Brasil x Estados Unidos - O jogo da ilusão

Brasil x Estados Unidos – O jogo da ilusão

  • por Sérgio Lopes
  • 6 Anos atrás

No dia 02 de julho de 2010, o Brasil era eliminado da Copa da África do Sul para a Holanda. Encerrava-se ali a Era Dunga na Seleção Brasileira. Era o fim de uma época marcada por um jogo considerado feio , pragmático e que não condizia com as tradições do futebol brasileiro. Para o lugar de Dunga, Mano Menezes chegava ao comando do time com a expectativa de atender aos reclames do torcedor. O ex-treinador de Grêmio e Corinthians não tinha receio de prometer a volta do futebol arte, a convocação de jovens jogadores promissores e o retorno do protagonismo do Brasil no futebol mundial. O primeiro desafio da “nova seleção” seria em amistoso contra os Estados Unidos, em Nova Jersey, no dia 10 de agosto de 2010. A seleção apresentaria um futebol naquele dia que nunca mais seria visto.

Escalação do Brasil: Victor Dani Alves, Thiago Silva, David Luiz, André Santos, Lucas Leiva, Ramires, Ganso, Robinho, Neymar e Pato - Foto: Reprodução

Escalação do Brasil: Victor Dani Alves, Thiago Silva, David Luiz, André Santos, Lucas Leiva, Ramires, Ganso, Robinho, Neymar e Pato – Foto: Reprodução

O clima de renovação e prosperidade era sentido por todos os expectadores no estádio New Meadowlands. O time brasileiro contava com os jogadores que foram exaustivamente pedidos na Era Dunga e que eram o futuro da seleção: Ganso e Neymar. O primeiro confirmou em campo a boa fase que vivia e fez uma partida soberba. O torcedor percebia que a seleção teria por muitos anos um organizador no meio campo que há muito tempo não tinha. O segundo não sentiu o peso da estreia e entrou para o seleto rol de craques que marcaram gol na primeira partida pela seleção, ao lado de, por exemplo, Pelé, Zico, Zagallo, Jairzinho e Rivaldo. Neymar jogou como atuava pelo Santos, seus dribles encaixavam e a parceria com Ganso fluía como no time santista. Ao lado dos santistas, outros jogadores se comportaram bem. Alexandre Pato parecia que tomaria a camisa 9 para ele. Fez gol, movimentou-se bem e deu a impressão que seria, de fato, o sucessor de Romário e Ronaldo. Robinho recebeu a faixa de capitão, era o experiente do time, o jogador que conduziria os jovens inexperientes. O atual jogador do Milan também fez boa partida. Na zaga, Thiago Silva assumia a função de xerife da defesa e David Luiz fazia a sua estreia pela seleção. André Santos era a aposta de Mano para a lateral esquerda e Daniel Alves ganhava a titularidade após o reinado de Maicon. Lucas Leiva ganhava espaço como primeiro volante, após receber poucas oportunidades com Dunga, e Ramires completava a dupla de volantes. Victor, na época no Grêmio, era a aposta de Mano para o gol.

Mano menezes chegou na seleção prometendo futebol arte - Foto: Peter Foley/EFE

Mano Menezes chegou na seleção prometendo futebol arte – Foto: Peter Foley/EFE

O que se viu em campo foi um futebol envolvente e alegre que fazia crer que novos tempos estavam começando. O 2×0 contra os Estados Unidos decretava a volta do “jogo bonito”, o que era destacado pela imprensa brasileira e até mundial. “Com Menezes, volta o jogo bonito do Brasil”, decretou o jornal espanhol Marca. Na Catalunha, o discurso foi parecido. “Brasil recupera o jogo bonito com Alves de titular e Robinho como capitão”, destacou o jornal Sport. Na Itália, o Gazzetta dello Sport deu a seguinte manchete: “Show de Pato e Neymar; o jovem Brasil entusiasma”. O L’equipe, da França, destacou: “Brasil: o samba e os iroqueses”, fazendo referência a um antigo grupo nativo dos EUA, que habitava a região dos Grandes Lagos, em metáfora com os americanos. No Brasil, a empolgação era semelhante. A sensação era de que saíamos de um período obscuro de nossa história futebolística para uma fase em que o verdadeiro futebol brasileiro iria ressurgir.

O trio Neymar, Pato e Ganso brilhou na partida

O trio Neymar, Pato e Ganso brilhou na partida – Foto: Reprodução

A euforia pouco tempo durou. Após vitórias contra Irã e Ucrânia, a seleção de Mano enfrentaria seu primeiro grande desafio: amistoso contra a Argentina, em 17 de novembro de 2010. A derrota por 1×0, com gol de Messi no finalzinho, daria início a um jejum brasileiro de vitórias contra grandes seleções que dura até hoje. A primeira competição oficial da seleção Mano veio em meados de 2011: a Copa América, disputada na Argentina. No torneio, o treinador resolveu apostar na base que jogou contra os EUA no ano anterior. O resultado final foi desastroso, com o Brasil desempenhando um futebol horroroso durante todo o torneio e sendo eliminado pelo Paraguai nos pênaltis. De lá para cá, nunca mais a seleção jogou como naquela partida contra os americanos.

É interessante apontar algumas desilusões desse jogo. Alexandre Pato emplacou uma série de lesões impressionante, que o impediram de manter uma sequência na seleção. Robinho, o capitão contra os EUA e jogador que lideraria os jovens, entrou em franca decadência em sua carreira e as más atuações o tiraram dos planos de Mano. Ganso passou a sofrer com lesões e problemas na sua gestão de carreira. Nunca mais apresentou o futebol de 2010 e também caiu fora do selecionado brasileiro. André Santos se mostrou um lateral sem nível para a seleção brasileira e também desapareceu de cena. Lucas Leiva foi outro que sofreu com lesões e nunca mais retornou à seleção. O goleiro Victor também não mais regressou. Neymar foi um dos poucos que confirmou as expectativas. Ao invés de regredir na carreira, o atacante santista só fez se valorizar desde então. Porém, com o fracasso dos demais jogadores, toda a responsabilidade se concentrou em Neymar e todas as esperanças de sucesso da seleção foram depositadas nele. Com isso, o Brasil virou refém do jogador, o qual caiu bruscamente de rendimento.

Pato jogou bem e fez gol - Foto: Reprodução

Pato jogou bem e fez gol – Foto: Reprodução

A noite do dia 10 de agosto de 2010 foi de sonho e ilusão para o torcedor da seleção brasileira. Por uma partida, pudemos desfrutar de um futebol agradável, envolvente e com a cara do nosso futebol. É uma pena que pouca gente pôde assistir à partida (curiosamente, o jogo não foi transmitido em TV aberta, pois foi realizado no mesmo horário do Jornal Nacional). De lá para cá, muita coisa mudou. Mano Menezes falhou em sua tentativa de reimplantar o futebol arte. Para o seu lugar, Luis Felipe Scolari chegou trazendo de volta a estratégia do futebol de resultado. Ou seja, o torcedor brasileiro vai demorar a ver de novo o tão famoso “jogo bonito” na seleção. Aquele jogo contra os Estados Unidos foi como um sonho, que durou pouco. Agora vivemos a dura realidade.

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Baiano, advogado, amante e estudioso do futebol.