A liga do futebol ofensivo

  • por Victor Mendes Xavier
  • 8 Anos atrás
Real Sociedad acabou com a invencibilidade do Barcelona. A vitória no País Basco não surpreendeu (AP Photos)

Real Sociedad acabou com a invencibilidade do Barcelona. A vitória no País Basco não surpreendeu (AP Photos)

A temporada 2006/2007 foi a última em que uma equipe sem ser Barcelona e Real Madrid conseguiu disputar o título com a dupla até a rodada final. Na ocasião, o Sevilla de Juande Ramos demonstrou força ao ganhar a Copa do Rei e Copa da Uefa e terminar em terceiro na Liga com 71 pontos, cinco a menos que os gigantes. Na temporada posterior, o Villarreal até ficou à frente do Barcelona (dez pontos), num campeonato decidido com quatro rodadas de antecedência – o Real Madrid, campeão, ficou oito pontos à frente do Submarino Amarelo. 

A monopolização da Liga Espanhola nos últimos anos criou uma espécie de preconceito em quem não a assiste. “Ah, mas só tem Barcelona e Real Madrid”, dizem. Está mais que claro que a diferença destes dois times para os demais é abissal, o que não quer dizer que o campeonato vive só de jogos de merengues ou blaugrana. E é esse motivo que me leva à criação desse texto. Sobretudo na atual temporada, quase 80% das equipes do futebol espanhol têm adotado uma proposta de jogo ofensiva, baseada no estilo direto de buscar o gol. É algo que vem em ascensão desde o início do Barcelona de Guardiola e, consequentemente, do período vencedor da seleção espanhola.

É claro que, atualmente, a Liga BBVA está muito longe da Premier League e da Bundesliga como campeonatos em geral. A média de público do Espanhol é muito inferior aos campeonatos da Inglaterra e da Alemanha, muito por causa dos altos ingressos cobrados pelos clubes. Nem o líder Barcelona tem atraído muitos fãs em alguns locais em relação às temporadas anteriores. Em setembro, na visita ao Getafe, pouco mais de dez mil pessoas acompanharam a vitória azulgrená por 4×1, com dois gols de Messi. No aspecto técnico, no entanto, a diferença não é tão notável. Dentro de campo, as equipes da primeira divisão têm proporcionado jogos agradáveis.

Um exemplo recente foi o duelo entre Real Sociedad e Deportivo em outubro. Lanterna do campeonato, o Deportivo foi a San Sebastián disposto a vencer, mesmo com o crescimento dos mandantes em casa, onde tiraram a invencibilidade do Barcelona neste sábado. O 1×1 foi pouco. Os dois times pecaram na finalização, mas o duelo divertiu o público presencial e televisivo. Foram mais de 30 chutes a gols, 56% da posse de bola para os bascos e aplausos ao término da partida. A mentalidade ofensiva da Real, adquirida desde a chegada do hoje contestado Phillipe Montánier (apelidado na França de Guardiola francês), vem gerando frutos à equipe. A Real Sociedad, hoje na quarta colocação, tira o melhor de seus principais jogadores, como Vela, Griezzmann e o subestimado Xabi Prieto. Há uma semana, esmagou o Málaga, um de seus concorrentes pela vaga na Champions, por 4×2 em outra excelente partida no nível técnico.

Athletic Bilbao no Old Trafford em 2011-2012: aula de futebol ao Manchester United (BBC)

Athletic Bilbao no Old Trafford em 2011-2012: aula de futebol ao Manchester United (BBC)

Na temporada passada, o Athletic Bilbao de Bielsa chamou a atenção da Europa pela proposta de jogo levada a campo. Alcançou as finais da Copa do Rei e da Liga Europa, mas perdeu para o Atlético de Madrid e Barcelona. Ainda assim, fica na cabeça dos torcedores a lembrança das classificações ante Manchester United e Schalke 04. Em sua visita a Old Trafford, os Leones mostraram duas virtudes irrefutáveis. A primeira foi individual, de ótimos jogadores como Javi Martínez, De Marcos, Muniain, Susaeta e Llorente, que derrubaram o conceito equivocado de que o clube, limitado a atletas bascos, não poderia competir em alto nível. A segunda, e mais importante, foi coletiva: os habituais ataques em bloco, pressão à defesa adversária e zelo com a posse de bola que fazem de Marcelo Bielsa um treinador brilhante. Atualmente, os bilbaínos fazem temporada muito abaixo da média, por conta do reflexo de problemas internos nas atuações em campo. O jogo não flui, as peças individuais não brilham, mas, mesmo assim, a equipe não abdica do estilo que encantou o futebol europeu na temporada passada.

A grande ironia disso tudo, talvez, é que a Liga Espanhola mais agradável para se assistir nos últimos anos parece já ter um campeão definido. O Barcelona, que está 13 pontos à frente do Real Madrid e 16 à frente do Atlético de Madrid, não deve deixar o título escapar. O virtual campeão tenta agora alcançar e ultrapassar os registros do Real Madrid de José Mourinho que é, nos números, o maior campeão espanhol da história. As atenções se voltam à disputa por vagas na Liga dos Campeões. Além do Barcelona, é difícil imaginar a dupla de Madrid de fora do torneio, o que faz restar apenas uma vaga. Atualmente, Real Sociedad, Málaga (vai ser julgado em abril), Valencia e, em menor proporção, Bétis se mantêm na disputa. Em comum entre eles, além do esquema tático (4-2-3-1), está o estilo de jogo ofensivo.

Os milionários elencos de Barcelona e Real Madrid e a criticada divisão de receitas das cotas de televisão tendem a conservar a Liga BBVA bipolarizada pelos próximos anos – a não ser que campanhas como a do atual Atlético de Madrid apareçam no meio do caminho. No entanto, as demais equipes também apresentam espírito competitivo e um estilo de jogo atrativo. Ontem, na abertura da 31ª rodada, Bétis e Sevilla fizeram um dos melhores dérbis dos últimos anos e um dos melhores jogos do campeonato. O Sevilla abriu 0-3 no Villamarín, mas permitiu o empate verdiblanco. Assim, a Liga Espanhola, definitivamente, tem condições de ganhar novos fãs e diminuir o preconceito de quem não assiste.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.