Um Pernambucano renovado

Um Pernambucano renovado

A atual edição do Campeonato Pernambucano vem enfrentando os mesmos problemas de todos os estaduais ao redor do Brasil: o baixo nível técnico e a consequente falta de interesse por parte dos torcedores, a longa duração que não mais condiz com sua relevância no panorama do futebol brasileiro, entre vários outros. Todos eles tornam os estaduais campeonatos defasados e deficitários, desde o pseudo-glamourizado Paulistão até os mais alternativos. Enquanto as vísceras e a melancolia dos estaduais ficam escancaradas, os principais clubes pernambucanos aproveitam para lançar e lapidar seus jovens talentos.

Náutico: tranquilidade e sequência

Marcos Vinícius com a camisa 10 alvirrubra: potencial que há anos é lapidado está perto de virar realidade. | Foto: Aldo Carneiro/Pernambuco Press

Marcos Vinícius com a camisa 10 alvirrubra: potencial que há anos é lapidado está perto de virar realidade. | Foto: Aldo Carneiro/Pernambuco Press

Fora da Copa do Nordeste, principal competição deste início de temporada na região, o Náutico participou do primeiro turno do campeonato estadual. Para o Timbu, o turno seria literalmente inútil: serviria apenas para definir o clube pernambucano que disputará a Copa do Brasil. Seu título não dá nenhuma vantagem ao vencedor para a sequência do Pernambucano. O Timbu, que já tem vaga garantida na disputa nacional, se viu num torneio em que nada tinha a ganhar, só a perder – já que, sendo o único clube da capital na disputa, tinha a “obrigação moral” de vencer. Mesmo assim, o clube decidiu apostar num planejamento que manteve o time principal em pré-temporada, e desta forma, o time de juniores, que acabara de voltar de boa participação na Copa São Paulo, foi designado para representar o Timbu nas três primeiras rodadas do Pernambucano.

Na estreia, um empate fora de casa, contra o Chã Grande, em 2×2. O “expressinho” Timbu virou o primeiro tempo derrotado por 2×0, e na etapa complementar teve brios para igualar o marcador. O empate regozijou os críticos, que clamavam pela volta dos “veteranos”. No segundo jogo, porém, o Náutico conseguiu uma boa vitória em casa, contra o Ypiranga, por 3×1. Na quarta rodada, mais um 3×1 em casa, desta vez contra o Pesqueira. No jogo que marcou a despedida de Alexandre Gallo, os meninos finalizaram sua participação no campeonato estadual invictos, com duas vitórias e um empate. A partir do jogo seguinte, os atletas que estavam em pré-temporada voltaram ao time e continuaram a campanha vitoriosa do Timbu no primeiro turno, que culminou com a conquista do título. Mas os três primeiros jogos serviram para ratificar o respaldo que muitos dos jovens valores alvirrubros carregavam desde as boas campanhas nos torneios de base realizados em 2012.

Douglas Santos: talento alvirrubro na Seleção sub-20. | Foto: CBF

Douglas Santos, ao centro: talento alvirrubro na Seleção sub-20. | Foto: CBF

O principal deles, Marcos Vinícius, é um meia que se destaca pela sua grande qualidade técnica. Típico camisa 10, é aquele meia que sabe controlar a dinâmica de uma equipe, cadenciando as jogadas ou acelerando com passes de primeira. Seu amadurecimento vem sendo cuidadosamente traçado pela diretoria alvirrubra já há várias temporadas, e 2013 pode ser o ano da sua consolidação como peça importante no time principal. Isso se o técnico Vágner Mancini abrir os olhos para sua ascensão e preterir alguns “medalhões”. Outro jovem que tem tido participação efetiva no Timbu é Renato, meia-atacante que foi artilheiro do clube na Copa do Brasil sub-20 de 2012 e na Taça São Paulo deste ano. Autor de dois gols no Pernambucano, o jogador continua tendo oportunidades mesmo depois da volta dos atletas responsáveis pela boa campanha alvirrubra no ano passado. Entre eles, o lateral esquerdo Douglas Santos, que já soma algumas convocações para a seleção sub-20 e atualmente é o titular alvirrubro. Outros jovens valores, como o volante Dennys e o meia João Paulo, também vêm tendo destaque e merecem uma observação mais atenta.

Ilha do Retiro, a fogueira

Na Praça da Bandeira, o contexto é outro. Num time que começou a temporada mergulhado numa crise que já se arrasta há anos, a trégua dos primeiros meses se acabou com a eliminação da equipe no Nordestão.  Desde o empate contra o Campinense, cada má atuação tem aumentado o atrito entre diretoria, torcida e comissão técnica – cujo comandante, Vadão, já foi limado. No meio desse turbilhão, o Sport lançou algumas das principais revelações da base nos últimos anos: Sandrinho e Érico Júnior, vulgo Pelezinho, surgiram e se consolidaram como destaques entre as pratas da casa leoninas. O primeiro, de 21 anos, já vem integrando o time principal rubro-negro desde a pré-temporada, na qual surpreendeu a comissão técnica e os torcedores com gols marcados nos dois jogos-treino realizados. Apesar disso, praticamente não teve chances no time titular durante a competição regional – até o jogo da fatídica eliminação, no qual foi acionado durante o segundo tempo -, mesmo contando com a simpatia da torcida. Meia-atacante agudo e veloz, Sandrinho já mostrou algumas de suas qualidades, mesmo mal escalado: jogando preso nos flancos, mostrou visão de jogo, dando alguns belos dribles e criando boas oportunidades.

Érico Júnior, o Pelezinho: atacante mostra potencial e já caiu nas graças do torcedor. | Foto: André Nery.

Érico Júnior, o Pelezinho: atacante mostra potencial e já caiu nas graças do torcedor. Ao fundo, a arquibancada vazia. | Foto: André Nery.

Nas últimas partidas, os torcedores rubro-negros tiveram também a oportunidade de conhecer definitivamente o ‘Pelezinho’ Érico Júnior. O garoto, que se recusou a usar o apelido nos profissionais, se mostrou uma alternativa arisca para o ataque do Sport, com dribles em velocidade e objetividade. No entanto, vai precisar convencer o novo treinador Sérgio Guedes de que está pronto para assumir a responsabilidade. O Leão conta ainda com outros jovens que vêm conquistando seu lugar no plantel principal, em maior ou menor escala. Como Rithelly, contratado ao Goiás há três anos e que está cada vez mais firme como titular da cabeça de área; Ruan, promessa de goleador que ainda não vingou e que está prestes a acabar com as últimas gotas de paciência do torcedor, e Matheus Lima, que atuou pelo Grêmio Barueri na temporada passada e tem apresentado um bom futebol nos minutos que teve em campo.

No Tricolor, poucas novidades, uma grande esperança

Natan, com a camisa 10 coral: capacidade física inversamente proporcional ao talento do meia.

Natan, com a camisa 10 coral: capacidade física inversamente proporcional ao talento.

O outro clube da capital, cujo renascimento teve na juventude seu principal pilar, não vem se destacando na atual temporada como lançador de jovens. Mas ainda assim, o torcedor coral assiste à consolidação do jovem Natan, que surgiu há alguns anos mas sempre teve seu desenvolvimento freado pelas recorrentes lesões. Hoje, o jovem completa, pela primeira vez na carreira, quinze partidas consecutivas a serviço do Santa Cruz. Dotado de visão de jogo e muita qualidade técnica, o meia tem sido há algumas temporadas uma ilha de talento no meio-campo coral, e estando em boas condições físicas, pode continuar conduzindo o Tricolor na reconstrução do clube. Ainda no Arruda, há outro jogador que vem chamando atenção e sendo decisivo: Renatinho, que do alto de seu 1,57m, tem ocupado bem o flanco esquerdo do campo nos últimos anos e, atuando na lateral ou no meio, conseguiu cair nas graças da torcida.

Se o nível técnico da competição não é dos mais elevados, o torcedor recifense assiste com interesse a evolução das principais joias do futebol pernambucano. Esperando que esses jovens talentosos representem e construam o ressurgimento definitivo do “trio de ferro” pernambucano no cenário do futebol brasileiro.

Comentários

Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.