Um exemplo para formar jogadores

O que as categorias de base do futebol no Brasil podem aprender com o esporte universitário americano?

Em época de finais de basquete da NCAA, quem acompanha as modalidades americanas fica em polvorosa. O Louisville Cardinals foi campeão masculino na segunda-feira (08) e as meninas do Connecticut Huskies conquistaram o troféu na noite de terça (09). Mas o que basquete tem a ver com Doentes por Futebol?, você pode perguntar. Por mais improvável que pareça, uma comparação entre o sistema americano de formação de atletas e as categorias de base do futebol no Brasil é válida se quisermos compreender os problemas que enfrentamos quando o assunto é continuidade esportiva.

Para quem não entende muito do assunto, a National Collegiate Athletic Association (NCAA) representa a organização máxima dos esportes universitários nos Estados Unidos. Em uma realidade muito diferente da brasileira, a entidade abrange mais de 20 modalidades em quase mil instituições de todo o país. O sistema de formação é integrado – os esportes compreendidos pela liga recebem o apoio das organizações de ensino, mas isso não quer dizer que as universidades são especialistas em todas as modalidades. O basquete e o futebol americano são os carros-chefes da NCAA, mas o soccer também entra na extensa lista.

NCAA pode ser um bom exemplo para as categorias de base do futebol brasileiro. Foto: AP

NCAA pode ser um bom exemplo para as categorias de base do futebol brasileiro. | Foto: AP

Voamos para terras verde-amarelas. Em uma análise rápida sobre categorias de base no Brasil, durante uma palestra realizada em 2012, Mário André Mazzuco, gerente de futebol de base do Coritiba, afirmou que grande demanda de atletas não significa profissionalização. “A gente sabe que só 10% ali vai virar jogador de futebol”, disse Mazzuco, na ocasião, ao se referir aos jogadores sob seu comando. Embora os números nas escolas de base dos grandes clubes do futebol nacional não sejam divulgados – principalmente por falta de uma central de dados em comum – é quase obrigatória a existência de diversas equipes de formação dentro dos times.

O principal problema das categorias de base, além da precariedade das estruturas e do espaço aberto para pilantragem com os atletas, é a falta de prioridade na formação integral do cidadão. O dilema dos futebolistas brasileiros, quando chegam à fase adulta, é inevitável. Ao atingir a maioridade, grande parte deles precisa optar entre os estudos e o esporte – isso quando não abandonaram a escola pelos alojamentos dos clubes no início da adolescência.

Na NCAA, independente da modalidade, é impossível queimar etapas. Um atleta não pode sair do ensino médio direto para o esporte profissional. Para ser avaliado como candidato das grandes equipes, o jogador precisa estar inscrito na liga universitária e participar dos drafts que os alçarão aos planteis profissionais. A formação acadêmica, então, é obrigatória.

O apoio da imprensa também é notável. A revista esportiva mais popular dos Estados Unidos, a Sports Illustrated, dedicou quase um terço da edição desta semana (das finais de basquete) para as modalidades universitárias. A cultura criada em torno do esporte das instituições de ensino se tornou tão evidente que os veículos de informação e os agentes publicitários incluíram de forma efetiva o assunto na agenda.

Pode ser que a cultura das categorias de base, no Brasil, nunca mude. Aliás, é quase impossível querer que essa fatia do processo seja transformada enquanto mudanças eficazes não forem implantadas em todo o futebol brasileiro. Os céticos recorrerão ao pensamento antiquado: norte-americanos não entendem de futebol, então o sistema não se encaixaria por aqui. Os tempos, contudo, mudaram. Os números da Major League Soccer estão aí para quem quiser ver. Talvez o nosso futebol também precise aprender a preparar o futuro dos “não-jogadores”. Isso, a NCAA da terra do Tio Sam sabe fazer muito bem.

Em tempo (11/04): diferente do que foi afirmado no texto, existem brechas no sistema universitário. Um atleta pode sair do ensino médio e participar do draft da NBA, por exemplo, se cumprir alguns requisitos, como ter a idade mínima de 19 anos. De qualquer forma, uma das únicas maneiras para um atleta comum ser lançado ao mercado profissional é através da universidade. Para ser inscrito na NCAA – e, consequentemente, na melhor forma de ser visto por algum time – o esportista precisa estar arrolado em uma instituição de ensino. A porta de entrada para as equipes profissionais são os drafts, sistema que favorece a exposição e escolha de atletas.

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Desde pequena, arriscou no esporte. Foi jogadora de tênis, mas pendurou as raquetes ao perceber que sua vocação era nos bastidores das modalidades. Apaixonou-se por futebol aos 11 anos, quando o pai a levou ao estádio pela primeira vez. Terminou a gloriosa carreira no futsal aos 16 anos, depois de defender um pênalti na final da liga do Ensino Médio. Cultiva com orgulho, desde 2010, o blog "Entrando no Jogo". Apresentadora de TV, comentarista de rádio, boa tenista, goleira mediana e péssima nadadora.