Neymar, o calendário e a desvalorização do Brasileirão

  • por Rafael de Melo Andrade
  • 8 Anos atrás
Neymar Brasileirão

Neymar comemora golaço contra o Galo no BR-2012

Neymar enfrenta, nesse começo de 2013, provavelmente, a pior fase de sua carreira. Com más atuações pelo Santos e péssimas pela seleção, a “joia” é acusada de estar mais preocupado com a vida de popstar e com o namoro com a atriz Bruna Marquezine do que com o futebol. Até seu talento começa a ser questionado, com imprensa e torcida já duvidando de que ele possa, de fato, vir a ser o craque mundial que se espera, ou pelo menos se esperava no começo de sua carreira. O jogador recentemente admitiu pela primeira vez a possibilidade de cruzar o oceano já em 2013. Mesmo que ele acabe emplacando mais um ano de Santos, depois da Copa de 2014 as chances de ele permanecer são remotas, portanto já é oportuno começar a olhar pra trás e analisar sua passagem no Brasil. Campeão de 1 Copa do Brasil, 1 Libertadores e 3 Paulistas, ele tem ainda uma semifinal de Libertadores como feito relevante. Porém, no Brasileirão, que deveria ser a principal competição do nosso calendário, sua história é menor do que poderia. Não por sua culpa, afinal ele até tem uma coleção de atuações memoráveis na competição. Mas em grande parte por problemas de calendário, ele nunca liderou o Santos a lugar nenhum no campeonato.

Em 2010, mais uma geração de “meninos da Vila”, liderados por Neymar e Ganso, encantou o Brasil no primeiro semestre. Os títulos da Copa do Brasil e do Paulistão vieram com atuações espetaculares dos garotos, como na semifinal da competição nacional contra o Grêmio e na final do Paulista contra o Santo André. Contudo, com a lesão de Ganso e a saída de Robinho e André, Neymar brilhou sozinho no Brasileirão. Resultado: sua primeira Bola de Prata, mas uma modestíssima campanha do time que praticou o melhor futebol no ano. Em 2011, uma glória ainda maior no 1º semestre, o título da Libertadores, mas um Brasileirão de brilho solo novamente. O craque só estreou na 12ª rodada (após a disputa da Copa América), quando o Santos já estava 17 pontos atrás do líder Corinthians. Ainda assim, foi o melhor jogador do campeonato, mas novamente não levou seu time a lugar nenhum. No ano passado foi ainda pior. O clube ganhou apenas o Paulista, no início de 2012, mas as ausências por idas à seleção foram tantas que ele fez apenas 17 partidas, o que impediu o alvinegro praiano de sequer de sonhar com classificação para a Libertadores.

O caso de Neymar é apenas um exemplo entre tantos outros que comprovam uma regra geral do Brasileirão por pontos corridos: quem vai bem nas competições do começo do ano não briga pelo título no campeonato nacional. Cruzeiro em 2003, São Paulo em 2006 e Vasco em 2011 são as exceções que confirmam a regra. No caso do São Paulo, a superioridade do time de Muricy era tanta sobre os demais que foi possível tirar o atraso do mau início devido à campanha na Libertadores. Então só Cruzeiro e Vasco de fato são exceções que provaram ser possível brigar pela Copa do Brasil sem abandonar o início do Brasileirão.

O grande problema do calendário nesse aspecto é que ele está num meio termo. Até 2002, a temporada brasileira era dividida em duas, e o Brasileirão só começava depois do fim dos estaduais, Copa do Brasil e Libertadores. Assim, ele reinava sozinho, sem dividir a atenção com ninguém. Embora algumas vezes o campeão da América tenha passado o 2º semestre mais preocupado em se preparar para enfrentar o campeão europeu, via de regra todos os participantes estavam 100% focados na busca pelo título. Na temporada europeia, o campeonato nacional, as copas e competições continentais seguem em paralelo, do início ao fim. Dessa forma, um time pode até poupar jogadores em uma ou outra ocasião, mas dificilmente abandona uma das disputas logo no começo, já que pode ser eliminado a qualquer momento no mata-mata. Já aqui no Brasil, a reta final da Libertadores (e até ano passado, também da Copa do Brasil) coincide com o início do Brasileirão, causando uma ilusão nos clubes que estão vivos na disputa de que podem abrir mão da competição nacional sem grandes prejuízos. Lá pela metade do 1º turno, quando as outras competições acabam, os times se veem lá atrás na tabela, numa distância quase irrecuperável das equipes que estão na briga pelo título. Assim, bons times acabam passando o campeonato inteiro apenas com a obrigação de se livrar do rebaixamento, objetivo que costuma ser atingido sem grande esforço. 

Outro problema que afetou o Santos de Neymar nesses últimos anos foi o desfalque dos seu principais jogadores para a seleção brasileira. No mundo inteiro, os times param quando as seleções jogam, seja em amistosos, eliminatórias, competições continentais ou o que for. Porém, com os estaduais inchados, não há datas aqui no Brasil para que isso ocorra. Com isso, perdem o campeonato e o torcedor, afinal muitas vezes os principais atletas das equipes são privados de jogar grandes clássicos, pois precisam ir para um amistoso contra uma seleção semi-amadora (amistosos para inglês ver, literalmente). Como exemplo, um time que chegue à final do Paulistão, da Libertadores, da Copa do Brasil e do Mundial, jogaria 87 vezes no ano. Seriam 43 semanas e meia jogando quarta e domingo sem parar! Um verdadeiro absurdo, que torna impossível qualquer tipo de ajuste no calendário e causa bizarrices como o melhor jogador do país só jogar 50% da principal competição nacional, voltando ao exemplo de Santos e Neymar em 2012.

neymar seleção

Em 2011 e 2012, Neymar desfalcou o Santos inúmeras vezes por conta da seleção brasileira



Não se trata de querer defender Neymar e os clubes a todo custo. É evidente que, mesmo com esse lamentável calendário, os problemas poderiam ser minimizados com uma mudança de mentalidade nos treinadores e dirigentes, que não deveriam visar apenas uma competição por vez, e que, sabendo das possibilidades de perder seus jogadores em datas FIFA, procurassem elencos maiores. Mas mesmo nesse caso, é prejudicial ao campeonato, já que fica claro que manter jogadores tops aqui não compensa. Muitas vezes vale mais um bocado de jogadores esforçados e que nem sonham com seleção, mas com os quais se pode contar sempre. 

Não é o caso de criticar cegamente tudo o que a CBF faz. A recente mudança na Copa do Brasil, passando a ser disputada ao longo do ano inteiro e com a presença dos times que disputam a Libertadores, é uma bola dentro da entidade. Também não é culpa de confederação nacional que a Libertadores não seja disputada ao longo do ano inteiro, nem seja paralela à Sulamericana. Mas os problemas são evidentes e procurar soluções só trará benefícios para jogadores, clubes, patrocinadores e, acima de tudo, torcedores.

Comentários

Paulista, apaixonado pelo Galo, viciado em estatísticas e Doente por futebol. Acredita que Copa do Mundo dá sentido à vida. Marques e Ronaldinho são seus ídolos no futebol.