Matthias Sindelar, “O Homem de Papel”

  • por Lucas Amaral Nunes
  • 7 Anos atrás

Hitler e Sindelar

 

Por Lucas Amaral Nunes

Era uma tarde ensolarada em Viena, mas um dia nebuloso para o pequeno Matthias. Em meados de 1917, recebia a notícia da morte do pai, em combate, ao participar da frente de batalha às margens do Rio Isonzo, em uma das doze batalhas que ali aconteceram. A derrocada austro-húngara não declarou o fim da guerra, mas para o garoto significou fim precoce da infância. Em meio ao sofrimento da perda e a continuidade da Primeira Guerra, Sindelar iniciou seus estudos como aprendiz de serralheiro, aos quatorze anos.

O trabalho e os problemas em casa lhe tomavam quase todo o horário livre, e pouco restava para lidar com sua grande paixão: o futebol. Em campos de asfalto e terra batida, até mesmo em meio a chuvas e tempestades de neve, em cada instante de tempo livre, lá estava o rapaz e a velha amiga. A bola, feita de sobras de materiais encontrados no lixo, o acompanhava pelas ruas de Viena aonde quer que fosse. E foi assim, entre becos e vielas, que foi descoberto por um olheiro, dois anos mais tarde, e foi levado às categorias de base do ASV Hertha.

O estilo de jogo incomum chamava a atenção. Um jogador de passos largos e sutileza única que lhe davam a impressão de estar flutuando enquanto corria. Além disso, Sindelar não era um dos maiores apreciadores do contato físico, de modo que o evitava como uma enguia, contorcendo-se aos dribles e fintas enquanto os adversários o caçavam. Apresentando-se dessa forma, surgiu o apelido que o acompanharia no restante da carreira: Der Papierene (O Homem de Papel, em português).

Pouco tempo depois subiria para o time profissional, no qual se destacou e logo foi contratado junto ao Wiener Amateure, nome pelo qual era conhecido o Áustria Viena. Sendo, de maneira inconteste, o melhor jogador do campeonato e copa nacionais durante algum tempo, o reconhecimento veio à tona e o jogador ascendeu como uma estrela do futebol europeu de maneira veloz. O jovem atleta marcou por três vezes em suas três primeiras aparições na seleção nacional, em 1926, embora sua maneira de jogar não agradasse ao pragmático treinador austríaco. As seleções europeias, assim como hoje, tendiam ao jogo de contato, força, vigor físico e aplicação tática.

De todo modo, com Sindelar principiou-se a era da lendária equipe que viria a ser conhecida mundialmente como Wunderteam (ou Time Maravilha), agraciando aos fãs do futebol e conquistando a Copa Europeia em 1932, precursora da Eurocopa. Os resultados não deixavam dúvidas sobre a hegemonia da Áustria naquele momento. Vitórias como a de 5 a 0 sobre a Escócia, 8 a 2 contra a Hungria e os 6 a 0 empurrados contra a orgulhosa potência alemã os credenciaram a favoritos na Copa de 1934. Tal elevação só veio após derrotarem a anfitriã Itália por 4 a 2, poucos meses antes do torneio.

O resultado não se repetiu durante a Copa, quando os italianos, futuros campeões, levaram a melhor sobre a seleção de Sindelar na semifinal. O quarto lugar foi um golpe duro para o povo austríaco, consciente do potencial da equipe. Apesar disso, a vitória na próxima Copa permanecia nas previsões de grande parte dos especialistas e torcedores. O que não se previa era a iminência da maior guerra já ocorrida e consequente anexação da Áustria à Alemanha. Assim, a equipe foi extinta e seus jogadores passariam a defender a bandeira de seus dominadores.

O início da Segunda Guerra Mundial decretou o fim do ídolo, mas o nascimento do herói. Os clubes judeus foram proibidos com a repressão e a ascensão de Hitler como seu suserano. Apesar de não expor publicamente os motivos, Sindelar se recusou a defender a seleção do Império Alemão, mesmo após insistentes requisições do treinador Sepp Herberger.

Negando-se a defender a “Grande Alemanha”, o que nada mais era do que o agrupamento de atletas da Alemanha e dos países pelo nazismo subjulgados, Sindelar teve a ação interpretada como gesto de insubmissão, o que pode ter sido a razão de sua queda. Ele chegou a marcar no jogo de despedida da seleção austríaca, nada mais que uma jogada política combinada para culminar em um amigável 0 a 0. Na comemoração, exaltou-se ao comemorar, em frente à associação de alto escalão do exército, incluindo o führer, que assistia ao jogo. Em nenhum momento se curvou. E ali seria o seu jogo derradeiro.

Em sua última viagem, em 1939, aos 36 anos e a bordo de um caixão de 1,75m, mais de quinze mil pessoas acompanharam o corpo de Sindelar ser levado ao Cemitério Central de Viena. Sob circunstâncias que ainda hoje geram polêmica, o ex-jogador foi encontrado morto em seu apartamento. A perícia acusou a morte por asfixia por monóxido de carbono, mas ainda hoje se ouve sussurros sobre um possível suicídio devido às circunstâncias social e econômica de seu povo.

Não se sabe ao certo sobre suas atividades políticas. Porém, os mais ousados à época entoavam cochichos sobre outro fator ter causado o falecimento. Em seus arquivos da Gestapo, a polícia secreta nazista, a ficha do ex-craque, entre outras atribuições, o designavam como “pró-judeu” e “social-democrata”, ambos os títulos considerados crimes para a Alemanha de Hitler. Tido por alguns ainda hoje como um mártir do poder anti-nazismo, paira uma aura oculta sobre a morte do Homem de Papel. E o Wunderteam foi apenas mais uma das vítimas da guerra.

Sindelar, com seu jeito único, parecia pairar no campo de futebol, como uma folha de papel.

Sindelar, com seu estilo único, parecia pairar no campo de futebol, como uma folha de papel.

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Lucas é jornalista desde 2011, mas o fanatismo pelo futebol o acompanha desde o berço. Aficionado por história, jogadores antigos e contemporâneos e causos e contos sobre o mais famoso esporte bretão. Participou de sites como o cruzeiro.org e o fanáticos por futebol. Atualmente atua como editor do futebol mineiro na Doentes por Futebol, onde também é o responsável pela coluna “Lendas do Futebol”.