Dênis Marques 50: sinergia para reconstruir

Dênis Marques

No Clássico das Multidões de ontem, o Santa Cruz jogou sem a tradicional camisa nove, que tantas alegrias tem dado à apaixonada torcida coral nos últimos anos. Quase sempre, essas alegrias vêm em forma de gols – boa parte deles, decisivos. Ontem, essa camisa nove deu lugar ao número 50 para comemorar um importante marco de uma relação apaixonada: Dênis Marques, o carismático artilheiro das trancinhas, atingiu ontem cinquenta partidas com a camisa tricolor. A homenagem estampada na jaqueta é apenas uma pequena mostra da admiração e do respeito que Dênis conquistou no clube de cuja reconstrução ele tem sido protagonista.

A história do artilheiro no Santa Cruz começou quando poucos ainda esperavam alguma coisa de sua carreira. Afinal, Dênis estava sem jogar futebol havia um ano e meio, desde sua saída do Flamengo. No clube carioca, sua passagem foi apagada, e sua saída foi marcada por um acontecimento triste: o atacante se envolveu em um acidente de carro. Foi constatada sua embriaguez e sua habilitação foi apreendida. Depois do ocorrido, Dênis passou mais de vinte dias sem dar notícias do seu paradeiro, o que motivou a rescisão do seu contrato. Abalado com o acidente, o jogador voltou à sua terra natal e ficou longe do futebol até ser contratado pelo Tricolor. Aos 30 anos de idade, ele já era tido como ex-jogador, e seu nome não era mais lembrado pelos grandes clubes brasileiros.

Mas o artilheiro não conseguiu se afastar das redes. Para reconstruir sua carreira, Dênis apostou em um clube também em reconstrução. A sinergia era clara, e se manifestou desde o primeiro momento: logo em sua estreia, ele marcou três gols, virando o placar e dando a vitória ao Santa Cruz contra o Porto. Foi o começo de uma trajetória que não tardaria a render frutos importantes. Alguns meses depois, o Santa Cruz se sagrava campeão pernambucano em plena Ilha do Retiro, contra todo o favoritismo dos rivais que, à época, faziam parte da elite do futebol nacional. E Dênis Marques – aquele, o “ex-jogador” – calou todos os seus críticos conquistando a artilharia do campeonato, com fantásticos 15 gols em 17 jogos. Era, ao mesmo tempo, a volta por cima do artilheiro e o nascimento de um ídolo. A esta altura, ele já era o Predador do Arruda.

Na grande final, Dênis Marques chamou a responsabilidade e acertou um belo chute de fora da área:

Com o excelente desempenho no estadual, sua saída era dada como certa. Até mesmo o arquirrival Sport especulou sua contratação, mas Dênis permaneceu no Santa para a disputa da Série C. O segundo semestre, entretanto, não foi de tantas alegrias: em uma campanha irregular, o Tricolor não conseguiu o acesso que consolidaria sua remontada desde o rebaixamento à Série D, fundo do poço do futebol brasileiro. Mas o Predador manteve a toada, e sagrou-se artilheiro também da competição nacional, com onze gols em 18 jogos. Assim ele terminou uma temporada de sucesso, que o alçou de novo à condição de referência da camisa nove no país e principalmente no futebol nordestino.

Todos os gols do artilheiro em 2012:

O destaque fez crescer o olho de outros clubes. Mas o carinho e o respeito pelo Santinha falaram mais alto, e Dênis resolveu continuar no Arruda, depois de longa novela para renovar seu contrato. Em sua reestreia, não levou mais do que quatro minutos para marcar um golaço. O dia parecia estar destinado a mais uma atuação decisiva do artilheiro, mas sua volta terminou sendo ofuscada pela eliminação coral da Copa do Nordeste, em uma virada sofrida nos últimos minutos. A derrota foi dura, e o que sobrou de positivo da partida foi apenas o retorno do ídolo. Que rapidamente voltou à boa fase: no ano de 2013, já são sete gols, marcados em todas as competições disputadas pelo Santa Cruz até o momento.

Reestreia em grande estilo:

Com uma ótima média de 0,68 gol/jogo, Dênis Marques segue seu recomeço. Aos 32 anos, o atacante ainda se mostra em excelentes condições físicas e vem aprimorando algumas características do seu jogo. Reconstruindo um gigante quase centenário, e construindo uma bela história de amor com uma torcida apaixonada por natureza. Dificilmente o Santa Cruz poderia ter encontrado personagem mais indicado para assumir o protagonismo de seu ressurgimento, a cada dia mais próximo de se confirmar definitivamente.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.