Dedé, o beijo e o amor à camisa

  • por Leandro Lainetti
  • 8 Anos atrás

Foi-se o tempo em que nossos jogadores tinham a exata noção do quanto a camisa de um clube representa. Não trocavam de time como quem troca de cueca, não juravam amor a todos os clubes pelos quais passavam, não saiam por qualquer trocado que aparecesse e nem beijavam todas as camisas que vestiam. O beijo, em outras épocas, era a maior declaração de amor que o jogador poderia fazer a um time.

Mas esse gesto se tornou tão comum que já começa a passar batido em cada apresentação de um jogador ao novo clube. O cara chega, veste a camisa, leva o escudo à boca e beija. Quatro ações em cadeia que servem, supostamente, para mostrar respeito e amor ao novo clube. Quatro ações que deveriam ser raras, usadas apenas em casos realmente especiais. Quatro ações que levam à banalização da camisa, aquele pedaço de tecido tão sagrado para o torcedor.

Dedé saiu do Vasco contra a própria vontade, chorando, triste por ter de largar o clube que aprendeu a amar desde 2009. No dia seguinte, chegou ao Cruzeiro e beijou a camisa. O gesto pode significar três opções. Amor e respeito ao Cruzeiro, desrespeito ao Vasco e, por último, a clara necessidade de afirmar para a torcida do novo clube que agora ele também é mais um cruzeirense. Entre as três possibilidades, fiquem com as duas últimas. A primeira situação é eliminada pela terceira.

Dedé repete o gesto, mas vestindo camisas diferentes

Dedé repete o gesto, mas vestindo camisas diferentes

Lembram de Ronaldinho na chegada ao Flamengo? “Agora eu sou Mengão”, disse. Agora. Antes ele era Grêmio, depois seria outro time, que no caso veio a ser o Atlético-MG. Ronaldo e Sheik tiveram um destino em comum. Juraram amor ao rubro-negro carioca. Hoje, dizem-se corintianos. Peguem históricos de transferências e vejam quantos não fizeram exatamente a mesma coisa.

Vai ver a culpa nem é deles. Em um mercado extremamente competitivo, em que as trocas acontecem a todo instante, beijar a camisa se tornou o jeito mais fácil de dizer “não vim pelo dinheiro”. O que é uma grande besteira. Ninguém precisa amar todos os times pelos quais passa. Ninguém precisa fingir amar todos os clubes pelos quais passa. Basta respeitar. Entrar em campo e jogar com vontade, fazendo jus ao salário que recebe.

Dedé, Ronaldinho, Ronaldo e Sheik foram apenas os exemplos. O problema está no centro da classe. Quase todos fazem isso, agem como cafajestes apaixonados prontos para enganar a donzela da vez. Então peço: sejam honestos, não finjam amar, apenas respeitem. Não banalizem nossas camisas. Nem banalizem o amor que elas merecem.

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Jornalista trabalhando com marketing, carioca, 28 anos. Antes de mais nada, não acredito em teorias da conspiração. Até que me provem o contrário, futebol é decidido dentro das quatro linhas. Mais futebol nacional do que internacional. Não vi Zico mas vi Romário, Zidane, Ronaldinho, Ronaldo. Vejo Messi e Cristiano Ronaldo. Totti é pai.