Trégua: Sérgio Guedes e o horizonte no Sport

SÉRGIO GUEDES E O HORIZONTE DO SPORT

Depois da tempestade, vem a bonança. O adágio popular serve perfeitamente para ilustrar o momento que vive hoje o Sport. Após um início de ano conturbado, em que o clube foi eliminado da Copa do Nordeste e demitiu seu treinador, as coisas finalmente parecem se encaixar pelas bandas da Ilha do Retiro. As mudanças, no entanto, foram muito poucas: o elenco ainda é o mesmo que, apesar de sempre ter mostrado potencial, não conseguia render seu máximo, e a diretoria ainda é composta pelos mesmos dirigentes atrapalhados, que continuam fazendo de tudo para tumultuar o ambiente do clube. Todos os progressos obtidos são consequência direta de um único fator: a contratação do técnico Sérgio Guedes.

E não foram poucos os avanços. Desde sua estreia, o treinador vem implementando rapidamente seu estilo de jogo, continuando um trabalho que já havia dado frutos no ano passado. Na Série A de 2012, o Sport quase escapou de um rebaixamento que já na metade do campeonato era dado como certo graças ao bom trabalho de Guedes, que conseguiu extrair do grupo rubro-negro o que nenhum treinador havia conseguido durante toda a temporada. Porém, como tinha um vínculo estabelecido com o XV de Piracicaba para a disputa do Paulistão de 2013, não pôde continuar o seu trabalho em Recife. Rumou para o interior paulista, e deixou a torcida rubro-negra lamentando sua saída e imaginando o que poderia ter acontecido caso o técnico tivesse chegado ao clube um pouco antes.

“Até breve”

Cicinho vinha bem, mas virou bode expiatório com Vadão.

Cicinho vinha bem, mas virou bode expiatório com Vadão. Foto: Aldo Carneiro/Globoesporte.com

A saída de Sérgio Guedes deixou o torcedor leonino desconfiado, e o nome de Vadão nunca chegou a emplacar. A eliminação na Copa do Nordeste tornou a situação insustentável para a comissão técnica, e quando foi anunciada a saída do comandante, houve um clamor pela volta de Guedes. E poucas vezes a torcida rubro-negra esteve tão certa em suas crenças: até de maneira insólita, o treinador parece ter retomado o trabalho no mesmo ponto em que o deixou. O time tem apresentado evolução nítida – traduzida numa invencibilidade de oito jogos – e protagonizou uma arrancada que o fez terminar o segundo turno do Pernambucano na liderança. Além disso, contrariando uma tendência dos últimos anos, avançou sem sustos na Copa do Brasil. Os números também ajudam a entender esse progresso: nas quatro partidas do estadual antes da chegada do “McGyver”, o Sport sofreu cinco gols e marcou oito. Nos oito jogos seguintes, válidos por Pernambucano e Copa do Brasil, foram seis gols sofridos e dezoito marcados. Frutos de uma sensível mudança de postura tática: a bagunça generalizada do final da Era Vadão deu lugar a uma postura mais definida dentro de campo, e com isso vários atletas cresceram de rendimento.

Os casos mais marcantes são os de Cicinho e Felipe Azevedo. O primeiro, que havia virado bode expiatório após a eliminação no Nordestão, reassumiu a posição que era sua por direito, e vem tendo atuações consistentes. Já o atacante vinha passando por dificuldades com a falta de padrão tático. Além de se destacar por sua qualidade técnica, Azevedo também é reconhecido por sua entrega em campo. Num time desorganizado, a bola pouco chegava nele, e isso fazia com que ele precisasse ter uma carga defensiva maior. Longe do último terço do campo, onde seus dribles curtos e arrancadas fazem toda a diferença, ele não passava de um jogador voluntarioso e improdutivo, que já vinha começando a sofrer perseguições da torcida. Os dois casos são emblemáticos: mostram que o Sport vinha sentindo carências cujas soluções já estavam dentro do seu próprio elenco. Tudo por causa da absoluta confusão instaurada dentro de campo.

Espírito renovado

Sérgio Guedes parece ter o grupo "na mão".

Sérgio Guedes parece ter o grupo “na mão”.

A mudança de postura também se deu no aspecto motivacional. É claro que uma sequência de resultados positivos é capaz de dar novo ânimo a qualquer time, mas esse novo vigor vem se mostrando desde as primeiras partidas sob o comando de Sérgio Guedes: o Sport voltou a ser o time aguerrido do final do ano passado, que lutava contra o improvável e nunca desistia. No clássico contra o Náutico, por exemplo, a equipe era franco-atiradora. O rival, algoz no rebaixamento, vinha voando no estadual, enquanto o Leão vivia um momento de crise e fazia apenas sua segunda partida sob o comando de Guedes. Surpreendentemente, no entanto, o Sport começou o jogo melhor, criando perigo sem se intimidar com o favoritismo adversário. Mas num chutaço de Rogério, o cenário se inverteu: o Timbu saiu na frente e deixou os donos da casa em situação complicada – a torcida precisava dessa vitória para voltar a jogar junto com o time. Apesar da grande responsabilidade, os rubro-negros mantiveram a calma foram buscar o resultado, já no final do segundo tempo. Não foi a única ocasião em que o Leão conseguiu buscar um resultado adverso: contra o Santa Cruz, no Arruda, perdia até os 47 minutos do 2º tempo, e nos últimos suspiros do jogo, encontrou um pênalti, com Lucas Lima – devidamente cornetado aqui. Essa combatividade dá sinais de um grupo unido, comprometido com o projeto do treinador. Ponto (mais um) para Sérgio Guedes.

Assim, dentro de um mês, a tempestade cessou na Ilha do Retiro. Dela, bons frutos como o inesperado surgimento de Lucas Lima como opção qualificada, ou como a ascensão de Érico Jr. e Mateus Lima ao time principal. Justamente a tempo de disputar a Copa do Brasil e a fase final do Pernambucano. Há ainda algumas ressalvas ao trabalho do treinador: a repentina subutilização de Sandrinho, que vinha progredindo, a insistência com Roger e a manutenção de Marcos Aurélio como reserva. Todas elas, entretanto, compreensíveis. E que poderão ser analisadas com a tranquilidade de um barco bem guiado, ao sabor de águas calmas.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.