O Fundo da Copa

  • por Ordep Jose Trindade Serra
  • 8 Anos atrás

Este comercial todo o mundo já viu e por certo ainda verá muitas vezes: um homem vai pegar uma garrafa de cerveja na geladeira de um bar e é sorvido pela máquina. De modo que, no fim de rápida descida, cai em uma confortável cadeira. E se vê diante de uma mesa a que está reunido um grupo de craques consagrados. Deste grupo se destaca Ronaldo Fenômeno, que lhe dá as boas vindas: diz-lhe que, bebendo Brahma, o freguês ajuda o futebol brasileiro.

Pergunta então se há um copo para o recém-chegado. E Cafu, sentado à cabeceira, responde: – “Só taça!” – ao tempo em que abre o paletó em cujo bolso interno se vê uma reprodução da famosa Copa. Então todos riem gostosamente. O bebedor patriótico vê-se logo devolvido ao recinto de onde veio. E um cavalheiro, com jeito de segurança, gentilmente armado com um abridor, diz-lhe sorrindo, como quem recomenda segredo: “Você não viu nada!”

 

Linha tênue entre o marketing e a hipocrisia

Me desculpe o leitor por descrever aqui uma cena exibida repetidas vezes diante de seus olhos, em horário nobre. Não o quero saturar de vez com uma joia de nossa publicidade. Apenas acho que ela talvez nos ajude a refletir. Ronaldo Fenômeno é sem dúvida um craque. Encantou a todos com seu futebol, antes de tropeçar na própria barriga. Recentemente fez, com sucesso, uma dieta que foi publicizada como poucas. Me pergunto se a Brahma terá entrado nessa dieta. Certamente não.

 

Também acho que não podemos atribuir seu excelente futebol, nem as habilidades de Cafu, ao hábito de beber cerveja. Nem mesmo creio que eles dois o cultivassem com tamanha devoção quando eram atletas profissionais. Não sou puritano nem desprezo a loura. Mas, confesso que acho um pouco estranho um esportista de renome fazer propaganda de bebida alcoólica. Ainda mais estranho dizer que assim se ajuda o futebol do Brasil, mesmo sabendo do celebrado apoio da AMBEV à CBF.

Penso, também, que já estamos com excesso quotidiano de mensagens publicitárias a recomendar o consumo de álcool. Claro, no fim vem sempre aquele conselho hipócrita: “Beba com moderação” ou “Se beber não dirija”. Será possível levá-lo a sério?


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“Soberania” da FIFA

Muita gente dirá que exagero. Que é bobagem preocupar-se com este assunto. Afinal, Ronaldo e Cafu nada mais fazem do que seguir a corrente. A própria FIFA associa a Copa do Mundo com cerveja, no caso a Budweiser. E chega a ponto de proibir que se consuma outra nos estádios, durante a Copa. Impõe a sua. Para garantir que ela seja consumida durante o certame, fez o Brasil mudar a lei. Nossas autoridades não tiveram o menor pejo de prestar-lhe obediência. Considerando que o interesse da augusta entidade está acima de qualquer coisa. (Afinal, ela é famosa no mundo inteiro: costuma frequentar as páginas policiais de todos os grandes periódicos).

Na Bahia, foi-se mais longe. O Estádio Otávio Mangabeira, tradicionalmente conhecido como Fonte Nova, ganhou novo nome.

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Agora é Itaipava Arena Fonte Nova. Itaipava, no caso, não é homenagem à simpática cidade fluminense. É marca de cerveja, que será ostentada na nova Arena durante dez anos. Está assim oficializado na Boa Terra o leit-motiv do tipo de educação esportiva que nosso governo patrocina. Mas atenção: Itaipava só depois da Copa. Durante o campeonato mundial, a Budweiser reinará sozinha nos estádios. E para comer, só os produtos que a FIFA recomenda. Na Fonte Nova, por exemplo, será proibido o acarajé. No estádio baiano, nada de baianas vendendo seu quitute tradicional.

Legado da Copa (?)

Falei de cerveja e petiscos só para começar. Meu verdadeiro assunto é o famoso legado da Copa do Mundo para os brasileiros. As promessas foram fantásticas. Falou-se em uma grande janela de oportunidades, em solução de problemas sérios das cidades anfitriãs dos jogos, em particular no tocante à (i)mobilidade urbana de nossas metrópoles. Dizia-se que para tanto grandes obras seriam efetuadas, basicamente com investimentos privados, com um mínimo de dispêndio de dinheiro público. Até agora, essas promessas parecem bem longe de realizar-se.

 

Legado certo mesmo será uma sangria nos cofres públicos. Bela dívida a ser paga por todos nós. Os orçamentos das obras de construção ou reforma de estádios mostraram, de norte a sul, uma característica comum: uma tendência pavorosa ao inchaço. Em pouco tempo eles duplicaram, por vezes triplicaram, em geral ficaram cada vez mais gordos. E ao contrário do que se anunciou, essas obras se alimentam de dinheiro público. No caso da Arena Fonte Nova, ainda em 2011, o Portal da Transparência, site oficial da Controladoria Geral da União (CGU), indicava uma acréscimo de 41% no cálculo do custo final.

Orçada inicialmente em R$ 591 milhões, já estava, naquela altura, com previsão de gasto de R$ 835 milhões. O fermento seguiu atuando. O resultado é que por esse estádio os baianos vão pagar R$ 107 milhões anuais durante quinze anos. Mas não é seguro que se fique só nisso: a conta ainda pode crescer. Pouco depois que a obra foi dada como pronta, anunciou-se que seria necessário o dispêndio de mais uma vultosa soma a fim de adequá-la a novas exigências da FIFA: perto de noventa milhões.

O estádio ficou bonito, sim. Todavia, vale a pena lembrar que para construí-lo de acordo com o novo padrão FIFA primeiro destruiu-se um complexo poliesportivo. A Arena Fonte Nova será destinada unicamente ao futebol. Foram-se embora a piscina olímpica, os espaços usados para o atletismo e a prática de outras modalidades esportivas. Tem mais: o Esporte Clube Bahia (que já tem estádio) receberá uma bolada para que use o recém-erguido e nele exerça seu mando de campo. Receia-se mesmo que a nova Arena se transforme em um elefante branco. Um secretário de governo já confessou que justamente por isso fez-se o acordo com a cervejaria produtora da Itaipava. Segundo se espera, o que ela pagará pelos chamados “naming rights” atenuará gastos de manutenção, prejuízos já antevistos.

A história segue se repetindo

Temos tristes precedentes. Ninguém ignora o duro legado dos Jogos Pan-americanos. O vergonhoso passivo com que ainda arca o Rio de Janeiro. Onde equipamentos construídos com enorme dispêndio de recursos ficaram rapidamente obsoletos. Terminada a competição, perderam utilidade, caducaram, ou se desgastaram com celeridade espantosa.

Basta lembrar o caso do Engenhão, de orçamento várias vezes multiplicado. Orçado inicialmente em R$ 60 milhões, acabou custando R$ 380 milhões. E recentemente veio a ser interditado – depois de míseros seis anos de uso.

Leio no Portal Popular da Copa e das Olimpíadas que com o dinheiro gasto nos estádios erguidos no Brasil para o campeonato mundial de futebol se poderiam construir 123 hospitais, ou 2.857 creches. Como o montante de gastos cresce a cada hora, pode ser que esse comparativo tenha de ser logo redimensionado.

Quem lucra com isso?

No Rio de Janeiro, cresce a revolta com o edital de concessão do estádio do Maracanã, à empresa IMX, do multimilionário Eike Batista, que poderá obtê-la em breve, quiçá dentro de um mês. Pela concessão de trinta e cinco anos, a IMX pagará trinta e três parcelas de 7 milhões, perfazendo um total de 231 milhões. Um negócio da China, considerando que o valor da reforma do estádio já ultrapassou, oficialmente, os R$ 900 milhões. Ou seja, a concessionária não vai devolver ao Estado nem 15% do que foi gasto na obra. Mas não é só esse o prejuízo: o governo ainda quer botar abaixo o parque aquático Júlio Delamare e o estádio de atletismo Célio de Barros.

No Rio Grande do Sul, o Tribunal de Contas do Estado constatou sobrepreço de R$ 2,8 milhões nas obras do corredor de ônibus das avenidas Padre Cacique / Edivaldo Pereira Paiva nas proximidades do Beira-Rio, local escolhido para receber os jogos da Copa em Porto Alegre.

Problemas semelhantes se têm verificado em outros pontos do Brasil. E ainda há um custo gravíssimo que se precisa ponderar. Em algumas das cidades sede da Copa, a construção ou reforma dos estádios, assim como as obras conexas, têm implicado numa violência particularmente cruel: as remoções forçadas, que têm sido o grande drama de numerosas famílias brasileiras desde o início das obras preparatórias para esse campeonato mundial e para as próximas Olimpíadas. Estima-se que pelo menos 170 mil pessoas estejam sofrendo despejos relacionados a esses eventos. O assunto já foi exposto na 22a. sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Vejam o documentário abaixo, é obrigatório.

O povo pagando a conta mais uma vez

Episódios chocantes se sucedem. Foi espetacular a brutalidade do despejo da Aldeia Indígena Maracanã. Uma grande perda: a ideia de que expulsar os índios era absolutamente necessário para a celebração do esporte com a construção de um Museu do Futebol, que naquele espaço me parece particularmente cretina. A expulsão da comunidade do Horto, também no Rio de Janeiro, também só se explica pela pressão de interesses escusos.

 

Somam-se a esses descalabros os transtornos gerados pela incompetência dos administradores apressados. Na reinauguração do Mineirão, o público sofreu numerosos vexames, como foi amplamente noticiado. Nas vésperas da partida com que se inaugurou a Arena Fonte Nova, o atraso e a má distribuição dos postos de venda dos ingressos foi a causa de tumultos que a polícia baiana controlou a seu modo, com gás lacrimogênio, spray de pimenta e porrada de cassetete nos torcedores ansiosos. Esperemos que a coisa fique por aí, que todos sejamos poupados desse tipo de show na Copa do Mundo.

Brasil de joelhos perante a FIFA

Uma coisa me intriga na história dos preparativos da próxima Copa: a atitude servil do Governo Brasileiro no trato com a mal afamada FIFA. Em matéria de futebol, o Brasil tem um grande cacife. Não precisa rebaixar-se como fez para atender a todos os caprichos dessa entidade nada nobre. Juca Kfouri mais de uma vez lembrou que, na Copa dos Estados Unidos, a FIFA procedeu de modo diferente: suas exigências foram modestíssimas, tanto que até houve jogos em campos improvisados.

 

Aqui, a FIFA imperou de forma absoluta. Fez mudar as leis, impõe seus privilégios, exige a obediência a um padrão rigoroso que levou a demolir e refazer grandes estádios. Repetiu o que fez na África do Sul, onde deixou como lembrança uma pavorosa manada de elefantes brancos. Em suma, nos impôs gastos extraordinários visando apenas seu lucro e a farra das empreiteiras que gozam de seu beneplácito. Pelo jeito, se Dona Fifa exigisse, Dilma mudaria o penteado e Aldo Rabelo passaria a despachar de calças curtas em seu bisonho Ministério.

Nós que nos orgulhamos do futebol brasileiro não merecemos vê-lo associado a atitudes tão mesquinhas. Merecemos bons jogos e boa cerveja (não Budweiser). Merecemos que as leis brasileiras sejam cumpridas: estádio não é lugar apropriado para consumo de bebida alcoólica. Muito menos quando há sujeira no fundo da Copa.

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Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).