70 anos de Jair Bala, um dos ícones do futebol mineiro

  • por Levy Guimarães
  • 8 Anos atrás
Foto: reprodução

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Um jovem jogador de 19 anos, ainda atuando nas categorias de base do seu clube, vai a um escritório pedir o “bicho” que estavam lhe devendo. Chegando lá, encontra Willian, um funcionário do clube, a quem faz o pedido. Por brincadeira, o funcionário pega uma arma, que acreditava estar descarregada, e a aponta ao peito do rapaz, a fim de intimidá-lo. Com o susto imediato do atleta, sorri e abaixa a arma, apertando o gatilho de forma acidental. Mal sabia ele que a arma estava, sim, carregada, acertando a parte de cima da coxa do jogador, perto da região da virilha. Felizmente, não ofereceu risco de vida, mas a bala ficou alojada nesse mesmo local.

O que poderia ter sido uma história traumática, até mesmo comprometendo a carreira do jogador, acabou sendo apenas o primeiro de vários episódios que tornaram conhecido Jair Félix da Silva, o Jair Bala. Nascido em Cachoeiro de Itapemerirm-ES, no dia 10 de maio de 1943, o atacante que fez história pelo América-MG e também deixou sua marca em times como o Botafogo de Garrincha e o Santos de Pelé, completa hoje 70 anos.

Inicialmente chamado de Jairzinho, começou nos juniores do Flamengo, clube no qual atuou ao lado de craques como Gerson e Dida e era tido como um atacante promissor. Porém, devido a um desentendimento com o técnico recém-chegado Flávio Costa, perdeu espaço no time. Já com um “contrato de gaveta” assinado com o Botafogo, em 1962, Jair tinha acabado de ser campeão carioca de aspirantes pelo rubro-negro, marcando os três gols da equipe na final contra o Bangu. Dias depois, o treinador o chamou no vestiário e afirmou que o trocaria com o Botafogo por um par de chuteiras de Garrincha, que seria o seu verdadeiro valor. Foi ali que Jair perdeu de vez a paciência e forçou a saída para o clube alvinegro.

Logo na sua chegada, em 1963, conquistou rapidamente a titularidade como meia e se destacou ao lado de nomes como Garrincha, Nilton Santos, Manga e Zagallo, chegando até a barrar este último por alguns jogos. Até mesmo o lendário cronista Nélson Rodrigues reconheceu o talento de Jair e descreveu, de forma poética, as qualidades do jogador:

“Se Jair fosse simplesmente Jair, estaria apodrecendo na obscuridade. À toda hora, em toda parte, nós esbarramos, nós tropeçamos num Jair qualquer. (…) Desde o primeiro minuto do jogo, foi uma arma apontada para o peito do inimigo. E todos percebemos que nunca um Jair fora tão bala. É a autenticidade dos apelidos, que nunca existe nos nomes”.

Foto: reprodução - Jair (à direita) ao lado de Garrincha no Botafogo

Foto: reprodução – Jair (à direita) ao lado de Jairzinho no Botafogo

Mas em um caso parecido com o de quando jogava no Flamengo, desentendeu-se com o novo treinador, Zolo Rabelo, e decidiu sair. Recebeu proposta de vários times grandes, como Grêmio, São Paulo e Corinthians. Mas acabou por escolher o América-MG, devido à iminência da inauguração do Mineirão e o potencial de crescimento do futebol mineiro por conta disso.

Quando chegou ao Coelho, em 1964, conquistou logo de cara a torcida. Foi artilheiro do Campeonato Mineiro daquele ano, com 25 gols em 14 jogos, tendo sido considerado o melhor jogador do torneio. Apesar do bom futebol apresentado, não conseguiu levar o time ao título. Perdeu a final para o Siderúrgica, na que considera a maior decepção de sua carreira. Como reconhecimento, foi convocado para jogar pela Seleção Mineira na inauguração do Mineirão, em setembro de 1965, em um amistoso contra o River Plate.

Já como ídolo do América, protagonizou o que foi, na época, uma das maiores transferências do futebol brasileiro. Vendido por 50 milhões de cruzeiros ao Comercial de Ribeirão Preto, fez parte do que ainda é tido como o melhor esquadrão já montado pelo time do interior paulista. O clube foi 4º colocado do Paulista de 1966 e Campeão do Interior, conseguindo proezas como a vitória por 3×0 sobre a Academia palmeirense e os cinco gols feitos no Santos de Pelé dentro da Vila Belmiro.

Foto: reprodução - Jornal da época noticiando a transação milionária de Jair

Foto: reprodução – Jornal da época noticiando a transação milionária de Jair

A boa performance pelo Comercial lhe rendeu lugar em equipes que fizeram história no futebol brasileiro. Primeiro, o Palmeiras de Ademir da Guia, em 1967, duplamente campeão nacional: conquistou a Taça Brasil e o Roberto Gomes Pedrosa. Dois anos depois, integrou o Santos de Pelé e ficou conhecido por ter substituído o Rei após este ter marcado o seu milésimo gol, no Maracanã. Mesmo sendo reserva na maior parte do tempo, Jair Bala era considerado por Pelé como o seu melhor companheiro de ataque.

Foto: reprodução - Uma das jogadas marcantes do atacante era a bicicleta. Fez pelo menos 4 gols dessa forma na carreira

Foto: reprodução – Uma das jogadas marcantes do atacante era a bicicleta. Fez pelo menos 4 gols dessa forma na carreira

Em 1970, acertou sua volta ao América, mas foi em 71 que atingiu o ápice da carreira. Tal auge se deu na considerada melhor equipe da história do clube. Foi novamente artilheiro do Mineiro, dessa vez conquistando o título de forma invicta e superando equipes como o Atlético, campeão brasileiro daquele mesmo ano; o Cruzeiro, de Tostão, Piazza e Dirceu Lopes; e o Villa Nova, campeão brasileiro da Série B. Um título que orgulha tanto os americanos quanto o decacampeonato mineiro nos anos 20.

Até hoje um dos jogadores mais respeitados pelos mineiros, Jair Bala é considerado pelos torcedores o maior jogador da história do América-MG. É, ainda, o maior artilheiro do Estádio Independência, com 25 gols marcados, e tem seus pés imortalizados no hall da fama do Mineirão. Se você perguntar a algum torcedor mineiro por um ícone da história do Coelho, certamente o nome de Jair Bala será o primeiro lembrado.

Foto: reprodução - Jair Bala em seu maior palco

Foto: reprodução – Jair Bala em seu maior palco

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Estudante de Jornalismo e redator no Placar UOL Esporte, belo-horizontino, apaixonado por esportes e Doente por Futebol. Chega ao ponto de assistir a jogos dos campeonatos mais diversos e até de partidas bem antigas, de décadas atrás.