Friedrich Walter, “Der Alte Fritz”

  • por Lucas Amaral Nunes
  • 8 Anos atrás
Foto: Reprodução - Walter e a inseparavel amiga, às mãos

Walter e a inseparável amiga nas mãos

O “Velho Fritz” (Der Alte Fritz, em alemão) foi, outrora, não tão velho assim. Friedrich Walter, o bebê, nasceu em Kaiserslautern, em 1920, escapando, por poucos anos, do terrível período que envolveu diversas nações e que ficaria conhecido como Grande Guerra Mundial. Mais tarde, não conseguiria livrar-se também de um seguinte e ainda maior conflito, que obrigou os historiadores a diferenciá-los entre primeiro e segundo.

Mas antes, Friedrich virou Fritz, ainda na infância, na época em que deu os primeiros chutes e passes nos campos de terra sob a perspectiva de um país que tentava se recompor, tanto economicamente, quanto moral. Veja bem, chutes e passes. Pontapés, nunca. Era o que o lhe dava relevo em comparação à maioria dos garotos de oito anos. O jovem Fritz chamava a atenção desde cedo pelo talento e habilidade com os quais tratava a bola, além de apresentar incomum inteligência para alguém tão novo. Por isso, nesta mesma idade, foi convidado a integrar as divisões de base do principal clube da cidade, homônimo à grande Kaiserslautern.

Também precocemente figurava na equipe principal, logo aos dezessete anos. Dois anos mais tarde, com a Segunda Guerra Mundial iniciando-se, marcava três vezes em sua estreia com a camisa alemã. O técnico era Sepp Herberger, também uma lenda no país. Rapidamente, o rapaz atingiu o status de ídolo. Antes mesmo de alcançar o auge físico, vivenciou o sonho jovem, viveu o paraíso juvenil por uma dupla de anos. Depois, o inferno.

Em 1942, foi convocado pelas tropas hitleristas e obrigado a participar de embates em território inimigo. O esquadrão de Fritz seria capturado no mesmo ano, quando ele perdeu boa parte de seus companheiros, assassinados por tropas russas. O pior período de sua vida vinha logo depois de ter seus mais profundos sonhos de infância realizados, o que fez com que viessem à tona questionamentos com relação a existência e religião. Durante os quase três anos em que ficou preso em cativeiro, Fritz evoluiu uma década, como viria a declarar a amigos próximos algum tempo depois. Mas os amigos que perdera na guerra não estariam com ele mais tarde para ouvir suas histórias. Solidão, submissão, desprezo. Tais sensações despertaram um sentimento de nacionalismo excessivo. E, diferente da maioria daqueles que se encontravam como reféns, conseguiu sobreviver ao caos e retornar para casa em 1945.

Fritz e a Jules Rimet

Fritz e a Jules Rimet

A seleção alemã, que perdera alguns de seus jogadores na guerra, ficaria ausente do futebol internacional até 1950 e, aos retalhos, seria reformulada por Herberger. No ano seguinte, a tarja de capitão seria entregue ao “chefe” (como Herberger costumava se referir a Friedrich) do time, assim como a responsabilidade de reerguer a poderosa esquadra alemã. Desta vez, em campos menos tumultuados. Entre este ano e o início da Copa do Mundo de 1954, o orgulhoso Fritz venceria por duas vezes o campeonato nacional junto ao Kaiserslautern, reafirmando-se como o melhor atleta do país.

A Copa do Mundo da Suíça trazia como favorita a sensacional Hungria de Puskás. Considerados imbatíveis, o “Time de Ouro” encantava o mundo da bola com um futebol dinâmico e jogadores de altíssimo nível, como Kocsis, Grosics, Bozsik e o próprio capitão Ferenc, a mais brilhante entre as pepitas húngaras e o melhor jogador do mundo.

Após uma fácil vitória sobre a Turquia, uma decisão polêmica: sob aplausos de uns e contestações de outros, Herberger decidiu escalar a equipe reserva para enfrentar a melhor seleção do mundo, jogo em que foram derrotados por 8 a 3. Hoje tido como um gênio, fora alvo de severas críticas à época, quase sendo demitido do cargo de treinador da Alemanha. Mais tarde, ele explicaria. “Aquela derrota era necessária. Eu queria que fôssemos humilhados, pois sei como funciona a cabeça dos jogadores alemães. Eles poderiam morrer, mas venceriam a Copa”, disse. E, assim, uma ufana Alemanha voltaria a enfrentar a temida Hungria na final, vencendo o jogo e a Copa do Mundo. Fritz ergueu a taça enquanto Puskás baixou a cabeça.

Apesar de a vitória ter sido no futebol, a conquista representou mais do que um título. Fritz germinou como um verdadeiro ícone do reerguimento alemão, o homem que resgatou o orgulho de uma nação e que ficou eternizado em corações por toda a Alemanha como o lendário jogador que reestruturou, através do esporte, um país em queda. Ele recebeu a Grande Cruz da Ordem do Mérito da República Federal da Alemanha, concedida a cidadãos por serviços sociais extraordinários, a mais alta premiação da República. Posteriormente, recebeu também a mais elevada honraria da FIFA, a Honra de Mérito, atribuída àqueles que prestaram contribuições significativas ao futebol.

No dia seguinte ao falecimento de Fritz Walter, em 17 de Junho de 2002, amanheceu uma Alemanha em queda, com um profundo desgosto. Em luto por um ídolo, por uma personalidade histórica, por uma lenda. Um dos mais respeitáveis e notórios jogadores à época, capitão da seleção, um ícone do ressurgimento e reconstrução de um país no período de pós-guerra. Um vencedor em todos os sentidos. Alguns dirão que o grande incentivo para uma vida tão vitoriosa fora a imensa vontade de homenagear aos queridos amigos que perdeu na guerra. “Eles despertaram orgulho que eu antes desconhecia”, diria.

Foto: Reprodução

Fritz e Puskas se cumprimentam antes da final de 1954

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Lucas é jornalista desde 2011, mas o fanatismo pelo futebol o acompanha desde o berço. Aficionado por história, jogadores antigos e contemporâneos e causos e contos sobre o mais famoso esporte bretão. Participou de sites como o cruzeiro.org e o fanáticos por futebol. Atualmente atua como editor do futebol mineiro na Doentes por Futebol, onde também é o responsável pela coluna “Lendas do Futebol”.