Götze: bom para o Bayern, ruim para o futebol

  • por João Rabay
  • 8 Anos atrás

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O anúncio da transferência de Mario Götze para o Bayern de Munique significa muito mais que a chegada de um jogador talentoso para reforçar um elenco já recheado de craques em várias posições. É um marco negativo para o futebol alemão, especialmente para a Bundesliga, que vem ganhando destaque pelos bons times, belos estádios, torcidas fanáticas mas, acima de tudo, pela disputa entre Borussia Dortmund e Bayern.

A contratação de um dos pilares do rival é uma grande demonstração de poder do time da Baviera. Nenhum outro clube alemão poderia pagar os 37 milhões de euros correspondentes à multa rescisória do contrato de Götze. Sem poder recusar a proposta, a diretoria do BVB só poderia contar com uma negativa do jogador, mas ele já havia acertado os detalhes da transferência. Götze receberá 7 milhões de euros por ano como salário, dois milhões a mais que seus ganhos atuais.

É bom lembrar que o maior rival do Borussia não é o Bayern, mas sim o Schalke 04, de Gelsenkirchen, cidade localizada a 30 minutos de Dortmund (Munique fica a 5 horas). Mesmo assim, por causa da dominação financeira e esportiva, torcedores de quase todos os times alemães têm o time da Baviera como rival. Isso torna a contratação ainda mais doída para a torcida amarela.

Comprar jogadores que se destacam nos outros clubes alemães é uma estratégia comum para o Bayern. O jornal Bild listou, em seu site, mais de 20 negociações do tipo. Jogadores como Ballack, Zé Roberto, Scholl, Klose e Mario Gomez se destacaram em equipes como Bayer Leverkusen, Werder Bremen e Stuttgart e tomaram o rumo da Baviera para integrar grandes equipes do Bayern. Neuer, goleiro titular do campeão alemão, foi revelado pelo Schalke, clube no qual viveu a maior parte da sua vida. Por ter falado mal do Bayern algumas vezes, sua transferência foi mal vista por torcedores tanto do Schalke quanto da equipe de Munique.

Torcida do Schalke protesta contra Neuer (Foto: Getty Images)

Torcida do Schalke protesta contra Neuer (Foto: Getty Images)



A tática funciona perfeitamente para manter o império bávaro no campeonato alemão. O Bayern não só fortalece seu elenco com grandes jogadores como enfraquece os adversários diretos. Basta que um clube pequeno consiga destaque com atletas menos conhecidos para o time de Munique lhes tirar peças fundamentais.

Com Götze do outro lado, Bayern tem 20 pontos a mais que o Borussia a 4 rodadas do fim. Imagine em 2013-14...

Com Götze do outro lado, Bayern tem 20 pontos a mais que o Borussia a 4 rodadas do fim. Imagine em 2013-14…



O caso de Götze se assemelha um pouco ao de Neuer. O meia chegou ao Borussia em 2001, aos 9 anos de idade. Ele sairá do clube com quase 21, o que significa que terá passado mais da metade da vida em Dortmund ao se mudar para o sul do país. Há cerca de um mês ele deu entrevistas declarando seu amor pelo clube e prometendo não se transferir.

O anúncio não poderia vir em pior hora: a menos de 2 dias do jogo mais importante do Borussia em 15 anos, a semifinal da Champions League contra o Real Madrid. Sem falar na possibilidade de final com o Bayern, caso os dois passem pelos adversários espanhóis. Como se comportaria Götze em um eventual encontro?

O meia deixa para trás um time bicampeão nacional, atual campeão da Copa da Alemanha e semifinalista da Champions League. A equipe que conseguiu, durante toda a temporada, dividir os holofotes com os gigantes do continente. O clube em que ele viveu mais da metade de sua vida e onde era ídolo absoluto da torcida, uma das mais vibrantes da Europa.

Em um período em que clubes que se destacam graças a milionárias injeções de dinheiro por parte de ricaços da Rússia ou do Oriente Médio são criticados e combatidos, ver um jogador tão talentoso deixar um clube grande para jogar em um rival nos faz questionar a capacidade de qualquer equipe de fazer frente aos gigantes caminhando com as próprias pernas.

Comentários

Jornalista. Doente por futebol bem jogado e inimigo de jogadores que desistem da bola para cavar falta e de atacantes "úteis porque marcam os laterais".