torcidas Organizadas brasileiras nascem muito espaçadamente. As primeiras, na década de 1970, mas a grande maioria é fundada no fim da década de 1980 e começo da de 1990 e a maior parte têm sua massificação a partir do “boom”de alguma expressão cultural (as do sudeste com o samba, as do norte e nordeste com o funk).

É importante compreender que praticamente todas as torcidas organizadas nasceram nas principais periferiais das grandes cidades brasileiras. E é na periferia dessas cidades onde explode a violência do capitalismo, sobretudo a policial, que tem hoje na juventude negra e pobre, a sua principal vítima. De qualquer modo é evidente a pré-existência de grupos juvenis disputando os espaços das cidades, portanto percebemos que a violência impressa em tais disputas não foi “inventada” nas arquibancadas. A violência expressa pelas torcidas organizadas é mais um dos elementos explosivos da opressão de classe que se estabelece no capitalismo. Portanto, essa violência brutal não começou nem terminará com as torcidas organizadas.

A violência que estava localizada nos Bailes Funk, após a proibição destes, não teve fim, mas se realocou em outros espaços, dentre estes as T.O.’s (claro, não de forma linear). Compreendemos, então, que do mesmo modo que a violência não acabou com a proibição dos bailes, não terá fim com a proibição das T.O.’s. Entendemos que o capitalismo é violento por essência. A violência física e ódio expresso muitas vezes nas TO’s é também expressão do ódio da opressão de classe que se estabelece sobre a juventude da classe trabalhadora extremamente precarizada que amontoa as periferias brasileiras. Esta violência não pode ser sanada com o aumento do efetivo policial nos estádios, aumentar o efetivo policial significa aumentar a opressão de classe exercida pelo estado burguês e, por conseguinte aumentar mais ainda a violência na sociedade capitalista!

Exemplo paralelo a isso são os Bailes Funk’s. São estes que em algumas cidades brasileiras, como Fortaleza, na segunda metade da década de 1990 comportava inúmeros grupos juvenis (autodenominavam-se “galeras”). São estas galeras de bairros que, neste período, disputavam a geopolítica juvenil da cidade de Fortaleza, tendo seu campo de encontro as festas Funk. Os bailes funk’s foram alvos da criminalização por parte da mídia burguesa, que buscava alardear, de forma ácida, que o fim da violência na cidade partiria do fim dos “sanguinários” Bailes Funk. O discurso conservador ressoou tanto que no ano de 2002 o ministério público do Ceará proíbe os bailes tendo o índice de violência como justificativa. A violência some ou só muda de lugar?

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O fato de as torcidas serem compostas majoritariamente por uma juventude negra, pauperizada e moradora das periferias das cidades, evidencia o caráter classista e racista das políticas de segurança. São estes mesmos jovens que são abordados cotidianamente pela polícia, são estes mesmos jovens negros que ocupam os subempregos e as filas de desempregados. Querem proibir as torcidas no mesmo mote dos Bailes Funk, em uma política enviesada que não acaba o problema, mas o transfere para outros lugares, dificultando uma ação mais efetiva.

Estamos assistindo ao longo da década de 2000 uma série de proibições de artefatos utilizados pelas torcidas organizadas. Proibiu-se bandeiras com os bambus, fogos de artifício, tentaram proibir a utilização de palavras “ofensivas” através de um estatuto do torcedor que é construído de cima pra baixo pelos governos em conluio com os cartolas (máximos representantes da burguesia no mundo do futebol), passando longe da opinião dos torcedores que são atingidos por este.

Se analisarmos historicamente as Torcidas organizadas vamos perceber que houve três formas da mídia e sobre tudo as diretorias dos grande clubes se relacionar com as TO’s: I) uma permissividade da organização autônoma das TO’s; II) Um processo intenso de cooptação das TO’s para usufruto dos cartolas nas disputas paroquianas dos clubes; III) Uma recente tentativa de expurgo e não-aceitação da auto-organização dos torcedores, utilizando-se da justificativa da violência mas que essencialmente visa a elitização do futebol.Para além destas proibições, a política de elitização dos estádios de futebol criam barreiras para dificultar o acesso de um grupo específico. Em 2012, o torcedor brasileiro paga, em média, R$ 23,9 por um bilhete da Série A, representando um aumento de 18,9% no preço da entrada que, no ano passado, custava R$ 20,1. Soma-se aí o fato de que o transporte público é cada vez mais precário em dia de jogo e as partidas, para atender aos interesses da grande mídia (Rede Globo), acontecem tarde da noite.

Não é a toa que essa terceira e última tendência se dá mais efetivamente, ao passo em que o “mercado do futebol” no Brasil cresce e se expande, tendo como principal parceiro o governo brasileiro com sua política desenvolvimentista dos megaeventos. Os lucros advindos da mercantilização do principal esporte de massas no mundo hoje atraí investidores nacionais e estrangeiros que percebem tanto a vultuosidade dos lucros como também que a organização dos torcedores em TO’s pode ameaçar os objetivos capitalistas no momento em que estes se organizem também para pautar preços mais baratos, democratização nas concessões dos direitos de transmissão, não-privatização dos estádios, etc.

A política de desenvolvimentismo do capitalismo aplicado pelos últimos governos no Brasil é igual para todos os espaços onde se expande. Para onde vai o capital, é preciso limar toda forma de organização popular, dar segurança para os investimentos e espaço para os clientes. É assim no caso da remoção das populações das grandes cidades para abrir espaço para a especulação imobiliária; é assim no campo brasileiro onde o governo é conivente com o extermínio de camponeses, indígenas e quilombolas – pois é assim que os latifundiários ganham mais terras e fazem a tão necessária expansão da fronteira agrícola do novo (anti)código florestal; é assim no etnocídio feito para construção da monstruosa belo monte; e é assim também nos estádios brasileiros que estão sendo equipados com suntuosos investimentos públicos para cada vez mais dar lugar aos turistas e aqueles que podem pagar ingressos cada vez mais caros, ao passo que cada vez menos os trabalhadores e moradores das periferias do Brasil podem ter acesso aos estádios, e que agora terão que se contentar com os “pay per view” vendido pela Globo/Sportv para os botecos churrascarias de todo Brasil.

Percebemos, portanto, que há um grupo indesejável aos grandes estádios, com a extinção dos setores das “gerais” de massas. Dizemos que somos contra a elitização do futebol e contra a higienização das arquibancadas brasileiras. Somos contra o proibicionismo! Queremos que as torcidas façam suas festas em paz, fazendo com que a emoção do futebol seja catalisada pelas cores, signos, bandeiras, coreografias encenadas por esta juventude. Entendemos também que com a aproximação da Copa do Mundo da FIFA os ataques às Torcidas Organizadas em geral, bem como à classe a qual a maioria de seus integrantes fazem parte – a classe trabalhadora – serão cada vez mais opressores e anti-democráticos.

Entendemos também que é preciso disputar esta que, principalmente após a ditadura militar, tem sido um dos principais espaços de organização da juventude das periferias. Ao mesmo tempo em que temos que combater a violência entre torcedores, expurgar assassinos, dar alternativas de organização àqueles que estão no tráfico, também temos que canalizar essa violência toda em defesa dos interesses das(os) trabalhadoras(es) e das minorias na luta de classes contra o capital!

Falar do fim das torcidas organizadas é também falar do fim do futebol. Do fim do futebol da alegria, do fim do futebol da vibração, do fim da paixão pelo esporte. O fim das torcidas organizadas é dar espaço para uma forma apática e mercantilizada de se fazer esporte, com torcidas comportadas, times com nome de empresas e com os bolsos dos capitalistas cada vez mais cheios. Se há alguma forma de impedir o fim do futebol é através da organização da juventude trabalhadora em espaços autônomos e democráticos. Para isso entendemos também que a única forma de as torcidas não serem extintas pelas forças proibicionistas e, para além disso, diminuir as brigas de torcida, é uma ação em conjunto entre as torcidas organizadas e os movimentos sociais de juventude, tal qual o Campo Rompendo Amarras.

Saber canalizar para o rumo certo a organização e a violência da juventude trabalhadora! Como a torcida do grande Ferroviário Atlético Clube brada por aqui:

“Nem guerra entre torcidas, nem paz entre classes!”

Texto publicado originalmente em http://rompendoamarras.org.

Colaboração de Pedro Galindo.

 

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