A Maldição de Béla Guttmann

  • por Levy Guimarães
  • 5 Anos atrás
Foto: reprodução - Béla Guttmann, técnico bicampeão europeu pelo Benfica

Foto: reprodução – Béla Guttmann, técnico bicampeão europeu pelo Benfica

Era maio de 1962. A Europa assistia ao segundo título europeu consecutivo do Benfica, após derrotar o Real Madrid histórico de Di Stéfano, Puskas e cia por 5×3, com show do jovem Eusébio. Extasiados, os torcedores portugueses comemoravam mais uma grande conquista e o domínio sobre o futebol do continente. Mal sabiam eles que, a partir dali, uma nuvem negra pairaria sobre o clube.

Em fim de contrato, o técnico húngaro Bella Guttmann, comandante da equipe nos dois títulos da Liga dos Campeões, pediu aumento salarial para continuar no cargo. A diretoria, porém, relutou em concedê-lo. Sem resolver o impasse, o treinador decidiu deixar o clube, para a tristeza de todos os benfiquistas. De saída de Lisboa, rogou uma praga que jamais seria esquecida pelos Encarnados:

“sem mim, nem daqui a cem anos o Benfica conquistará uma taça continental.”

Iniciava-se o que ficaria para sempre conhecido como a Maldição de Béla Guttmann.

Logo no ano seguinte, o Benfica chegou à sua terceira final seguida de Liga dos Campeões, dessa vez contra o Milan de José Altafini (o popular Mazzola, para os brasileiros). E foi o ex-jogador do Palmeiras o carrasco dos portugueses. Após Eusébio abrir o placar, Mazzola virou a partida no segundo tempo e deu o título aos rossoneros, quebrando a hegemonia encarnada. Ainda nos anos 60, a geração de ouro do Benfica teve mais duas oportunidades de desmentir Guttmann e voltar ao topo da Europa, mas também falhou: em 1964/65 foi derrotado pela Inter de Milão por 1×0, e, em 1967/68, perdeu para o Manchester United de Bobby Chalton por 4×1, sofrendo três gols na prorrogação.

Foto: reprodução - Bobby Chalton ergue o troféu de campeão conquistado sobre o Benfica em 68

Foto: reprodução – Bobby Chalton ergue o troféu de campeão conquistado sobre o Benfica em 68

Ignorada a princípio, a maldição começava a incomodar o time de Lisboa. E teve continuidade na década de 80. Primeiro, com o vice-campeonato da Copa da UEFA (atual Liga Europa), em 1983, contra o Anderlecht, com o time perdendo o jogo de ida na Bélgica por 1×0 e empatando em 1×1 no Estádio da Luz. Cinco anos depois, a sexta final de Champions League e o quarto fracasso, agora da forma mais dramática possível: na decisão por pênaltis, após um 0x0 contra o PSV.

Foto: reprodução - Pênalti perdido por Veloso, que deu o título para o PSV em 1988, por 6x5 nos penais

Foto: reprodução – Pênalti perdido por Veloso, que deu o título para o PSV em 1988, por 6×5 nos penais

Em 1990, o Benfica se preparava para a sua oitava final continental, novamente contra o Milan, pela Champions. O jogo ocorreria em Viena, cidade onde está enterrado o corpo de Guttmann, morto em 1981. Era a oportunidade ideal para quebrar de vez a maldição, já que estariam na “presença” do ex-técnico. Porém, mais uma vez, a fala de Guttmann prevaleceu e o Milan foi campeão ao vencer pela vantagem mínima, gol de Rijkaard.

Nas décadas seguintes, o clube passou pela pior fase de sua história, tendo dificuldades financeiras e montando times pouco competitivos. Só no final da década de 2000 voltou a figurar em fases mais avançadas de competições europeias, até que na temporada 2012/2013 chegou à final da Liga Europa contra o Chelsea. O time vinha sedento, disposto a quebrar o tabu e a esquecer a derrota dolorida para o Porto no sábado anterior, nos acréscimos, que deixou os Encarnados longe do título português. Mas, mais uma vez, o Benfica foi traído pelo tempo adicional: com um gol de Ivanovic, aos 47 do segundo tempo, o Chelsea fazia 2×1 e conquistava a taça.

Foto: jornal A Bola - Desolação dos jogadores benfiquistas enquanto o Chelsea comemora o título da Europa League

Foto: jornal A Bola – Desolação dos jogadores benfiquistas enquanto o Chelsea comemora o título da Europa League

Um ano depois, novamente lá estava o clube Encarnado em uma decisão europeia. E era o ano da redenção de Jorge Jesus: após a perda traumática do campeonato nacional, veio um título português com sobras, com duas rodadas de antecedência e sempre levando vantagem nos confrontos diretos contra rivais. Para ficar completo, só faltava a quebra da maldição e o benfiquista estaria 100% de alma lavada. Mas quis o destino que mesmo uma grande temporada das Águias marcasse também mais um vice continental. Na final da Liga Europa, após um 0x0 tenso e disputado, o Benfica caía diante do Sevilla. E mais uma vez, o trauma se repetia.

Ao longo desses 52 anos, foram 8 finais continentais e 8 vices. Seis deles por um gol de diferença ou menos – quando a diferença de gols foi maior, houve prorrogação para deixar aquela sensação do “quase” no torcedor benfiquista. A cada final perdida, o fantasma de Béla Guttmann causa mais traumas e assusta ainda mais o clube português.

E você, Doente, acredita na Maldição de Guttmann ou acha que é apenas uma coincidência?

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Estudante de Jornalismo e redator no Placar UOL Esporte, belo-horizontino, apaixonado por esportes e Doente por Futebol. Chega ao ponto de assistir a jogos dos campeonatos mais diversos e até de partidas bem antigas, de décadas atrás.