O andarilho da Savassi

  • por Lucas Amaral Nunes
  • 7 Anos atrás
O Andarilho da Savassi

Savassi, o coração da capital mineira

Trôpego, ombros curvados, ora se escorando em vidros blindex luxuosíssimos de construções de última geração, ora deslizando as mãos trêmulas no lodo escorregadio de irregulares muros de antigos casarões – do tempo em que o horizonte da recém-inaugurada cidade das Alterosas ainda era belo e não conspurcado nem obscurecido pela pesada fumaça que se desprende, às toneladas, de chaminés criminosas e de escapamentos de veículos automotores; tampouco tinha dilacerado aquilo que, por ironia do destino, passou a ser, recentemente, seu símbolo maior -, vem o Mauro Cruz, descendo (a esta hora, quando todos os gatos são pardos) a pouco movimentada rua Paraíba, ali, no coração da Savassi.

Hoje, felizmente para mim, e infelizmente para a circunvizinhança, o Cruzeiro venceu, e o Mauro não se cansa de repetir o seu grito de guerra, nosso velho conhecido: “Cruzeiiiiiiro, Cruzeiiiiiiro!”

Fico feliz por dois motivos: primeiro porque o meu time do coração venceu, envolvendo seu arquirrival com uma superioridade indiscutível; segundo, e principalmente, porque este é um dos raros motivos que fazem o andarilho da Savassi sorrir. Solta foguetes (que algum cruzeirense lhe dá escondido), toma cachaça (que outro cruzeirense lhe dá escondido) e volta a entoar o seu canto preferido, desta vez a plenos pulmões: “Zêêêêêêêêro!”

Mas se hoje não é dia de jogo, ou, pior ainda, é, e o Cruzeiro perdeu, o célebre personagem (pelo menos no Bar do Bigode, na Padaria do Amintas e adjacências) torna-se lacônico. E, para proteger-se, passa a tachar de lacônico todo aquele que puxe conversa. Fulano é lacônico. Beltrano é lacônico. Cicrano é lacônico. Palavra bonita, difícil, importante e, acima de tudo, altamente eficaz. Ninguém conhece o significado, mas respeita. Parece significativa, nobre. E funciona como escudo protetor eficiente para aqueles dias em que o cruzeirense das sarjetas do ponto comercial mais sofisticado de Belo Horizonte (excluindo-se, naturalmente, os shopping centers) não está afim de conversar, seja lá por que motivo.

À tarde, porque de manhã ele não dá as caras, a caixa de engraxate é sua fachada. Se engraxar dois sapatos por dia é muito. Um bocejo aqui, um cochilo ali… e finalmente o corpo celeste inspirador de poetas, seresteiros, namorados e boêmios desponta (o Mauro é uma criatura da noite).

Às vezes ele some. Dias, meses. Depois volta. Mais aprumado, menos lacônico. Geralmente, depois da vitória do seu time de coração. E o ex-sargento da Aeronáutica torna a cantar o seu hino predileto.

Receio que um dia, depois de uma de suas costumeiras sumidas, o peregrino da zona sul não retorne mais. É que as madrugadas da Savassi ficarão mais tristes!

Texto de Guilherme Coutinho Nunes

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Lucas é jornalista desde 2011, mas o fanatismo pelo futebol o acompanha desde o berço. Aficionado por história, jogadores antigos e contemporâneos e causos e contos sobre o mais famoso esporte bretão. Participou de sites como o cruzeiro.org e o fanáticos por futebol. Atualmente atua como editor do futebol mineiro na Doentes por Futebol, onde também é o responsável pela coluna “Lendas do Futebol”.