O LEGADO TÁTICO DE MANO MENEZES: PARTE 1

  • por Victor Oliveira
  • 8 Anos atrás
Mano Menezes

Fonte: amarildocharge.wordpress.com

Nesse momento difícil vivenciado pela Seleção Brasileira, o Painel resolveu esmiuçar taticamente a Era Mano Menezes e o legado tático por ela deixado, o que muito explica as escolhas feitas pelo atual treinador do Brasil. Por que Felipão tem optado por Hulk? Porque Neymar tem jogado livre à frente de uma linha de quatro? Scolari tem se mostrado em dúvida entre o 4-2-3-1 com Neymar pela esquerda e o 4-4-2 inglês com o craque santista de segundo atacante. As respostas? Muitas delas estão no trabalho de dois anos realizados por Mano Menezes na Seleção. Espero que gostem.

Parte 1: O início promissor e as primeiras decepções
Parte 2: A Copa América e o caminho até Londres
Parte 3: Uma nova equipe após as Olimpíadas
Parte 4: O que pode ser aproveitado por Scolari

O início promissor e as primeiras decepções

Mano Menezes assumiu a seleção com a missão de renovar e, novamente, tornar o futebol brasileiro protagonista. Do bom trabalho feito por Dunga e Jorginho, nada foi aproveitado pelo novo treinador, que começou do zero, iniciando a formulação de uma nova equipe. Todos acusavam Dunga de ter deixado Ganso, Neymar e Adriano fora da Copa, preferindo o treinador levar Kleberson, Josué e Grafite. Foi atendendo ao clamor público que Mano montou seu primeiro time, tentando trazer de volta juventude e habilidade para a seleção:

Brasil x EUA
Estados Unidos 0 x 2 Brasil – Nova Jersey (EUA) – 10/08/2010: em sua estreia pela Seleção, Mano agradou a todos e montou uma equipe jovem, leve e habilidosa. O 4-2-3-1 canarinho sobrou diante do costumeiro 4-4-2 britânico dos americanos. Nessa partida, vimos a volta de uma proposta de jogo ousada e que ocupou o campo de defesa do adversário na maior parte do tempo. Neymar também estreou bem, fazendo seu primeiro gol com a amarelinha. Ganso comandou o meio campo com classe, valorizando a posse de bola e esbanjando visão na distribuição das jogadas. Até elástico o jogador deu, além de quase ter feito um golaço.

Após a promissora estreia, o Brasil fez dois jogos mais fáceis e também venceu: ganhou do Irã, em Abu Dhabi, por 3×0 e da Ucrânia por 2×0, em partida disputada na Inglaterra. Até que veio o primeiro grande desafio da Era Mano: um clássico contra a Argentina, que não vencia a Seleção Brasileira há cinco anos. Com Ganso machucado, Mano já demonstrava preocupação com os aspectos defensivos daquele 4-2-3-1 tão leve e jovial. Por isso, em seu primeiro grande jogo como técnico do Brasil, preferiu escalar e equipe num 4-3-1-2, dando nova chance para R10:

Brasil x Argentina
Brasil 0 x 1 Argentina – Doha (Qatar) – 17/11/2010: com Ganso e Pato lesionados, Mano tentou manter a base, colocando Ronaldinho no lugar de Ganso e Elias na vaga de Pato, desenhando em campo um 4-3-1-2. A Argentina, que iniciou o jogo no 4-2-3-1 com Messi pela direita, jogou o segundo tempo no 4-4-1-1, com Lionel na ligação. Foi nessa função, e numa arrancada após Douglas perder a bola, que o craque fez o gol da partida, finalizando o jejum de vitórias da Argentina diante do Brasil. Num jogo muito disputado no meio de campo, e decidido nos acréscimos, o Brasil teve muita dificuldade de penetrar na área do adversário, com Ronaldinho, em algumas oportunidades, avançando e formando uma espécie de 4-3-3. O Brasil teve 45% de posse, mas finalizou mais que os argentinos: 15 x 9. Neymar, se jogando muito (e não conseguindo ludibriar o árbitro), pouco rendeu. Foi individualista e não acrescentou nada ao time. Ronaldinho também foi sonolento e improdutivo, o que acarretou o sumiço de seu nome nas convocações seguintes.

Depois da derrota para a Argentina, o Brasil só voltou a jogar em 9 de fevereiro de 2011, novamente um clássico, dessa vez contra a França, em Paris. Com muitos jogadores lesionados do meio para frente, Mano novamente mudou a equipe taticamente para o duelo contra os franceses, escalando um esquema bem peculiar: uma espécie de 4-2-3-1 bem torto, com dinâmica de 4-2-2-2 e que buscava montar linhas de marcação. As contusões e a falta de continuidade do padrão técnico de muitos atletas começavam a dificultar a vida de Mano Menezes.

Brasil x França
França 1 x 0 Brasil – Paris (França) – 09/02/2011: com desfalques do meio para frente, Mano desenhou em campo uma espécie de 4-2-3-1 bem torto, com Hernanes de articulador e também incumbido de recuar e marcar pelo setor esquerdo, liberando Robinho praticamente como segundo atacante. Renato Augusto ficou bem preso pela direita, se limitando a marcar e só partir na boa. O time francês jogava também num 4-2-3-1, porém muito mais bem definido. A expulsão de Hernanes, aos 38 minutos da primeira etapa, após falta grotesca em Benzema, mudou totalmente a partida. Mano postou o Brasil num 4-4-1, mas acabou levando o gol de Benzema que consagrou mais uma vitória francesa diante do Brasil.

No dia 27 de março, em Londres, o time brasileiro enfrentou a Escócia, sendo este o último jogo antes da revanche contra a Holanda, que aconteceria dois meses depois em Goiânia. Novamente uma equipe bem diferente do meio para frente e a busca por uma padronização, ainda que bem assimétrica, do 4-2-3-1. Todos esperavam Lucas (do São Paulo, na época) escalado como titular nessa partida. Entretanto, procurando maior segurança para a equipe, visto que Neymar não marcava pela esquerda, Mano preferiu optar por Elano e Jadson na meia canha.

Brasil x Escócia
Brasil 2 x 0 Escócia – Londres (Inglaterra) – 27/03/2011: novas mudanças e retorno de um 4-2-3-1 confuso pelo meio, que virava uma espécie de 4-3-3 quando Elano recuava para fazer o terceiro volante. Mano avançou suas linhas para cima do cauteloso 4-1-4-1 escocês, mas novamente teve problemas na articulação central da equipe. Neymar decidiu quando saiu da esquerda em diagonal para a área, sua jogada típica. O time da estreia contra os EUA ainda ecoava como paradigma, mas, com Ganso e Pato machucados, Mano não conseguia escalar novamente a equipe. E nessa toada continuou testando.

E chegou a hora da revanche contra os holandeses, que no ano anterior haviam eliminado a Seleção nas quartas da Copa de 2010. Era o sétimo jogo da Era Mano e seu terceiro duelo contra uma grande seleção do futebol mundial. Jogando em casa, a torcida tinha certeza que o jejum de vitórias contra uma grande equipe (última vitória tinha sido contra a Inglaterra em 2009) acabaria contra a Holanda. Novamente sem poder contar com Ganso, era mais uma oportunidade do treinador brasileiro mostrar suas armas táticas rumo ao protagonismo.

Brasil x Holanda
Brasil 0 x 0 Holanda – Goiânia (Brasil) – 04/06/2011: além do forte calor, os holandeses, no mesmo 4-2-3-1 da Copa de 2010, jogaram sem Van Bommel, Sneijder e Van der Vaart. Após a vitória no mundial, não perder parecia ser o objetivo do time laranja. Mais uma vez o Brasil não conseguiu se impôr, faltando criatividade ao 4-3-3 montado por Mano Menezes. Sem qualidade na intermediária e com os laterais presos na marcação, Robinho e Neymar tiveram que recuar para criar e isolaram Fred. Na época, em post sobre o jogo, André Rocha foi cirúrgico em sua observação: “O maior desafio de Mano é tornar o Brasil efetivamente protagonista, jogando com autoridade diante de qualquer adversário e impondo seu estilo de jogo, condizente com a escola do país: toque de bola, postura ofensiva, união de beleza e eficiência. Arte e resultado. Por que não consegue? Uma das respostas é simples: a infelicidade de não poder repetir a base ofensiva dos 2 a 0 sobre os Estados Unidos na estreia. As contusões em série de Alexandre Pato e Paulo Henrique Ganso inviabilizaram a manutenção do ousado e ajustado 4-2-3-1 e deixaram bem claro para o técnico que a reposição não é tão simples, especialmente do camisa dez do Santos”. Na segunda etapa, Mano Menezes tentou sanar esse vazio da intermediária e postou o Brasil também num 4-2-3-1, com Elano pela direita, Neymar pela esquerda e Robinho criando pelo centro. A equipe melhorou e houve aumento do volume de jogo ofensivo, mas por poucos minutos. No final, um 0x0 sonolento e decepcionante.

Depois de vencer a Romênia por 1×0, em jogo disputado na cidade de São Paulo, enfim chegava a Copa América, primeiro grande torneio de Mano como treinador do Brasil. O fato de a competição ser disputada na Argentina de Messi aumentava ainda mais a expectativa de uma final contra os donos da casa, sem contar a seleção uruguaia, que vinha forte após o quarto lugar na Copa da África. Chegava também a hora do badalado time, que venceu os EUA na estreia do treinador, provar em campo a expectativa do torcedor brasileiro. O único desfalque da equipe que enfrentou os americanos, em outubro de 2010, era David Luiz, contundido. Continuamos essa viagem na parte 2 da série “O legado tático de Mano Menezes”. Abraço!

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