Marin teria superfaturado a nova sede da CBF. Enquanto isso, na Terra do Plim Plim…

sede superfaturada

Surgiu, hoje cedo, a informação de que a nova sede da CBF, comprada em 31 de agosto do ano passado, teria sido superfaturada. Entre o anúncio da compra, em 27 de junho, e a efetivação do negócio, descobriu-se que houve várias transações escusas. A investigação é da Folha de São Paulo, diário que tem o poder de desencadear as discussões importantes para o país – quando quer.

Segundo aponta a investigação, a entidade teria gastado mais de R$ 31 milhões com “intermediários” na negociação do prédio, cujo orçamento razoável seria em torno de R$ 39 milhões – foi este o valor desembolsado pelos próprios “intermediários”, que depois repassaram o empreendimento à CBF por aproximadamente o dobro do preço.

A própria Folha fez um infográfico que explica um pouco de todo esse rolo:

 

Enquanto isso, na Terra do Plim Plim…

O silêncio é sepulcral. Só se fala em outra coisa: os “fantásticos” campeonatos estaduais, as arenas recém-inauguradas para o Mundial de 2014 – sem citar os inúmeros problemas que elas apresentam, é claro -, entre outros assuntos. O clima é de euforia com o iminente início da Copa das Confederações, e pouco importa o que vem acontecendo de fato com o futebol brasileiro. Difícil é dizer onde está a maior das crises.

Dentro de campo, a seleção brasileira sofre. Na 19ª posição do ranking da FIFA, joga um futebol medíocre e conta majoritariamente com jogadores que ainda não são plenamente confiáveis. A um ano da Copa do Mundo, a seleção se vê longe do nível das principais equipes do mundo e vive a expectativa de fracassar colossalmente jogando diante de uma nação iludida por uma mídia chauvinista e delirante.

Há três anos, ele tem sido o xodó da mídia ufanista. Terá condições - e cabeça - para corresponder?

Há três anos, ele tem sido o xodó da mídia ufanista. Terá condições – e cabeça – para corresponder?

Do lado de fora, a situação não é menos desanimadora. Enquanto os principais clubes do país nadam no dinheiro dos últimos acordos de transmissão do Brasileirão, pequenos clubes sofrem com falta de estrutura e condições financeiras alarmantes, que obrigam muitos deles a fecharem as portas. Exemplo disso é o Paduano, cuja trajetória é narrada por Matheus Mandy, diretor do clube e jornalista, no FM da Vida Real. O clube está prestes a abandonar a Série B do Campeonato Carioca por não ter receitas para pagar borderôs de, em média, R$ 5 mil reais à Federação Carioca. Enquanto isso, a CBF mostrou em seu último balanço disponível que terminou o ano de 2011 com um lucro de R$ 73 milhões – SETENTA E TRÊS MILHÕES DE REAIS.

Para que serve todo esse dinheiro em caixa?

Ele não deveria estar à disposição do interesse público, do futebol brasileiro, em todos os seus escalões?

Pouco importa de quem seria a obrigação de ajudar o Paduano, ou qualquer outra agremiação. O certo é que é duro ver tanto dinheiro sobrando nos cofres de uma instituição que deveria cuidar do futebol brasileiro, enquanto ela assiste, de braços cruzados, o definhar de um clube e a desilusão de seus torcedores, alijados de disputar um campeonato não por dificuldades no campo, mas principalmente pelos problemas fora dele.

No entanto, tudo segue lindo e maravilhoso na tela da televisão. Os estaduais seguem lotando os estádios, e nossos craques seguem encantando nas principais competições do futebol.

"Enquanto Ronaldo estampa as manchetes, a CBF segue trabalhando nas sombras". A charge é do pernambucano Luiz Freire.

“Enquanto Ronaldo estampa as manchetes, a CBF segue trabalhando nas sombras”. A charge é do pernambucano Luiz Freire.

Ricardo Teixeira, que vive na dura condição de desterrado numa mansão faraônica em Miami, certa vez usou uma frase que pode ter chocado a alguns incautos, mas que traduz com perfeição o sentimento de impunidade que acompanha alguns amigos do poder: “só vou ficar preocupado quando as acusações saírem no Jornal Nacional”. E, de fato, suas impressões se confirmaram: quando a pressão sobre si ficou insustentável, o jornal de maior audiência no país finalmente deu algum espaço às denúncias. Foi o golpe de misericórdia: dias depois, Teixeira deixou o comando da CBF, com direito a uma emocionada homenagem do telejornal.

Hoje, Marin usa da mesma blindagem a seu favor, com a proteção extra de um certo comentarista fenomenal, que agora é também funcionário da emissora. Enquanto seu passado nebuloso é cada vez mais resgatado, a dona dos direitos de transmissão do futebol nacional se mantém, impassível, interditando o debate e impedindo o esclarecimento de questões sombrias. A cada dia, restam menos dúvidas: o verdadeiro fã de futebol e a tal emissora não têm, absolutamente, nada a ver.

Se você ainda não conhece o passado do obscuro presidente da CBF, leia o nosso Dossiê Marin.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.