A culpa é da arquibancada

  • por Leandro Lainetti
  • 5 Anos atrás

Quem não tem teto de vidro que atire a primeira pedra. Ou seria caxirola? Em tempos recentes, nos quais a palavra “modernização” ganhou amplo destaque, até os ditados populares podem ser readaptados, assim como os estádios, que agora se chamam Arenas. Modernizar seria uma forma de nos elevar ao nível dos países de primeiro mundo, mesmo que as próprias obras para a Copa do Mundo mostrem o quão longe de alcançar esse patamar ainda estamos. E, não, esse não é um texto afirmando que a Europa é melhor que o Brasil em tudo e para todo o sempre.

É um texto para debater o comportamento do torcedor, que achou graça ou disse “tem mais é que jogar essa porcaria dentro do campo mesmo”. Pobre caxirola. Chegou para ser a “vuvuzela brasileira” na Copa do Mundo de 2014 e já foi transformada em munição pelos estilingues humanos que a tiveram sob o seu poder. Transformada em vilã, como se a culpa fosse dela, quando a discussão deveria ser outra. A caxirola não me representa. Assim como o afoxé, agogô, o piano e a guitarra elétrica também não. Se ela é o melhor instrumento ou não para representar o Brasil durante a Copa é outra história.

Foto: Fotoarena - torcedores do Bahia ainda com a Carirola nas mãos

Foto: Fotoarena – torcedores do Bahia ainda com a Carirola nas mãos

Os torcedores não jogaram o objeto em campo por ser a caxirola. No próximo clássico dêem bolas de gude e eles as atirarão da mesma forma, com o mesmo propósito, pelo mesmo motivo. Também não atiraram por serem baianos. Cariocas, paulistas, goianos, gaúchos, e outros brasileiros, independentemente do estado em que vivem, teriam atitude semelhante. O torcedor vai ao estádio predisposto a festejar e comemorar. Se o desenrolar da partida não sai de acordo com o que ele esperava, entram em campo a algazarra e a balbúrdia. O cerne da questão é: de que adianta evoluir em aspectos estruturais, apesar disso também não estar sendo feito, se quem vai usufruir da modernização não está preparado para recebê-la?

Mais um exemplo. No clássico entre São Paulo e Corinthians, válido pela semifinal do Campeonato Paulista, o alvinegro saiu vencedor. Mesmo assim, 18 cadeiras do Morumbi foram quebradas ou arrancadas. Todas elas no setor onde se encontrava a torcida corintiana. Trocados recentemente, os assentos custaram módicos 3 milhões de reais ao Tricolor. Segundo um dos diretores responsáveis pelo estádio, a situação se repete em todos os jogos contra o Corinthians. Ou seja, a destruição do patrimônio alheio é pratica regular. E, assim como o episódio das Caxirolas, não é algo restrito ao torcedor paulista, podem apostar.

Foto: Julio Prieto / Boteco do Morumbi - Um dos 18 assentos depredados no Morumbi

Foto: Julio Prieto / Boteco do Morumbi – Um dos 18 assentos depredados no Morumbi

O problema está na educação, ou na falta dela. Quando moleque, meu pai me falava o seguinte: “filho, no Maracanã você pode falar palavrão, mas não pode jogar nada em ninguém ou quebrar as coisas”. E meu pai estava certo. O palavrão é imoral, mas não é ilegal. Dentro do estádio, em meio à arquibancada, eu xingava o juiz, o time e a torcida adversária, os jogadores do meu time. Às vezes xingava sem razão, apenas para extravasar. O problema é quando as palavras são trocadas por ações e outras pessoas são colocadas em perigo.

Foto: Léo Carvalho - jogador do Bahia retira as Caxirolas do campo

Foto: Léo Carvalho – jogador do Bahia retira as Caxirolas do campo

Os vidros e alambrados, inexistentes nas novas Arenas, ajudavam a coibir o arremesso de objetos nos personagens das partidas, assim como a distância da arquibancada para o campo. Mesmo com essas barreiras, cenas de chinelos, moedas, garrafas, pilhas, pedras e toda a sorte de objetos voando em direção ao campo foram repetidas inúmeras vezes. Sem elas, o comportamento do torcedor é mais do que primordial para que essas situações não se repitam.

Todos sabem o quanto é difícil ser racional quando o assunto é futebol. Se é nossa maior paixão, seremos passionais, assim como dois mais dois sempre serão quatro. Mas, em dados momentos, esse sentimento precisa ser colocado de lado para evitar episódios como a “Revolta da Caxirola”. Caso contrário, nossos estádios, ou Arenas, não precisarão de vidros e alambrados e, sim, de jaulas nas arquibancadas. Assim os bichos não conseguirão machucar os homens.

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Jornalista trabalhando com marketing, carioca, 28 anos. Antes de mais nada, não acredito em teorias da conspiração. Até que me provem o contrário, futebol é decidido dentro das quatro linhas. Mais futebol nacional do que internacional. Não vi Zico mas vi Romário, Zidane, Ronaldinho, Ronaldo. Vejo Messi e Cristiano Ronaldo. Totti é pai.