O politicamente correto nas celebrações de gol

  • por Levy Guimarães
  • 7 Anos atrás
Foto: UOL - Alexandre Pato comemorando gol contra o São Paulo fazendo o sinal de silêncio, gesto que originou um cartão amarelo ao atacante

Foto: UOL – Alexandre Pato comemorando gol contra o São Paulo fazendo o sinal de silêncio, gesto que originou um cartão amarelo ao atacante

O momento de comemorar o gol é um dos mais aguardados por todo jogador de futebol, principalmente por aqueles mais acostumados a balançar as redes. Afinal, é o clímax do esporte. Na hora, vale quase tudo: pular, gritar, fazer alguma dança, um gesto para a própria torcida ou uma leve provocação aos adeptos adversários. Ou pelo menos valia, até a patrulha do politicamente correto começar a invadir o futebol.

Diversos jogadores de décadas passadas ficaram conhecidos não só pelo faro artilheiro, como também por comemorações irreverentes e/ou por gestos marcantes na celebração de seus tentos. Na época, boa parte dessas celebrações, apesar de já causarem polêmica, era recebida de forma bem-humorada pela maior parcela da imprensa e dos torcedores.

Talvez o maior ícone das celebrações caricatas no Brasil seja o ex-atacante Viola. Ao longo dos anos 90, o jogador costumava premiar sua torcida com gestos provocativos ao adversário ao balançar as redes. O caso mais famoso foi na final do Campeonato Paulista de 1993 quando, ao marcar contra o Palmeiras, imitou um porco. Anos mais tarde, fez exatamente o contrário: atuando pelo Palmeiras, imitou um gavião ao marcar contra seu ex-clube. Já em 1998, pelo Santos, imitou um leão após marcar contra o Sport, pelo Brasileirão. O centroavante nunca foi punido e nem ouvia grandes represálias.

Foto: reprodução - Viola em sua comemoração mais marcante

Foto: reprodução – Viola em sua comemoração mais marcante

Porém os anos foram se passando e a liberdade nas comemorações foi diminuindo. Gestos antes considerados até comuns, como o de uma metralhadora (famoso nos anos 90 com Gabriel Batistuta) ou o sinal de silêncio passaram a ser vistos com maus olhos pela imprensa e pelos cartolas, movidos por um falso moralismo cada vez mais presente na sociedade. Dessa forma, jogadores passaram a ser punidos por isso.

Foto: reprodução - Batistuta foi um dos responsáveis por popularizar a comemoração "metralhadora"

Foto: reprodução – Batistuta foi um dos responsáveis por popularizar a comemoração “metralhadora”

Um dos casos mais recentes foi o de Alexandre Pato que, após comemorar um gol na virada contra o São Paulo, pelo Campeonato Paulista, fazendo o sinal de silêncio, foi punido pelo árbitro com um cartão amarelo, além de ter gerado uma grande repercussão na mídia. Já na última semana, Ronaldinho comemorou seu primeiro gol na goleada do Atlético/MG sobre o Arsenal-ARG com o tradicional gesto da metralhadora. Imediatamente, jornalistas do SporTV que faziam a transmissão da partida repudiaram a atitude do craque, alegando que aquilo “incitava a violência”.

Os exemplos são inúmeros. São situações como essas que mostram que, a cada dia que passa, o futebol vai ficando mais hipócrita. Começou com jornalistas da grande mídia, que passaram a julgar as comemorações e a querer definir que tal ação “incentiva a violência”, “desrespeita a torcida adversária” e declarações do tipo. E com argumentos sem embasamento, já que, até a década de 1990, poucos se importavam com o jeito “fanfarrão” de alguns jogadores comemorarem seus gols. Eram gestos que acirravam as rivalidades de forma saudável e que de repente passaram a ser inapropriadas para boa parte dos jornalistas e dos dirigentes.

Foto: reprodução - Neymar tambem não escapou da patrulha. Foi expulso após comemorar um gol usando uma máscara

Foto: reprodução – Neymar também não escapou da patrulha. Foi expulso após comemorar um gol usando uma máscara

Ao mesmo tempo em que condenam celebrações que fogem do padrão, parte dessa imprensa tenta impor comemorações que não fazem o menor sentido, com objetivo único de promoverem ações de marketing em próprio benefício, como é o caso do “João Sorrisão”. A imitação do boneco estilo João Bobo (lançado no programa Esporte Espetacular), que balança como um pêndulo, virou febre entre jogadores de todo o país em 2011. Ao todo, foram 66 gols comemorados dessa forma no Brasileirão daquele ano. Se não bastasse eliminar gestos comuns e antes considerados inofensivos, como o simples ato de tirar a camisa e outros já citados, queriam que todos os jogadores comemorassem da mesma maneira. Um desgosto para quem assistia ao campeonato.

O controle desnecessário das comemorações de gol é apenas uma das influências da onda do politicamente correto no futebol. Hoje em dia, declarações de jogadores e técnicos, atitudes dos mesmos fora dos gramados, entre outros quesitos, são fortemente vigiados por uma patrulha que se aproveita disso para pregar seu falso moralismo. É como uma bola de neve que vai se formado e aumentando a cada ano que passa. E, aos poucos, o futebol vai perdendo parte da sua graça.

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Estudante de Jornalismo e redator no Placar UOL Esporte, belo-horizontino, apaixonado por esportes e Doente por Futebol. Chega ao ponto de assistir a jogos dos campeonatos mais diversos e até de partidas bem antigas, de décadas atrás.