O calvário dos Campeonatos Estaduais

 

Foto: Fonte: Paulo Sérgio - Engenhão, no Rio de Janeiro, vazio.

Foto: Fonte: Paulo Sérgio – Engenhão, no Rio de Janeiro, vazio.

Para os times que disputam a Libertadores, o primeiro semestre é o mais importante, já que a competição acontece nos primeiros meses do ano. Porém, para os demais, esses meses não são de grande importância, já que, esse ano, a Copa do Brasil começou em abril, e o Campeonato Brasileiro, em maio. Então, até abril, esses times disputam somente uma competição, o que deveria garantir, na teoria, que a média de público fosse razoável. Não é o que tem acontecido. No Sul e no Sudeste, reclamações vinda de clubes, torcedores e imprensa mostram que é preciso repensar o modelo dos Estaduais.


As reclamações, que são muitas e vindas de lugares distintos, como Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, apontam sempre as mesmas falhas: torneios muito inchados, sem grandes atrativos para as torcidas. Aliam-se a isso federações que estão preocupadas somente com o dinheiro que receberão e teremos campeonatos que quase ninguém ver. Nem os grandes clubes, nem os pequenos, que têm muitos custos com deslocamentos, pagamento de taxas e outras despesas (realidade essa apontada por Matheus Mandy, diretor do Paduano, pequeno clube do Rio de Janeiro).

Foto: Fonte: Zero Hora - Em jogo do SER Caxias, o estádio praticamente vazio

Foto: Fonte: Zero Hora – Em jogo do SER Caxias, o estádio praticamente vazio


Os números não deixam mentir: no Sul do país, os times gaúchos são vistos por uma média de 2165 pessoas. Em São Paulo, a média é um pouco melhor, mas continua sendo aquém do esperado. Lá a média é de 5938 torcedores. No Rio de Janeiro, os números são semelhantes: 3058. Mas quais são as causas desse número desanimador?


Talvez o principal vilão dessa situação seja o número de jogos. Como a maioria dos Campeonatos Estaduais optaram por regulamentos com todos os times de um grupo se enfrentando, cada equipe é obrigada a fazer uma quantidade alta de partidas, para poder avançar às fases finais. No Campeonato Carioca, são mais de 20 jogos. Um número excessivo, já que os jogadores estão retornando de suas pré-temporadas, podendo acarretar lesões musculares, o que prejudicaria o clube nas demais competições.


Há ainda a questão dos preços. No Rio Grande do Sul, a Federação Gaúcha de Futebol (FGF) estipulou ingressos relativamente caros: na semifinal e final de turno, o mais barato deverá ser R$ 30,00. Na final do campeonato, R$ 40,00. Isso desestimulou o público, já que o nível técnico da competição é baixo. Para o presidente da FGF, porém, a explicação é outra:

– O futebol vai ser TV. Público no estádio não vai ter mais. Hoje, as operadoras fazem pacotes de R$ 50 por mês. Assistir ao futebol em casa acaba sendo bem mais barato. Além disso, também há as dificuldades de chegar aos estádios, existe a questão da segurança, os torcedores não podem tomar sua cervejinha… Tudo isso afasta o público.


Porém há salvação para os Estaduais, como a Copa do Nordeste e o Campeonato Mineiro tem nos mostrado. No Nordeste, com uma situação parecida com a enfrentada nas demais localidades, os clubes resolveram mudar, retornando com a antiga competição, que reunia os times da região, menos Maranhão e Piauí.

Por ser um torneio com uma abrangência maior, foi mais fácil conseguir patrocínios: na edição de 2013, foram quatro, e já estão sendo negociados novos contratos. Mais do que isso, a competição conseguiu realizar jogos mais interessantes, entre times de estados vizinhos, o que gera uma rivalidade saudável. A média de público neste retorno da Copa foi animadora: 8462 pessoas. Quase quatro vezes mais do que a média do Gauchão.

Foto: Fonte: Uol - Santa Cruz x CRB

Foto: Fonte: Uol – Santa Cruz x CRB


Os times que disputam a competição não abdicaram dos seus Estaduais, entrando em fases posteriores da competição. Além disso, a partir de 2014, a competição terá um novo atrativo, a vaga para a Copa Sul-Americana. Com isso, o futebol nordestino como um todo é favorecido, já que os times menores disputam uma vaga na competição de maior porte, enquanto os times de âmbito nacional, disputam clássicos e uma vaga na competição continental.


Para o presidente do Bahia, essa é a fórmula a ser usada: “Os regionais são o futuro. Não tenho a solução, mas deixar os Estaduais como estão não tem a menor condição. Estamos minando as finanças dos clubes. Os regionais são mais atraentes, têm rivalidade acirrada, mais público, estádios mais confortáveis”.

Foto: Fonte: Only Esportes - Cruzeiro tem a maior média de público do campeonato Mineiro

Foto: Fonte: Only Esportes – Cruzeiro tem a maior média de público do campeonato Mineiro


Já o Campeonato Mineiro, apesar de também ter uma média de público relativamente baixa (5102 pessoas), conseguiu que seus clubes mais populares, Cruzeiro e Atlético-MG, enchessem seus estádios. O primeiro, jogando em casa, tem uma média respeitável de 26.504 pessoas, comparável ao Campeonato Brasileiro. Já o Galo, mesmo jogando no Independência, que comporta 23 mil pessoas, tem levado aos seus jogos mais de 14 mil espectadores. A explicação, segundo os dirigentes, é que os estádios, reformados, são mais seguros e confortáveis, o que levaria mais pessoas a frequentá-los. Porém é de considerar também que o regulamento da competição prevê somente nove jogos por time na fase classificatória, e mais dois na semifinal e outros dois na final, totalizando treze partidas.

Os Campeonatos Estaduais perderam o charme há muito tempo, e hoje são, para a maioria das pessoas, cansativos e sem nenhum atrativo. Como a CBF e as federações não se mobilizam para mudar essa realidade, fica a cargo dos clubes essa mudança, como ocorreu esse ano com a Copa do Nordeste, que foi, sob todos os aspectos, uma ótima competição.

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Gaúcho, colorado e estudante de Engenharia de Computação. Doente por futebol desde que se entende por gente. Joga futsal nas horas vagas. A cada dois jogos, uma lesão.