As Festas do Divino

  • por Ordep Jose Trindade Serra
  • 6 Anos atrás

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Meus dois cunhados são palmeirenses fervorosos. O mais moço, Joel, aparenta maior intensidade nessa paixão, que transmitiu aos rebentos, embalados desde criancinhas com o hino do clube e valentes coros de periquitos. Até as mamadeiras eram enfeitadas com o escudo do time, ou com a Cruz de Savoia. O jovem André se tornou engenheiro florestal, cultor de Pindoramas, e a bela Isabel se fez vegetariana, só come coisas verdes. Sim, Joel caprichava. Seu mano mais velho, Cau, exercita um fervor tão intenso quanto o seu, porém menos dramático – e bem menos pedagógico. Sua atual serenidade resulta da educação plural que recebeu dos filhos: o sábio Marcos é torcedor do Santos, Cláudia curte o São Paulo (mas desposou um corintiano, o fabuloso afro-japa) e Andrea, a primogênita, apoia todos, ou seja, não liga para time nenhum.

A mui relativa serenidade do Cau às vezes incomoda seus correligionários inflamados. Me lembro de um episódio em que um deles o interpelou por conta de um pequeno mal-entendido. Foi justamente no casamento de Andrea com um simpático polonês, que acho parecido com Diego Tardelli, mas a Cau lembra Luis Pereira. O matrimônio foi celebrado duas vezes: primeiro na terra do noivo e pouco depois em São Paulo. A esta última cerimônia eu compareci. Foi uma linda festa, com um breve ritual religioso seguido de recepção, muitos comes e bebes, dança até de madrugada. Lá estava um amigo da família, todo elegante no seu terno verde. Logo vi que esse cavalheiro não era muito ecumênico: só conhecia o culto ao Palmeiras, do rito católico não entendia nada. Depois dos parabéns aos noivos, ele foi abraçar o Cau e não se conteve:

– Belo casal, ótima festa, quase tudo perfeito. Sua família é encantadora, poloneses inclusive. Mas esse padre não presta.

Cau ficou intrigado:

– Porque diz isso, meu amigo?

– Veja se não é muito desaforo: no casamento da filha de um palmeirense, o miserável inventa de ler uma carta do São Paulo ao Coríntians e fica o tempo todo falando em Santos. Por que você não convidou um rezador da Academia, um bom palestrino?

Martinelli ficou por um instante embaraçado, mas logo teve uma brilhante inspiração e retrucou:

– Você não ouviu o sermão direito. O sacerdote passou quase todo o tempo todo a exaltar o Divino.

O homem conformou-se. E meus leitores por certo já adivinharam em quem ele pensou. Pois é justamente desse craque maravilhoso que desejo falar hoje em minha crônica: do Divino Ademir da Guia.

Espero que a lembrança de suas proezas reconforte meus cunhados na presente circunstância, em que seu time se vê tão combalido. Eu sou santista, mas tenho clara recordação do deslumbramento que me causava a Academia nos seus tempos de glória. Só quem não ama o futebol pode negar admiração às prodigiosas equipes guiadas pelo consagrado Ademir. Tenho outro motivo: quero fazer um esconjuro. Levei um choque ao assistir a semifinal em que o Tijuana eliminou o clube do Parque Antártica: o bando de camisa verde lutava de forma descontrolada, desesperada, zonza, errática e sem tino. Ainda por cima, sofreu um castigo cruel da fatalidade. Com a falha do goleiro Bruno vi precipitar-se a Moira funesta contra os alviverdes. Terminado o suplício, comentei com os amigos:

– Gente, que frango!

E Jiló me corrigiu:

– Mais respeito, homem. Frango coisa nenhuma, aquilo foi coisa do outro mundo. Um pterodátilo, não vê? Vindo das profundezas, dos estratos jurássicos. E pilotado por algum demônio mexicorintiano.

Chico Teoria propôs:

– Vamos esquecer. Faz de conta que ninguém viu esse jogo. Não só a turma do Palmeiras, todos os amantes do futebol devem procurar na mente imagens que contradigam a visão sinistra. Um banho de sal grosso ajuda, mas só vamos curar-nos do pesadelo apelando a recordações geniais.

Eu segui o conselho do filósofo e apelei para a meditação. Assim que me concentrei, vi com a memória uma figura elegante a caminhar pelo campo com imperturbável serenidade. Seus longos passos comunicavam força, respiravam inteligência. Essa imagem logo enriqueceu minha lembrança de lances geniais, me trouxe de volta jogos esplêndidos. Foi então que decidi escrever sobre Ademir da Guia, o Divino Mestre. Mas agora me embaraça o tamanho do desafio: como poderei comunicar aos leitores que não o viram jogando o deslumbramento, a profunda gratidão estética desfrutada por quem teve essa experiência? Começo pela estranheza que seu desempenho suscitava à primeira vista nos espectadores menos perspicazes em matéria de futebol: ele parecia não se esforçar, poucas vezes corria, quase sempre andava pelo gramado com a sutileza de um bailarino budista. Mas era bastante prestar atenção ao jogo para dar-se conta de que esse plácido caminhante estava sempre no lugar certo, deflagrando os movimentos mais agudos de seu time. Às vezes o espectador tinha a impressão de que ele era ubíquo, de que podia aparecer em diferentes lugares ao mesmo tempo. Seu sereno vagar era um tremendo ludíbrio para os adversários.

Vou valer-me aqui do testemunho de dois grandes craques do meio campo brasileiro, que tiveram de enfrentá-lo e exprimiram sinceramente quanto isso lhes custava. Lembro-me bem de Rivelino, numa entrevista televisada, evocando o difícil que era jogar contra Ademir da Guia: uma pedreira, um trabalho duríssimo. E Clodoaldo declarou com simplicidade o que sentia quando enfrentava o Divino: uma fadiga medonha, pois tinha de correr como nunca. Aí está: o craque que aparentemente não se esforçava exigia o máximo esforço de adversários geniais. Com sua tranquila caminhada, dava canseira num Clodoaldo, com seus toques sutis, perturbava um Rivelino.

É pouco? Lembrem-se de como Gerson, um dos mais inteligentes meio-campistas de todos os tempos, qualifica Ademir: inteligência pura. Ademir da Guia deslizava no campo. Sua aparência lembrava uma cegonha, um grande pernalta, como o pássaro que os gregos associavam ao deus mais surpreendente do seu panteon, o intangível Hermes, que enganou até o sábio Apolo. Podem crer, amigos: o Guia hermético dos palestrinos era também um feiticeiro de cujos passos brotava a ilusão dos marcadores, um tecido aéreo a enredar os adversários. Lento na aparência, fazia-se veloz como poucos: parecia ter asas ocultas nos pés, que usava quando queria, ou seja, nos momentos decisivos. E de forma inesperada. Às vezes ele “voava” com elegância de garça. Tinha, porém, uma característica que me faz pensar em outra ave. Não sei se vocês já viram um gavião no seu ofício de caçador, planando levemente, em suaves círculos, com jeito de quem apenas se deleita no voo. Se viram, devem lembrar-se do modo como se conclui o bailado do pássaro: um mergulho fulminante, preciso, de que ele emerge com a presa entre as garras. Pois bem, Ademir da Guia frequentemente passava por uma estranha metamorfose: de garça cândida, ou cegonha hipnótica, de repente se transformava em gavião. Num relance, o toque sutil se convertia em tiro certeiro, violento, indefensável; o passeio displicente se tornava arrancada célere, de resultado fatal; o leve meneio do corpo encobria um passe decisivo que escancarava as portas do gol. Em times excelentes como foram as equipes do Palmeiras que passaram para a história como a Primeira e a Segunda Academia, ele era sempre o tecelão das melhores tramas, o mestre-sala impecável, o provedor do banquete, o dono da festa.

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Lembrem-se: na Primeira Academia (década de 1960) havia craques imortais como Djalma Santos, Julinho, Servílio, Vavá, Tupãzinho, Dudu. Na Segunda (década de 1970) brilharam Eurico, Luís Pereira, Leivinha, Edu Bala, Fedato e de novo Dudu – para lembrar só destaques de cada safra.

O Magnífico Reitor de ambas as Academias foi Ademir da Guia, que deixou a Segunda em 1976. Ele comandou um time fantástico, o único capaz de fazer frente ao inexcedível Santos de Pelé, e participou da fase subsequente em que o Palmeiras se firmou no zênite do nosso futebol: foi campeão brasileiro invicto e alcançou com todos os méritos o bicampeonato nacional.

Até hoje, só uma coisa me parece difícil de entender: porque esse jogador genial teve tão poucas oportunidades na Seleção. De qualquer modo, é inegável sua contribuição para o enriquecimento do futebol brasileiro. Sente-se feliz quem pôde assistir memoráveis jogos em que ele pontificou; sente-se agradecido pelo espetáculo mesmo quem saiu do estádio com seu time derrotado pela implacável grandeza dos acadêmicos. Têm eterna beleza as festas do Divino.

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Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).