Pernambucanão: a fórmula da bagunça

Campeonato Pernambucano, a Fórmula da Bagunça

Até o mundo mineral já tem a consciência de que os campeonatos estaduais definham a cada ano. Num calendário que não permite aos grandes times uma preparação adequada para as competições da temporada, o estadual vem se tornando um antro de jogos de péssimo nível técnico, o que tem contribuído sensivelmente para esvaziar arquibancadas por todo o Brasil durante o primeiro semestre.

Como se tudo isso não fosse suficiente para fazer dos tradicionais estaduais torneios extremamente desinteressantes, vistos meramente como preparação para as competições “de verdade”, alguns dos nossos cartolas parecem fazer um esforço sobre-humano para transformá-los em campeonatos absolutamente intragáveis. É exatamente o caso de Evandro Carvalho e “seu” Campeonato Pernambucano, que há quase dez anos vem sendo organizado com total desprezo às leis e, principalmente, ao torcedor.

Tradição em ignorar regras

Desde os tempos de Carlos Alberto Oliveira, a FPF está habituada a infringir o Estatuto do Torcedor. | Foto: Mauro  Rodrigues.

Desde os tempos de Carlos Alberto Oliveira, a FPF está habituada a infringir o Estatuto do Torcedor. | Foto: Mauro Rodrigues.

Em 2003, foi promulgado o Estatuto do Torcedor, alardeado como divisor de águas na história do futebol brasileiro. Com ele, adentraríamos numa era de profissionalismo e respeito ao público que, em última instância, movimenta o circo do esporte. No seu terceiro capítulo, que trata dos regulamentos aplicados nas competições esportivas, o §5º do art. 9º é bem explícito ao definir as possibilidades de mudanças nas fórmulas de disputa. Segue o trecho, ipsis litteris:

“§5º É vedado proceder alterações no regulamento da competição desde sua divulgação definitiva, salvo nas hipóteses de:

(…)

II – após dois anos de vigência do mesmo regulamento, observado o procedimento de que trata este artigo”.

Em Pernambuco, esta lei é letra morta. Assim tem sido desde sua criação, quando o presidente da Federação Pernambucana ainda era o finado Carlos Alberto Oliveira. De lá para cá, o Campeonato Pernambucano já teve diversas fórmulas de disputa, registrando até mesmo mudanças em anos subsequentes, o que é terminantemente proibido pelo Estatuto do Torcedor, no artigo supracitado.

“Evandrão” 2013: nada pode ser mais tosco

Num turno que não lhe valia absolutamente nada, o Náutico colocou seus meninos para jogar. | Foto: Aldo Carneiro.

Num turno que não lhe valia absolutamente nada, o Náutico colocou seus meninos para jogar. | Foto: Aldo Carneiro.

Depois de anos de mudanças e experiências, a Federação conseguiu, em 2013 atingir seu produto final: um campeonato bizarro, que desde o seu início vem gerando discussões e polêmicas. Todas as incoerências ficaram ainda mais nítidas com o contraste do Campeonato do Nordeste, exemplo de organização e sucesso de público e renda. Enquanto Sport, Santa Cruz e Salgueiro disputavam, com casa cheia, a competição regional, teve início o primeiro turno do estadual pernambucano.

O Náutico, único grande clube do estado na disputa, jogava um campeonato que lhe era, literalmente, inútil. Isso porque o que estava em jogo era apenas uma vaga na Copa do Brasil de 2014, que ficaria com o campeão do turno. Como o Timbu já tinha direito à vaga, em função de sua posição no ranking da CBF, encarou o primeiro turno como uma pré-temporada: não tinha absolutamente nada a ganhar, mas pelo nível dos adversários, jogava com a obrigação de vencer todas as partidas. Mesmo assim, conquistou a taça, que certamente entrará no rol de títulos irrelevantes conquistados pelo alvirrubro, ao lado da Copa Finta, do Torneio Centenário de Campina Grande, entre outros.

Estádio dos Aflitos com baixo público no último final de semana: arquibancadas vazias têm sido uma constante para todos os times.

Estádio dos Aflitos com baixo público no último final de semana: arquibancadas vazias têm sido uma constante para todos os times.

As bizarrices não ficaram no primeiro turno. Com o final do Nordestão, o Pernambucano teve doze clubes no seu segundo turno. Dez rodadas depois, ainda não conseguiu embalar, assim como quase todos os estaduais do país. A média de público de 4.900 pagantes reflete exatamente o desânimo do torcedor pernambucano diante de um campeonato que comporta clubes reconhecidos em todo o país como donos de fervorosas torcidas. O distanciamento do público é consequência direta de um campeonato que não é pensado para ter arquibancadas cheias, mas sim para agradar a patrocinadores e, sobretudo, à emissora dona dos direitos de transmissão e ao Governo do Estado.

Na fase final, mais confusão à vista

Com o iminente fim do segundo turno, os quatro clubes classificados já se preparam para disputar as semi-finais. Sport, Santa Cruz, Náutico e o surpreendente Ypiranga ainda terão a última rodada pela frente, e só depois conhecerão seus adversários. Entretanto, mais uma vez a fórmula de disputa do Pernambucano entra em pauta, com a possibilidade real de algumas situações inusitadas.

Eduardo Campos, muito bem acompanhado (só que não): o governador vem articulando o uso da Arena Pernambuco.

Eduardo Campos, muito bem acompanhado (só que não): o governador vem articulando o uso da Arena Pernambuco.

De acordo com o regulamento, o primeiro lugar do segundo turno enfrentará o quarto, enquanto o 2º e o 3º lugar se enfrentarão. Em um texto absurdamente mal escrito e cheio de erros grosseiros de português, o regulamento dá a entender que os finalistas serão definidos em sistema eliminatório, em partidas de ida e volta. Na grande final, o peso político do governador Eduardo Campos se fez sentir: em caso de empate em pontos nas duas primeiras partidas, haverá uma partida extra, cujo mando é da FPF. Isso significa que mesmo que um dos finalistas vença o primeiro jogo por 5×0 e perca o segundo por 1×0, não conseguirá evitar o terceiro confronto. A campanha dos times na fase classificatória não servirá de nada. A única “vantagem” é na ordem do mando dos jogos, que se torna irrelevante nesse contexto em que a terceira partida é praticamente inevitável. Para completar, haverá ainda uma desnecessária decisão de 3º e 4º lugar, cujos jogos ocorrerão, pasmem!, no mesmo dia e hora das partidas finais.

"Jogão as duas associações com maior número de ponto ganhos": o bom português mandou lembranças.

“Jogão as duas associações com maior número de ponto ganhos”: o bom português mandou lembranças.

Toda essa celeuma em torno da partida extra na final é fruto da extrema dependência que os clubes pernambucanos desenvolveram em relação ao Governo do Estado. O programa Todos com a Nota, que permite aos torcedores trocar notas fiscais por ingressos, vem ajudando os clubes e garantindo-lhes uma receita fixa através da venda, ao Estado, de uma quantidade pré-definida de ingressos. A política do Governo vem, de fato, ajudando a manter os estádios cheios, e além disso tem aumentado a arrecadação do Estado. Mas com a inauguração da Arena Pernambuco prevista para o primeiro semestre deste ano, a colaboração do Poder Público se reverteu em pressão para evitar que a Arena seja um dos elefantes brancos que se espalharão pelo país após a Copa. Essa partida extra, portanto, parece ser a forma que o Governador e a Federação encontraram para forçar os clubes locais a utilizarem o novo estádio.

O mais “curioso” disso tudo é que o regulamento foi assinado, quase sem contestaçõs, por todos os presidentes dos clubes participantes. Um documento mal formulado e mal redigido, apresentando erros crassos que dificultam até mesmo sua compreensão plena. Todas essas aberrações, pelo visto, foram ignoradas pelos nossos cartolas, que provavelmente não puderam fazer muito diante da pressão dos patrocinadores e da emissora que transmite o certame. Afinal, estando eles satisfeitos, quem se importa com a opinião dos torcedores?

P.S.: Se você quiser conferir na íntegra todas as aberrações do regulamento, é só entrar aqui.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.