A Esperança é amarela!

  • por Vicente Freitas
  • 8 Anos atrás
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Foto: Reprodução | A festa aurinegra após a heroica virada. 3×2.

Deixo claro que este texto não se aterá às usuais análises táticas nem técnicas do jogo das quartas de final da UCL. Tudo isso já foi feito exaustiva e massivamente. Esse texto se utilizará de um evento sobrenatural ocorrido para entoar uma loa e dissertar sobre o melhor esporte do mundo. Aquele mesmo que faz com que o imponderável seja sempre aguardado, mesmo que ele não venha, como Godot* ou os Tártaros**…


Uma terça-feira, dia 09 de abril de 2013, ficará marcada por muito tempo na memória, não apenas dos torcedores de Málaga e Borussia Dortmund, mas de qualquer fã de futebol. Por muito tempo não! Não, não é hora de humildade textual, nem de eufemismos. O que se viu no eterno Westfalenstadion ficará para sempre na história da UEFA Champions League, do futebol e do esporte, de modo geral, como uma das mais impressionantes viradas de todos os tempos. Não há exagero algum aqui. O que há, pelo contrário, é ausência de meios, de palavras para mensurar o feito do clube alemão.

O testemunhado em Dortmund naquela terça-feira de início de primavera na Alemanha é a quintessência do esporte bretão, o zênite do que se imagina ao se inventar o esporte, a máxima emoção sonhada. Naquela noite, percebeu-se um vislumbre do modus operandi do vírus que infecta todos aqueles sujeitos que, voluntariamente, se prostram diante desse retângulo verde, como se um altar de deuses dinâmicos fosse. Deuses esses que, em carne e osso, entre chuteiras e cadarços, de anos em anos, fazem a alquimia de suor e lágrimas em milagre. Sim, milagre. Não há explicação racional para o que ocorreu no Signal Iduna Park naquela terça de primavera. Talvez por isso, em inglês, o verbo “rezar” (to pray) seja tão parecido com “jogar” (to play).

Poucos perceberam, mas esse confronto estava, sim, fora do plano da realidade. Toda aquela climatização proporcionada pela “Südtribune” e seu mosaico lúdico pode ter conclamado entidades adormecidas que foram à forra, aproveitando-se da tensão emocional instalada no ambiente para pregar suas peças. À parte a tática primorosamente empregada pelo técnico chileno do Málaga, Manuel Pellegrini, os jogadores borussianos pareciam em transe, num torpor paralisante, sem conseguir se mover dignamente, não conseguindo passar a bola pelo meio campo, recorrendo a chutões. O nervosismo era nítido e, pra tornar ainda mais tenso o jogo, Joaquin marcou 1×0 Málaga. A paralisia seguia cada vez mais forte, pareciam transitar por areia movediça. Mas, num rápido contra-ataque, por um momento, o feitiço se desfez e, numa linda jogada, Reus deu de calcanhar pra Lewandowski driblar Willy e marcar. Golaço e tudo igual no placar. A primeira metade desse evento épico terminara, mas não sem um último susto. Cabeçada perigosa de Joaquín, que Weidenfeller segurou de maneira firme.

Começava o segundo tempo e parecia que os comandados de Klopp tinham se livrado do transe, já que o camisa 9, logo no começo da etapa complementar, teve grande chance de marcar em bela jogada individual. Mas, ao chutar, parecia que tinha férreos grilhões invisíveis atados às pernas, com a bola saindo devagar, devagar, sendo facilmente segura por Willy Caballero. Quase que imediatamente após o lance de perigo do BVB, uma bola alçada à área encontrou novamente a cabeça de Joaquín e Weidenfeller, mais uma vez, interferiu na trajetória do balão, de maneira sobrenatural. Uma defesa incrível!

Do lado celeste do campo, Willy, o guarda-redes da equipe andaluz, se negava a ser eclipsado pelo arqueiro germânico e operou dois micro-milagres nas tentativas de Reus e Götze, respectivamente. Àquela altura, já parecia que a bola havia tomado sua decisão peremptória de não entrar à baliza e tudo conspirava para o escrete espanhol seguir às semis. Mais ainda quando, aos 36 minutos do segundo tempo, em rápido contra-ataque, Júlio Baptista chutou da esquerda, na saída do goleiro aurinegro, e Eliseu (em posição irregular) empurrou para o fundo do gol vazio: 2×1.

Era uma das mais cretinas peças já pregadas no Borussia Dortmund. Depois de exatos 15 anos de espera para voltar a ser semifinalista da Liga Europeia de Futebol, com magnífica campanha invicta e brilhante classificação em 1º lugar no temido Grupo D, o da morte, tudo seria jogado fora. Era duro demais, “injusto” demais. Sobretudo com um gol nitidamente impedido.

Mas eis que essa não era ainda a travessura definitiva dessas criaturas etéreas que permeiam o futebol. O mais fascinante estava por vir.

Apesar do segundo gol e seu inelutável impacto, a massa aurinegra se recusava, em sua absoluta maioria, a abandonar aquela arena antes do cerrar final das cortinas, como se, de fato, pressentisse que a regência daquele espetáculo era de ordem não-física e que algo absurdo iria acontecer, numa redenção e catarse coletiva. O general Jürgen Klopp, disfarçado de técnico de futebol, fez um último esforço estratégico. Sacou um volante (Gündogan) e pôs um zagueiro (!?), o ainda machucado Matt Hummels. Surpresa, indignação e revolta eram as emoções mais perceptíveis. Klopp, como um iluminado, tinha sua visão dos fatos diferente do senso comum e mandou seus mais questionados jogadores à frente com tudo. E lá foram Schieber e o brasileiro Felipe Santana atacar, sem rigor tático algum, munidos apenas de vontade e determinação. Alguns jogadores apenas estavam em campo esperando o apito final, mas, num lançamento desesperado, partindo do círculo central, aos 45 minutos da etapa derradeira, quase 46, o zagueiro argentino, Demichelis, impecável até então, errou o cálculo da trajetória da bola e ela sobrou livre para Subotic, na pequena área, que passou ao brasileiro Santana, que foi desarmado na hora H. Mas não houve tempo nem para o desespero dos torcedores alemães: a bola sobrou livre para Marco Reus, um gigante em campo, empurrar paras as redes desguarnecidas e empatar o jogo em 2×2.

O ar estava pesado, como chumbo em vapor, e gritos, ainda tímidos e com pouca esperança, ecoavam. Seria ainda mais cruel ser eliminado de forma invicta. Mas o amarelo (tradicionalmente vinculado à covardia, à apatia, à indolência) tomava contornos de uma coragem incondicional, quase cega e seguramente insana, uma bravura indômita que rumava em direção ao gol do Málaga. Ainda havia 2 minutos para arrancar o impossível de seu pedestal de intangibilidade e fazê-lo dar a cara a tapa e inebriar-se com as possibilidades da paixão.

Ah… mas o destino, esse dramaturgo inflamado, às vezes exagera nas doses de dramaticidade e faz com que a realidade seja mais surreal que a ficção. A missão de trazer esse mimado desse impossível à tona coube, justamente, ao mais criticado jogador, o menos provável, o zagueiro brasileiro Felipe Santana, autor de falhas bizarras. Foi ele o redentor, o homem (ou, naquele instante, um semideus?) que pintou o impossível e a esperança de amarelo, com um gol chorado (literalmente!) e também impedido para transformar tudo num grande pastelão da vida real. 

Naquele momento ínfimo, mas inesquecível, Felipe Santana era o melhor jogador do mundo, o Borussia Dortmund parecia invencível, mesmo que tivesse que conclamar o sobrenatural e o impossível, e a esperança, essa estava impregnada em amarelo.

A beleza e a passionalidade latente do futebol residem na sua imponderabilidade, nos papéis interpretados pelo Absurdo que o permitem ser estrela nos raros shows da realidade, além da permissividade criativa que faz com que os roteiros desse teatro improvisado sejam moldados pela contingência, na poética do imprevisível. Quando, por fim, até Godot dá o ar de sua graça e os Tártaros finalmente invadem o deserto.

Finalmente. Muito obrigado, Futebol.


* “Esperando Godot”, de Samuel Beckett
** “O Deserto dos Tártaros”, de Dino Buzzati

Ambas obras tratam de eventos que sabem-se ser impossíveis ou, no mínimo, improváveis.

Comentários

Pernambucano. Formado em Direito, pela UFPE. “Sofredor” do Santa Cruz FC e apaixonado pelos Aurinegros de Dortmund, acompanha o Tottenham Hotspurs na Premier League. Germanófilo e Eslavófilo, apesar de não saber nada em alemão, muito menos em russo, tcheco ou polonês. Entende que o futebol perfeito seria uma mistura de verticalidade e disciplina tática alemã, técnica e elegância argentina e raça uruguaia. É fã de Nedved, Pirlo, Zidane, Romário, Kahn, Messi. Tem raiva de não ter visto Puskas, Heleno de Freitas, Cruyff, Pelé, Maradona, Sammer e nem Beckenbauer jogar.