Taribo West e a temática dos “gatos” no futebol

  • por Rogério Bibiano
  • 8 Anos atrás

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Taribo West ficou marcado após denúncia do ex-presidente do Partizan Belgrado-SEV, Zarko Zecevic, o qual acusou o ex-zagueiro nigeriano Taribo West de jogar com idade adulterada. Segundo Zecevic, quando West chegou à equipe, em 2002, ele não teria 28 anos, mas sim 40, uma diferença de incríveis doze anos. O Doentes por Futebol, seguindo a conduta editorial de investigar a fundo os fatos, traz uma análise sobre este obscuro tema do futebol: a questão dos “gatos” no futebol africano.

Conversamos com o jornalista argelino Med Salah Amelal e com o também jornalista zambiano Tresor Kabwe para tentar compreender o que os africanos pensam sobre o assunto. Além disso, entramos em contato com outros torcedores do continente africano. Bom ressaltar que Taribo West não se manifestou publicamente sobre a acusação.

Os dois jornalistas entrevistados acreditam que a probabilidade de Taribo West ser um “gato” é grande, porém ambos são unânimes em relação ao exagero nas declarações de Zecevic, segundo o qual o joagdor teria 12 anos a mais do que era declarado. Para eles, o West teria, no máximo, 5 anos a mais.

Foto: AFP. Taribo West fez bons jogos pela Internazionale. Nesta foto, a equipe que venceu a final da Copa da UEFA, sobre a Lazio, com gols de Zamorano, Zanetti e Ronaldo.

Foto: AFP. Taribo West fez bons jogos pela Internazionale. Nesta foto, a equipe que venceu a final da Copa da UEFA, sobre a Lazio, com gols de Zamorano, Zanetti e Ronaldo.


A justificativa para o fato de não acreditarem em uma diferença de idade tão grande é pelo simples fato de que na temporada 1997-98, atuando pela Internazionale, participou da temporada regularmente, algo que para um atleta naquela época, com supostos 36 anos, não iria passar impune, até mesmo pela intensidade que a posição de zagueiro exige em um campeonato extremamente disputado, como era a Serie A naquela época. Outro fator destacado é que West, supostamente com 34 e não 23 anos nas Olimpíadas, não teria com esta idade condições de sair na cobertura, ainda mais levando em conta que seu companheiro de zaga era o experiente e já veterano Uche Okechukwu. Taribo West era, taticamente, o zagueiro que saia para marcar atacantes velozes, como Ronaldo e o argentino Claudio Lopez, por exemplo.

A partir das declarações de Zecevic, retoma-se mundo afora o levantamento de suspeitas em torno da idade de outros célebres jogadores africanos. No caso da Nigéria, questiona-se a idade de Nwankwo Kanu, Jay Jay Okocha, Emmanuel Amunike e Daniel Okocha. Os dois últimos, por exemplo, encerraram suas carreiras com 34 e 33 anos, respectivamente.

Os “gatos” da África, um problema antes de tudo de ordem social.

Os “gatos” se sobressaem no futebol nas categorias de base, especialmente nas categorias abaixo de 17 anos, quando a formação física ainda está em processo de amadurecimento e crescimento físico e fisiológico. Há também o fator psicológico, que irá influenciar a auto-confiança do atleta e que pode ser mais estável em jogadores mais velhos.

A partir de 1985, a FIFA passou a realizar o Mundial Sub-17. Nas dez primeiras edições, as seleções africanas chegaram ao pódio em nove oportunidades (ao todo já foram disputados quatorze edições da categoria). Nessas dez edições, somente em 1989, na Escócia, os africanos não chegaram ao pódio. A asiática Arábia Saudita foi a campeã e também teve a idade de seus atletas contestada por parte dos adversários naquela conquista.

Ao longo de anos sempre questionou-se a força física africana em competições de base, especialmente entre os anos 80 até meados da década de 90. O que mais impressionava era, sem dúvida, a diferença de porte físico das equipes africanas, as quais possuíam jogadores muito mais avantajados na comparação com as demais seleções.

No continente mais pobre do mundo, atormentado por guerras civis, governos corruptos e totalitaristas e inúmeros golpes de estados, tal soma de fatores resulta em fome extrema, Em muitos dos países, obter uma simples certidão de nascimento é algo utópico demais, levando-se em conta a luta das pessoas para sobreviver em meio a estes cenários. Tais circunstâncias somados a problemas de ordem estruturais (estradas, transportes) fazem com que muitas famílias somente tenham a oportunidade de registrar seus filhos alguns anos após o nascimento.

Em alguns casos, a criança, quando consegue registrar-se, pode não estar acompanhada dos pais e aí a confusão tende a ser maior ainda, colocando números oficiais de forma aleatória. Soma-se a isso o problema da falta de postos de registros de nascimento (ou cartórios) nas regiões mais distantes. Em 2010, Rafael Pirrho, a serviço do globoesporte.com, entrevistou Stephen Amoah, na época diretor do Escritório de Registros de Nascimentos e Mortes de Gana (veja a reportagem aqui). O relato obtido é sério e acima de tudo realista.

Levando-se em conta que o pobre país de Gana possui bons e crescentes índices de desenvolvimento na comparação com outros países da região, não é muito difícil imaginar como é a situação nas demais nações, com excessão talvez dos países da Zona Norte da África (Argélia, Egito, Líbia, Marrocos e Tunísia).

Há também os que falsificam a idade conscientemente, sabendo que esta muitas vezes é a única oportunidade para vencerem no concorrido mundo do futebol. Destacando-se nas categorias de base, as chances obviamente aumentam para poder assinar um contrato com um clube europeu e por consequência melhorar a própria condição de vida, bem como de seus familiares. O caso mais recente, com tom tragicômico, é de Chancel Mbemba Mangulu, do Anderlecht-BEL e da Seleção do Congo, que, conforme denúncia da rede de televisão CNN, teria quatro identidades com diferentes datas de nascimento.

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Foto: reprodução – CNN. Carteira do primeiro registro de Mbemba da Federação Congolesa.



Brasil: uma fábrica de “gatos”

De vítima a vilão. Talvez esta seja a frase que possa definir melhor a situação do Brasil em relação aos “gatos” do futebol, ao longo de todos estes anos. Os casos hoje são inúmeros e frequentemente surgem na mídia novas notícias relatando “gatos” em clubes de diversos lugares do Brasil. Até a década de 80, os “gatos” não eram comuns nos gramados brasileiros.

A vontade de sair da pobreza jogando futebol e o vislumbramento de inúmeras oportunidades que o esporte pode trazer são fatores que impulsionam o surgimento dos “gatos” no futebol brasileiro. Nesta situação, em alguns casos é comum que a própria família ajude na mentira.

Curiosamente, é comum observarmos desde figuras importantes da mídia brasileira até o simples torcedor dando risada e brincando com os casos de “gatos” do futebol africano. O que a grande maioria acaba esquecendo nestas horas é que aqui no Brasil a situação é igual, senão pior, levando em conta as condições do Brasil em comparação às das muitas nações africanas.

Um caso emblemático no Brasil é o de Sandro Hiroshi, que destacou-se atuando no São Paulo em 2000 foi descoberto “gato”, com dois anos a mais na sua idade informada. Emerson Sheik, ídolo do Corinthians, também foi descoberto em 2001 (com quatro anos a mais), às vésperas de um Mundial Sub-20, para o qual havia sido convocado. O jogador acabou sendo desconvocado. Na época, Sheik, coincidentemente, também atuava pelo São Paulo.

Recentemente, o “olheiro” Adriano Marabá estampou as manchetes como responsável em criar “gatos” e especialmente porque ele colocou alguns destes “gatos” na base do Corinthians. Um dos atletas agenciados por Adriano Marabá era a sensação da base corintiana Darlan (veja aqui a reportagem da coluna Prata da Casa do portal Terra), que teve sua idade falsa descoberta e acabou sendo dispensado pelo clube.

Já se vão sete anos que Karioca, destaque do sub-15 do Santos (jogando com um menino magrinho, habilidoso e driblador, que viria a ser conhecido mundialmente como Neymar), foi descoberto. Em entrevista ao portal IG (clique e veja aqui), Karioca relata que dirigentes do próprio Santos sabiam da sua situação irregular e que, ainda assim, certamente motivados pelo apelo financeiro, ousavam prosseguir com a farsa.

Enfim, Taribo West, com doze anos a mais ou doze anos a menos, é mais um exemplo dos que permeiam o cenário do futebol mundial dos anos 90 para cá. Não será o primeiro e também não será o último. O aumento recente dos casos de “gatos” fora da África (Brasil, países da CONCACAF, leste e sudeste da Ásia, que já tiveram casos comprovados), deixam a FIFA com as mãos atadas, visto que o jogo de interesses da entidade a impede até de se manifestar sobre o assunto. O mesmo acontece com inúmeras federações ao redor do mundo. Com isso, percebe-se como o problema dos “gatos” é recorrente e vem tomando conta do futebol. Mas a ineficiência e a busca de interesses próprios de quem comanda o futebol no mundo faz com que a resolução do problema seja distante. Então, caro doente por futebol, caso fique sabendo de um novo caso de “gato”, não se assuste. É apenas um “gatinho”.

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Natural de Telêmaco Borba-PR e criado em meio à "boemia futebolística", com horas de papo sobre futebol, samba e cervejas na pauta. Influência do pai, que também adorava futebol, e da mãe, que sempre apoiou a iniciativa. Técnico em Eletrônica, formado desde 1999, e fanático por futebol, futsal, futebol de praia, society e todo esporte que tenha no futebol a sua essência.