Quando o significado de torcer perde o sentido

  • por Helena Cristina de Oliveira
  • 7 Anos atrás
Foto: Gazeta Press - Vaias têm sido constantes em jogos da Seleção Brasileira

Foto: Gazeta Press – Vaias têm sido constantes em jogos da Seleção Brasileira

Parabéns, você está na última etapa do processo seletivo para entrar em uma multinacional! Aquela mesma, eleita cinco vezes como a melhor empresa para se trabalhar. Chegar até aqui foi difícil, mas agora você terá muito mais trabalho. Duas equipes se formarão e cada componente terá que dar o melhor de si, mostrar ao que veio e apresentar uma solução definitiva para os eventos que acontecerão. Só um detalhe: para a dinâmica, pode chamar seu pai, sua mãe, seus irmãos, o melhor amigo e a namorada para te dar aquele apoio durante o processo. Afinal, é o mínimo que você espera deles, que estejam ao seu lado para o que der e vier, torcendo insanamente até o fim. E não é que eles largaram tudo para te ver? Deixaram a novela de lado, saíram mais cedo do trabalho, chamaram até o vizinho! Sua confiança até aumentou ao ver todo mundo ali só por você. Como é bom contar com eles quando você está em uma prova de fogo, não? Bom, pelo menos ao princípio, era.

Começa a dinâmica. Você sabe que pode ir longe. Fez milagres nas outras empresas que trabalhou e é desejado por outras companhias. Mas a verdade é que seu sonho sempre foi trabalhar nessa multinacional. Aliás, é o sonho de todos no seu ramo. Na sua equipe você olha para o lado e vê gente que tem muito potencial para ser contratado também, um currículo extenso. Outros, você não entende bem o que está fazendo ali. Mas ele chegou lá, então agora vocês têm que se unir e vencer aquele desafio.

No primeiro teste, sua equipe já não demonstra todo o empenho que deveria ter. Mas, está tentando. A verdade é que, por ser uma multinacional tão reconhecida e almejada, tudo pesa mais e a cobrança é maior. Ainda que você mal tenha tido tempo de praticar um pouco com seus colegas de equipe. Seus parentes estão lá te acompanhando, com aquele olhar de “te amo, confio em você!”.

A outra equipe pontua. Seu pai se mexe um pouco na cadeira, parece estar desconfortável. Seus concorrentes pressionam, mas mesmo assim sua equipe consegue empatar. O olhar do amor voltou aos seus familiares. Ficaram eufóricos então quando seu grupo assinou a virada! Quanto orgulho, quanto amor! Você está em êxtase. Sabe que não está mostrando o melhor de si, mas com todo mundo ali ao lado, suas esperanças renovavam. Como é bom ter alguém torcendo por você. De repente, em uma sacada genial a outra equipe volta a pontuar igualando o resultado. Mas aquilo não era o pior. De repente, seu melhor amigo levantou e se retirou da sala. Seu pai te olha com desprezo. Seus irmãos sorriem discretamente a cada boa resposta que seus adversários dão. E sua namorada, veja só, está até olhando para aquele carinha do outro grupo! Ao presenciar aquilo, você não sabe o que está acontecendo. Por que a sua torcida está fazendo isso? Você fica até sem reação, perplexo diante daquela situação. Até a outra equipe estranha, mas se empolga. Como lutar para ir mais longe, sendo que seu braço direito não está mais lá?

Ao final da dinâmica, nenhuma equipe saiu vencedora. Mas o pior não foi isso. O pior foi ver quem mais deveria te apoiar, se virar contra você. Tudo bem, você está ciente de que não deu o seu melhor. Afinal, quanto maior o poder, maior a responsabilidade, certo? Mas você quer vencer, quer ser campeão. A pergunta é: como fazer isso sem ter quem você mais precisa ao seu lado?

Ontem presenciamos mais uma atuação nada convincente da seleção brasileira. Mas o que mais doeu, mais revoltou, foi ver as mesmas pessoas que gritavam “sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor” ridicularizar o Brasil. Vaiaram. Gritaram “olé”. Torcer é desejar que sua equipe vença. Mesmo quando você achar que ela não mereça sua torcida. Não é de hoje que o brasileiro preferiu ignorar o verdadeiro sentido de ser torcedor quando se trata da seleção brasileira. E todos sabem que esse tipo de comportamento não motiva e não ajuda. A seleção tem um longo caminho pela frente, mas ele pode ser menos árduo se estivermos ao lado dela.

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Jornalista. Interessou-se pela área graças ao seu time do coração, o Palmeiras. Foi finalista do 5º Prêmio Santander Jovem Jornalista em 2010, quando ainda era estudante. Com 25 anos, atualmente trabalha na Comunicação & Marketing do Departamento de Comunicação do Instituto Internacional de Ciências Sociais (IICS), em São Paulo. Viu na Doentes por Futebol uma oportunidade de fazer parte do jornalismo esportivo, que é um sonho e um segmento em que acredita que pode ter mais valor para a sociedade.