Duas vezes irrepetível

  • por Ordep Jose Trindade Serra
  • 8 Anos atrás

duas vezes d

Bons jogos de futebol eu costumo ver mais de uma vez, sempre que posso. A tecnologia moderna nos permite essa vantagem, o duplo desfrute. Porém um torcedor antigo, doente por futebol como eu, só que ainda mais velho – com mais anos de paixão acumulada a ferver no espírito – me fez uma ponderação de sabor esquisito, que me deixou pensativo. Segundo ele, o VT nos tirou um gosto pungente de drama que tornava as grandes partidas mais espetaculares ainda, uma saudade fatal e definitiva quando elas acabavam. Disse-me ele que ao sair do estádio depois de jogos inesquecíveis sentia um delicioso aperto no coração ao se dar conta de que aquele drama era, em si, totalmente irrepetível, só voltaria a encenar-se de modo parcial e fantástico no traiçoeiro teatro da memória. As fotografias de lances prodigiosos não conseguiam mostrá-los: ao contrário, geralmente provocavam mais a imaginação do que a lembrança. Os comentários dos torcedores eram coloridos por bela incerteza, ganhavam a dimensão de uma busca sonhadora pelos frutos dourados de nunca mais. Eu lhe ponderei que os jogos continuam irrepetíveis, embora suas imagens se deixem revisitar. Ele não aceitou esse argumento. Me disse com toda a ênfase que não acredita em videotapes, que eles são infiéis, constituem uma blasfêmia contra a intensidade metafísica do jogo, desacatam a sagrada violência do apito final.

Eu não compartilho seu ponto de vista, porém estou sujeito à mesma paixão, que às vezes me leva a delírios dignos dos seus. Ou piores, quem sabe. Já me recusei a assistir um VT com um camarada que é boa gente, mas tremendo pé frio. Meu time tinha vencido, porém eu tive receio de que no tape, com aquele urubu metafísico a meu lado, a partida tomasse outro rumo e o adversário virasse o jogo.

Bom, não é sempre que deliro assim. Costumo ver os tapes em diferentes circunstâncias: em geral, quando os jogos são bonitos e estrategicamente ricos, exigindo segunda leitura, e/ou quando a paixão de torcedor me torna incapaz de perceber com inteira clareza, à primeira vista, o que vou chamar de estrutura dinâmica do jogo, seu desenvolvimento lógico, seu andamento dialético. Recorro, então, à gravação da partida, que dá para apreciar com mais clareza, pelo menos em princípio. Foi o que eu disse a meu amigo, mas ele não se deu por achado. Retrucou-me que esta é uma limitação minha; que ele, ao contrário, vê logo tudo muito bem, com o trágico e glorioso sentimento de única vez, prelibando a nostalgia que não deseja perder: desfruta a beleza da partida namorando a saudade vindoura, já ativa antes de chegar. Daí eu fiz uma confissão que quase o convenceu: quando acabo de assistir ao tape, o belo jogo se torna, para mim, duas vezes irrepetível.

Falei acima em desenvolvimento lógico de jogo de futebol e já estou vendo o leitor cético balançar a cabeça. Vou justificar-me: aprendi com um personagem meu que o futebol tem lógica, sim. Esse camarada entende do assunto muito mais do que eu, pois foi jogador e técnico da gloriosa seleção de minha cidade, a pequena, mas belíssima Cachoeira, patrimônio histórico do Brasil. Isso aconteceu em um conto que publiquei há coisa de três anos, portanto já é real: no intervalo de uma partida decisiva, a última de um tremendo campeonato, o bom técnico falou serenamente a seus pupilos, com certeza profética de vitória:

– Vocês dizem que futebol não tem lógica. Acontece que tem. Demais! É uma briga de lógicas na terra do engano, com assistência do acaso e da perturbação. No entanto, quem ganha o jogo é o miolo do pensamento.

Nesse ponto, eu creio que ele fez uma pausa. (No conto não escrevi a pausa, mas agora a percebo. Ah, as repetições…). Por fim, o bom homem arrematou:

– Nossa música é superior, mas não descuidem. Paciência, nada de precipitação.

Dou razão ao sujeito, embora saiba que na condução de sua vida, breve e fictícia, ele não foi nada razoável. Acato suas palavras: o que torna os jogos de futebol e outras formas de poesia deliciosamente perigosos é que têm lógica demais. (Friso agora o “demais”). Quando chega ao excesso, em conflito consigo mesma, a lógica dá em loucura cada vez mais rica, bate no imprevisível. Imaginem, amigos, um tumulto de lógicas namorando com o acaso, em área sujeita a perturbação. Parece mesmo claro que para sair-se bem numa situação como essas é preciso paciência. E música. Mas que tipo de música? Sei não. Eu gostaria de conversar mais um pouquinho com o caro técnico, pedir-lhe que explicasse melhor suas palavras. Infelizmente isso já não é possível: ele morreu no fim do conto.

Volto agora ao que tentava dizer no começo desta crônica desatinada. Quando assisto um bom jogo na condição de torcedor apaixonado, fico ansioso, “participo” demais, me entrego totalmente a uma correnteza de esperanças e receios, me envolvo em pura emoção. Quando tudo acaba e tenho oportunidade de assistir a um VT da partida, eu a “leio” com maior clareza, desfruto o jogo de outra forma.

Devo ser sincero: às vezes, só na terceira ou quarta vez alcanço razoável serenidade. (Minha mulher ri quando pronuncio esta palavra, “serenidade”, a propósito de jogos de futebol de times prediletos – tenho muitos, pelo mundo afora -: ela afirma que já me viu, muitas vezes, torcer furiosamente assistindo a videotape. Não posso desmentir).

Também me acontece desfrutar do bom futebol sem torcer propriamente. É quando não tenho paixão profunda por nenhum dos dois times em confronto, embora reconheça que eles são bons, que jogam bonito. Nesses casos, me comporto como Zeus, na Ilíada, assistindo a uma batalha. A serenidade não é completa: se você já leu a Ilíada, sabe que às vezes Zeus se envolvia, se emocionava. Minha isenção olímpica pode vacilar, afinal sou torcedor. Mas nesse caso, sem a necessária fidelidade, sem a amorosa adesão total, gozo o espetáculo de outro jeito.

Foi mais ou menos assim que assisti, pela televisão, ao jogo da primeira semifinal entre o Barcelona e o Bayern de Munique, na terça-feira passada. Admiro ambos os times. O Barcelona me encanta mais, confesso. Porém o futebol do Bayern também me entusiasma. Acho que hoje a Espanha e a Alemanha são as melhores escolas de futebol do mundo. Meu apreço pelos dois times em disputa facilmente se equilibra.

Logo nos primeiros dez minutos de partida, senti que a vitória do Bayern se desenhava: o Barça tinha maior posse de bola, parecia dominar, mas o Bayern rompia o cerco e atacava de modo incisivo, com botes certeiros. O bailado impecável com que a equipe de Messi costuma sufocar os adversários em suas espirais de serpente fluida era desfeito por uma rigorosa marcação que o detinha, não permitia o avanço estrangulador. Messi era meio Messi, genial mas combalido, sem a força das suas arrancadas, sem o ímpeto instantâneo com que geralmente desnorteia os adversários. Mas não era só isso. Seria injusto creditar o grande chocolate que o Bayern serviu aos espanhóis apenas à contusão da estrela máxima do Barça. Vi os excelentes armadores Iniesta e Xavi incrivelmente tolhidos pelas tenazes dos volantes antifilipônicos do Bayern, que não se limitavam a destruir, além disso municiavam o ataque de seu time com furiosa precisão em blitzes repetidas. Aumentaporcos, digo, Schweinsteiger (que nome!) fechava Xavi; Martinez martirizava Messi, respirando o arzinho dele, dançando em seus calcanhares. Mesmo depois do primeiro gol, no entanto, as coisas pareciam ainda razoavelmente equilibradas. Um ataque fulminante do Barcelona me pareceu que mudaria tudo; mas foi quando uma corajosa e instantânea intervenção dantesca tirou de Messi, pela borda de um segundo, o gol bem desenhado, que milhões de gargantas catalãs já queriam gritar. Lembrei-me da participação decisiva de Dante no primeiro gol de Thomas Müller e senti que lá do alto Beatriz sorria para os alemães. Desafiando a bíblia, leões germânicos atormentavam nosso Daniel e Pedro não sabia onde cantava o galo. De repente, me peguei a torcer com entusiasmo pelo Bayern. De vez em quando eu me repreendia:

– Que é isso, homem? Onde está seu encantamento pelo Barça, a admiração entusiástica que sempre dedicou a Messi e companhia ilimitada? Como pode torcer contra esses bailarinos mágicos que sempre lhe trouxeram a lembrança do futebol brasileiro em seu período de máximo esplendor? Oh, por alma de Gaudi, não traia esta sagrada família!

Assim eu me dizia e tentava conter-me, mas não pude resistir. O futebol do Bayern se erguia ao céu que nem a catedral de Munique.

O arrependimento veio no final, quando vi Messi a sair do campo. Vi nitidamente em seu rosto a sombra do Cavaleiro da Triste Figura. Lembrei-me de sua imagem dolorida quando foi espancado pelo moinho, ainda mais abatida ao fim do segundo, infeliz duelo com o barbeiro. Pedi perdão ao herói que sempre vence em meu coração. E prometi a Dom Quixote:

– Não sei como será na próxima semana, mas vou torcer pelo Barça no videotape.

Comentários

Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).