O legado tático de Mano Menezes: parte 2

  • por Victor Oliveira
  • 8 Anos atrás

Mano

Nesse momento difícil vivenciado pela Seleção Brasileira, o Painel resolveu esmiuçar taticamente a Era Mano Menezes e o legado tático por ela deixado, o que muito explica as escolhas feitas pelo atual treinador do Brasil. Por que Felipão tem optado por Hulk? Por que Neymar livre à frente de uma linha de quatro? Por que Scolari tem se mostrado em dúvida entre o 4-2-3-1 com Neymar pela esquerda e o 4-4-2 inglês com o craque santista de segundo atacante? Muitas das respostas estão no trabalho de dois anos realizados por Mano Menezes na Seleção. A primeira parte da série já foi publicada, espero que gostem da segunda!

Parte 1: O início promissor e as primeiras decepções
Parte 2: A Copa América e o caminho até Londres
Parte 3: Uma nova equipe após as Olimpíadas
Parte 4: O que pode ser aproveitado por Scolari

A Copa América e o caminho até Londres

Com a chegada da Copa América de 2011, o que era esperança virou desilusão. Nem os mais experientes, como Júlio César, Lúcio, Elano, Maicon, Robinho e Fred, nem os mais jovens e promissores, como Ganso, Pato e Neymar, corresponderam às expectativas, fazendo o Brasil uma campanha ridícula no torneio continental. Ostentando o status de atual bicampeã da América do Sul, a Seleção Brasileira fez péssima primeira fase e demonstrou nervosismo exagerado na eliminação para o tímido Paraguai, ainda nas oitavas de final. O esquema adotado foi o 4-2-3-1 da famosa estreia contra os norte-americanos.

Copa América, Julho de 2011

Na Copa América,a tão esperada “Seleção da estreia” decepcionou e o Brasil fez péssima campanha. Iniciou a competição com um apático 0x0 com a Venezuela na primeira fase. No segundo jogo, outro empate, dessa vez em 2×2 contra o Paraguai. Embora o Brasil tenha conseguido a classificação vencendo o Equador por 4×2, caiu nas oitavas diante do Paraguai. Depois de uma chuva de gols perdidos, o 0x0 persistiu e a decisão foi na cobrança de pênaltis. A Seleção perdeu de uma forma absurda, com André Santos, Fred e Elano isolando suas cobranças. Aqueles que pediram a garotada foram os primeiros a crucificá-la, ficando Mano Menezes solitário no vazio de suas convicções. Ganso iniciava sua decadência técnica e foi uma enorme decepção, assim como Pato, que se apresentou muito mal. Neymar rendeu bem abaixo da expectativa, bem como Jadson, Elano e Fred quando entraram. Maicon apareceu bem, ganhou a posição e parecia estar retornando ao time titular, o que acabou não ocorrendo devido à queda de rendimento do atleta. Nomes como Júlio César, Lúcio e Robinho, remanescentes da Era Dunga, também foram muito questionados. Após o sonho de um Brasil jovem e cheio de craques, torcedores e imprensa começavam a apontar suas armas, bombardeando de todas as formas o trabalho de Mano Menezes

 Brasil no 4-2-3-1

Com o trabalho já permeado por crítica e desconfiança, Mano tinha pela frente a fortíssima e tradicional Alemanha. Em seu primeiro jogo depois da saída vexatória na Copa América, a Seleção voltou a perder. Jogando em Stuttgart, o time brasileiro foi derrotado por 3×2 pelos alemães, que marcaram com Schweinsteiger, Götze e Schürle. Robinho e Neymar descontaram para o Brasil. Mais uma vez, diante de uma grande seleção, Mano optou pelo 4-3-3.

Às vésperas da partida, o técnico brasileiro resolveu modificar a escalação, que tinha Ganso entre os titulares no mesmo 4-2-3-1 da Copa América. Como o meia foi muito mal no primeiro treino tático, Mano resolveu mudar a forma de jogar do time. No lugar de Paulo Henrique Ganso, do Santos, entrou Fernandinho, do Shakhtar Donetsk. A intenção do técnico, de acordo com suas declarações, era ter um meio-campo mais brigador e com capacidade de criar, mas não foi isso o que ocorreu. O time foi dominado pela Alemanha, que teve 60% da posse de bola.

Alemanha 3×2 Brasil – Stuttgart (Alemanha) – 10/08/2011

Com Paulo Henrique Ganso ainda no grupo e Pato antes da última lesão mais complicada, talvez essa tenha sido a última chance do 4-2-3-1 da estreia e da Copa América mostrar seu valor contra uma equipe de ponta. Com Ganso mal no treino tático antes da partida, Mano, diante de uma seleção mais forte, não teve peito para bancar o 4-2-3-1, sacando-o e colocando Fernandinho. Em campo, isso significava o mesmo 4-3-3 que enfrentou a Holanda. Com o meio de campo novamente improdutivo na intermediária ainda no primeiro tempo, o comandante brasileiro alterou o desenho, colocando a equipe num 4-3-1-2 com Robinho de trequartista e Neymar como segundo atacante. Pouco melhorou. Na segunda etapa, Mano sacou Fernandinho e Pato, colocando em campo Ganso e Fred. Mesmo com um 4-2-3-1 mais ousado, o Brasil era pouco competitivo e passava longe do protagonismo. Neymar até fez um belo de gol de fora da área, mas uma entregada ridícula de André Santos acabou colaborando na vitória merecida dos alemães, que não fizeram muita força para lograr êxito.

Brasil x Alemanha

Completamente perdido e sabatinado pela opinião pública, o treinador brasileiro resolveu começar a mexer na base que montou no seu primeiro ano de trabalho. Foi quando iniciou o “projeto Ronaldinho”, erigido pelo treinador como aquele que seria o ponto de equilíbrio tático e técnico da jovem Seleção Brasileira. Marcelo, enfim, foi chamado para o time, o que já era aclamado por torcedores e imprensa. E, dessa vez, Mano foi objetivado a testar novamente o 4-2-3-1, agora com Ganso, Neymar e R10 no lugar de Robinho. O centroavante da vez foi Damião, que começou a ganhar espaço na equipe.

Brasil vs. Gana

Brasil 1 x 0 Gana – amistoso no Craven Cottage, estádio do Fullham (Londres, Inglaterra) – 05/09/2011

Brasil x Gana

A cobrança da torcida e a promessa do treinador, após o revés para a Alemanha, era voltar com o 4-2-3-1, escalando Ganso, Neymar, Ronaldinho e Damião como quarteto ofensivo. Entretanto, aos 8’ do primeiro tempo, Ganso sentiu o músculo posterior da coxa esquerda. Em análise sobre a partida, André Rocha detectou o maior problema brasileiro no plano tático: “da pressão inicial de Gana e precisando pensar rápido para suprir o desfalque inesperado, Mano Menezes manda a campo o volante Elias, reconfigurando a seleção num 4-3-3, com Neymar e Ronaldinho nas pontas e Leandro Damião no comando de ataque ’brasileiro‘ da seleção. Teoricamente uma formação mais ofensiva. Porém, sem o controle da bola na região central. Não pela ausência do principal armador do time, mas pela inexistência de pés mais qualificados e acostumados a rodar a bola e esperar o momento para a infiltração”. Mais uma vez, a intermediária ficou desabitada e o volume ofensivo de jogo do Brasil foi baixo. As coisas só melhoraram quando Opare foi expulso aos 34’ do primeiro tempo, deixando Gana com apenas dez homens. A Seleção fez 1×0 com gol de Damião, após belo passe de Fernandinho. Com um homem a mais e a vantagem no placar, Mano Menezes, como muito bem ilustrado por André Rocha, se permitiu usar uma versão mais ofensiva do 4-2-3-1. Foi a primeira vez que Neymar foi alocado no centro vestindo a camisa do Brasil.

“Na segunda etapa, com cenário favorável, Mano Menezes voltou ao habitual 4-2-3-1, mas com formação ultraofensiva. No entanto, a opção por Neymar centralizado e Ronaldinho à esquerda só se mostrou eficiente no final, com o cansaço de Gana”. (André Rocha)

Movimentação

Depois de conquistar o Superclássico das Américas contra a Argentina, o Brasil jogou mais quatro amistosos antes do encerramento do ano de 2011, vencendo adversários fracos como Costa Rica, Gabão e Egito. O único jogo que realmente valeu como teste foi contra o México, partida em que o Brasil venceu por 2×1, mas, como destacado por André Rocha, a equipe “mostrou pouca, ou nenhuma, evolução no aspecto coletivo”. Novamente, tivemos um time bem mudado na parte da frente. Enfim, se valendo do 4-2-3-1, Mano o escalou com Ronaldinho, Neymar, Lucas e Hulk na frente.

México 1 x 2 Brasil – Torreón (México) – 11/10/2011

Alguns nomes como Lúcio, André Santos, Lucas Leiva e Robinho, juntos com Mano desde o início, começavam a perder espaço definitivo no grupo. Novos rostos começaram a surgir, como Jefferson, Marcelo, Lucas e Hulk. O último jogador, na época atuando pelo Porto, estreou bem e agradou muito o treinador canarinho pela força física e dedicação tática, apesar da chiadeira em torno de sua convocação. Com a expulsão de Daniel Alves, o time brasileiro se desenhou num 4-2-3 com Hulk marcando e atacando pela direita. Apesar do gol de falta, Ronaldinho jogou muito mal, tornando o meio de campo brasileiro lento e pouco produtivo. A volta do 4-2-3-1, antes da expulsão de Dani Alves, não significou ofensividade. Lucas esteve muito apagado e Neymar pouco acrescentou. Diante do 4-4-1-1 mexicano, pela primeira vez Mano experimentou um esquema sem o atacante de referência, com Hulk caindo pelos dois lados e também infiltrando entre os zagueiros. O Brasil venceu, mas não convenceu. A seleção fechava o ano de 2011 sem um meio definido. Aliás, muito longe de uma formação ideal e produtiva.

Brasil x México

Iniciava 2012 e o Brasil continuava sem uma equipe, um padrão definido. Para variar, mais um amistoso contra uma seleção fraca e inexpressiva. Entretanto, o jogo serviu para evidenciar mais uma vez os defeitos de um time que não se formava, não se encaixava, não realizava uma grande apresentação. Novamente, novas apostas, novos nomes e um 4-2-3-1 agudo como o que Dunga escalava. Contra a Bósnia, no primeiro jogo do ano, o mínimo que se esperava era uma luz no fim do túnel, uma demonstração capaz de trazer confiança para o torcedor.

Brasil 2 x 1 Bósnia e Herzegovina – Suíça – 28/02/2012

Nesse amistoso, outra péssima atuação do Brasil, que ganhou com um placar magro de uma seleção sem qualquer expressão. Na época, André Rocha fez um post sobre o jogo e o intitulou de “Brasil 2×1 Bósnia – escolhas de Mano Menezes travaram a seleção”. Postando o Brasil num 4-2-3-1 agudo pela esquerda, com a assinatura de Dunga, Mano plantou Hernanes um pouco mais, quase como terceiro volante. Tudo para liberar Neymar e tentar otimizar o baixo rendimento do craque com a camisa amarela. Ronaldinho, com seu desempenho pífio e sua lentidão, era um dos problemas da Seleção. Sobre o tema, André Rocha escreveu com propriedade: “A produção ofensiva era ainda mais prejudicada pela nulidade de Ronaldinho, que justificou todas as ressalvas desde a convocação. Ainda que Ganso não tenha recuperado o fulgor de 2010, não há explicação técnica para a escalação de um jogador que vai muito mal no Flamengo e não teve um desempenho na seleção que justifique a titularidade. Lento, o ex-melhor do mundo nada criou, se movimentou pouco, facilitou a marcação, não apareceu nem nas bolas paradas, muito menos liderou, como espera o comandante”. Abaixo, imagem feita por André para ilustrar as mudanças feitas por Mano na etapa complementar, que acabaram resultando na magra e decepcionante vitória.

Brasil x Bósnia

“Com as substituições, o quarteto ofensivo foi mais incisivo e rápido, contando com o suporte de Elias. Porém, não foi o suficiente para tornar a seleção mais dinâmica e envolvente” (André Rocha). Lembrando que o questionado Hulk novamente entrou bem, criando a jogada do gol da vitória com velocidade e, como sempre, esbanjando vigor físico.

Movimentação ofensiva

Próximo capítulo: a Seleção Olímpica

No dia 13 de maio de 2012, Mano fez uma convocação com a base Olímpica, já pensando nos jogos de Londres. Dos 23 jogadores, 17 tinham idade sub-23. A citada convocação era para quatro amistosos que antecederiam os jogos olímpicos: Dinamarca (26 de maio), Estados Unidos (30 de maio), México (3 de junho) e Argentina (9 de junho). A Seleção principal só voltaria no dia 15 de agosto, mais de cinco meses após o jogo contra a Bósnia. E foi do time olímpico que Mano trouxe o fôlego e algumas peças que se tornaram essenciais na equipe principal.

A perda do ouro foi inaceitável, afinal o Brasil tinha a melhor equipe do torneio, estando bem à frente dos adversários em termos técnicos. Mano acabou decidindo levar Thiago Silva, Marcelo e Hulk para a vaga dos jogadores acima de 23 anos, o que foi condenado pela maioria da opinião pública, que queria ou Daniel Alves para compor a lateral direita ou então David Luiz para formar com Thiago a dupla de zaga. No próximo capítulo da série, vamos analisar a terceira e última fase da Era Mano Menezes no comando da seleção, ou seja, dos Jogos Olímpicos até sua demissão. Não percam! Abraço!

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