Ultras, agentes políticos no futebol

  • por Vicente Freitas
  • 8 Anos atrás

O futebol é o “esporte do povo”, eis um jargão bastante conhecido. Mais, o futebol é o “esporte DOS POVOS”. Se formos permissivos com os conceitos, podemos entender, nesse caso, povo como sinônimo de nação, i.e., um grupo de pessoas unidas por uma consciência e que compartilha os mesmo costumes, derivados da comunhão de tradição, de história, de língua, de religião, de literatura e de arte, que são todos fatores “gregários”.

Essa pequena introdução faz-se necessária para entendermos um pouco de um fenômeno que acomete o futebol: o “hooliganismo”, mais especificamente em seu viés político-ideológico.
Com o advento da globalização, para além do bem e do mal, as relações interpessoais mudaram drasticamente, barreiras foram quebradas, distâncias diminuídas e fronteiras tornaram-se mais “maleáveis” e obtiveram uma movimentação de pessoas absurda, seja por migrações decorrentes de conflitos bélicos, por busca por melhores condições de trabalho ou outros fatores. Porém essa inserção de novos elementos exteriores causa estranheza e um certo rechaço, pois os imigrantes trazem consigo sua identidade cultural nativa, o que torna o processo de adaptação problemático, já que, de um lado, o país receptor não abrirá mão da cultura, nem o recebido quer perder a sua, o que pode ser chamado de “choque civilizatório”.


GLOBALIZAÇÃO

Esse movimento migratório começou a intensificar-se no pós-Guerra, de 1945 até a década de 1980, com o enfraquecimento da Guerra Fria, pois questões de cunho de ideológico, como a economia planificada e o protecionismo exacerbado, ruíram, o livre mercado se expandiu, e o futebol, como engrenagem econômica, não poderia furtar-se de figurar em tal evento sócio-econômico.


Começaram as grandes levas de jogadores estrangeiros, oriundos de todos os cantos do planeta, para jogar na Europa.

Hoje, nos grandes centros futebolísticos, tais como Inglaterra, Espanha, Itália, Alemanha e França na Europa Ocidental, e Rússia e Ucrânia na Europa Oriental, vê-se uma infinidade de jogadores externos à União Européia. Africanos, sul-americanos e asiáticos. Isso nada mais é do que o reflexo de uma sociedade europeia cada vez mais “multiculturalizada”. Exemplos clichês: A seleção francesa de 1998, com Zidane (ascendência argelina), Lizarazu (origem basca), Thierry Henry, Thuram, Karembeu, Desaily e Vieira (ascendência afro-caribenha). E a atual (sendo tendência que provavelmente seguirá por muito tempo), contando com Karim Benzema, Samir Nasri, Ben Arfa, com origem “árabe”. Malouda, Moussa Sissoko, Patrice Evra, Willian Gallas, Baféntimbi Gomis, Eric Abidal, Anelka e segue a lista de jogadores de origem franco-africana e franco-caribenha.

Além da Alemanha, com Podolski e Klose (origem polonesa), İlkay Gündoğan (ascendência turca), Jérôme Boateng (raízes ganesas), Sami Khedira (filho de tunisiano), Mesut Özil (de raiz turca) e Mario Gómez (filho de espanhol), Denis Aogo (filho de nigeriano) e Cacau (brasileiro naturalizado).

Mannschaft com sangue turco, tunisiano, polonês e brasileiro. Foto: Reprodução

Mas seria essa aceitação um sinal de que a Europa se deixou seduzir pela integração étnico-cultural? Superou o racismo? Não me parece. Essa “integração” nas seleções nacionais não é reflexo da inserção do negro e do árabe nas classes sociais com vida mais digna na Europa, mas apenas uma alocação desses novos elementos da realidade europeia, no centro de excelência onde eles mais puderam se desenvolver, o campo. Já que, para jogar bola bem, não é precisa ter escolaridade, aparato eletrônico, instrutor, bastam um corpo e uma esfera borrachuda (tal como aqui, negro no judiciário ou é réu ou o Joaquim Barbosa, num hospital, é doente e assim vai).
Essa nova Europa “policromática” e com diferentes atores no palco da vida política reitera os muito “nacionalismos” dentro de um mesmo país e essa relação de “atrito social” não ia ficar de fora das quatro linhas.

TOTALITARISMO, NACIONALISMO E FANATISMO

O nacionalismo teve bastante influência na conformação político-filosófica de dois dos maiores flagelos do Século XX, o fascismo e o nazismo. Ambos tinham como pilar central de suas ideologias detestáveis o poder absoluto do Estado (totalitarismo) e a “união do povo” (nacionalismo). Ambos apresentam uma relação simbiótica, de mútua sustentação, além de uma característica muito comum, o fanatismo.
O fanatismo encontra, no esporte, terra excelente para seu enraizamento cultural. Que lugar pode ser melhor que um cenário de competitividade e rivalidades clubísticas para instigá-lo?
Esses ingredientes quando misturados, no caldeirão cultural do futebol, com os elementos já acima citados (imigração, choque de civilizações, pluralidade étnica), dão ensejo à geração de uma sorte de grupos sociais politizados. No caso do futebol, os Ultras.

Celebrações nas Olimpíadas de 1932 | A moralidade em xeque. Foto: Reprodução

OS ULTRAS

O termo ultra vem do latim, significando, ao pé da letra, “além”, mas pode ser entendido como “extremamente”, “excessivamente”. É bem isso o que o nome representa: paixão ao extremo. Atrelado a essa paixão futebolística, vem a paixão política, o fanatismo travestido de nacionalismo, que, no contexto pós-globalização, ganha matizes de xenofobia e racismo.
Seu lado obscuro se manifesta pela não aceitação do diferente, manifestadamente pelo racismo explícito, em faixas, gritos e gestos de agressão e injúria racial capazes de causar náuseas a qualquer pessoa razoável. Os ultras tendem a se dividir entre os grupos que se tornam unidades paramilitares e as que restringem seus pleitos a faixas, gritos, adesivos e que não necessariamente contêm viés político. Mas uma parcela significativa dessas agremiações tem características criminosas.
O alvo principal dos ultras são os imigrantes de ascendência árabe, os de ascendência africana e não nos esqueçamos dos ciganos, que são detestados, por não trabalharem nos moldes típicos europeus e viverem de ajudas governamentais. Os ataques e insultos não são incomuns, ano passado a Eurocopa realizada na Polônia e Ucrânia, países recentemente abertos à “cultural ocidental”, presenciou manifestações das mais espúrias, mormente contra o ítalo-gânes, Mario Balotelli. Guinchos de macacos eram ouvidos não por um, dois ou três paspalhos, mas por centenas de espectadores, comprovando que tal comportamento não é advindo de uma ínfima parcela ignorante.

A terra de origem dos Ultras não é sabida ao certo, mas podemos tomar, como bússola, a Itália, país com arraigado legado fascista, por ser o berço de aberrante ideologia, em muitas das suas esferas públicas, incluindo-se o futebol. Já datavam de 1951 os Fedelissimi Granata, do Torino, a mais antiga agremiação ultra de que se tem notícia (há notícias de torcidas organizadas há mais tempo no Brasil e na Croácia, mas, no meu entender, ainda não se tratavam de Ultras, com matizes políticos). A Itália deu azo a essa cultura que, sem demora, se estendeu Europa afora.

Deus – Honra – Pátria, tradução do polonês para o português.

Os grandes movimentos ultra se encontram com mais intensidade nos países com conflitos e pendências étnicas e/ou políticas, como Sérvia, Croácia, Alemanha, Itália, Polônia.

E se imiscuem em questões acerca da pertinência territorial do Kosovo, manifestam contrariedade ao fluxo migratório, defendem a manutenção da “tradição nacional” e da “raça branca”, entendendo-as como superiores, “terra-tal para os terra-tal-enses”.

Quando estive em Wrocław (em português “Breslávia”), região de Silésia, na Polônia, em 2012, pude testemunhar um caso interessante. É possível encontrar na cidade várias pichações e adesivos de cunho político, muitas vezes ligados ao clube de futebol da cidade, o WKS Śląsk Wrocław, que significa, literalmente, “Silésia Breslávia”. 
O principal discurso dos Ultras silésios é o orgulho de ser polonês silésio e a identificação dessa terra como um legítimo quinhão polonês, já que a região tem uma enorme carga histórica por ter sido disputada, sob aço e chumbo, ao longo das várias guerras ocorridas nessa região da Europa, principalmente entre Polônia e a antiga Prússia.

“Aquele que por esse símbolo passar, lembre-se./Aqui, a Silésia é algo mais que sagrado.”

Mas enganam-se os que pensam que os Ultras são um amontoado de baderneiros a esmo. Eles têm uma organização bastante semelhante a um partido político, com eleições internas, líderes e facções que passeiam por espectros políticos diferentes, dos mais moderados aos mais radicais.
É exatamente isso o que mais assombra, a racionalidade em meio à paixão, pois ações de violência direcionada passam por uma seletividade prévia, como reuniões em redes sociais deliberando qual será o próximo delito, marcando brigas com rivais.

Enquanto isso, a UEFA vai tratando o racismo como problema menor, aplicando multas irrisórias e suspensões pífias, o que gera a sensação de impunidade e só piora o combate a essa chaga social. Essa leniência faz com que a prática do hooliganismo político mostre-se como uma alternativa interessante aos jovens do Velho Mundo que buscam um veículo para extravasar suas frustrações em uma Europa mergulhada em crise. Financeira, social e moral. Cenário ideal pra cooptação e formação política de futuros partidários.
Eu espero que o esporte, principalmente o futebol, não seja um veículo frutífero para a perpetração do ódio, do rancor e da idiotice.

Comentários

Pernambucano. Formado em Direito, pela UFPE. “Sofredor” do Santa Cruz FC e apaixonado pelos Aurinegros de Dortmund, acompanha o Tottenham Hotspurs na Premier League. Germanófilo e Eslavófilo, apesar de não saber nada em alemão, muito menos em russo, tcheco ou polonês. Entende que o futebol perfeito seria uma mistura de verticalidade e disciplina tática alemã, técnica e elegância argentina e raça uruguaia. É fã de Nedved, Pirlo, Zidane, Romário, Kahn, Messi. Tem raiva de não ter visto Puskas, Heleno de Freitas, Cruyff, Pelé, Maradona, Sammer e nem Beckenbauer jogar.