Cláudio Taffarel, o Homem das Mãos Santas

  • por Lucas Amaral Nunes
  • 7 Anos atrás
O fracasso de Baggio e a glória de Taffarel

O fracasso de Baggio e a glória de Taffarel

“Vai que é sua, Cláudio”. Ele ouviu essa frase muito antes da Copa do Mundo de 1994, na qual se firmou como um dos melhores goleiros de todos os tempos, num período anterior até mesmo a se tornar apenas Taffarel. Primeiro, recebeu-a de um dos treinadores de base do Internacional. Ele se referia a uma das vagas para aqueles que seriam selecionados para atuar pelas divisões inferiores do time gaúcho. O rival tricolor o recusara por duas vezes, mas os profissionais do Colorado logo viram nele a estrela que se tornaria. Desde o início foi visto como um gênio, um promissor guarda-redes inconteste. Tanto é que, logo aos dezenove anos, ganhava uma chance de defender a meta colorada.

Quando pequeno, Cláudio costumava praticar várias modalidades esportivas, tornando-se assim um atleta perfeito. O vôlei lhe deu a impulsão e o tempo de bola, com o handebol vieram os reflexos e a natação lhe proporcionou a força necessária nas pernas e braços. Ao ingressar nos profissionais do Inter, levou, a fim de sustento, os dois irmãos para a capital, tão logo quanto amadureceu, aos 19 anos.

Logo foi destaque da equipe no Campeonato Brasileiro de 1986, mesmo ano em que recebia as primeiras convocações para a Seleção Brasileira. Um voo tão rápido quanto os que executava naquilo que se tornou sua especialidade: as decolagens em defesas de penalidade. O menino Cláudio de Crissiumal, oriundo de uma família humilde, se erguia como Taffarel, o legendário goleiro brasileiro de três Copas do Mundo.

O jovem, descendente de imigrantes italianos e alemães que vieram de navio, logo deixaria o país de avião. O destino, Seul, sede das Olimpíadas de 1988. Ali, conquistaria a medalha de prata junto ao selecionado brasileiro, e ampliaria o já adquirido caráter de ídolo nacional. Dois anos mais tarde, Taffarel honraria seus antepassados na primeira Copa do Mundo, na Itália. O Brasil seria eliminado pela Argentina de Maradona nas oitavas de final, mas já ali o goleiro canarinho demonstrava seus dotes futebolísticos.

Porém, sua maior glória viria quatro anos mais tarde, no mesmo torneio, dessa vez sediado nos Estados Unidos. A Seleção Brasileira havia vencido a última Copa do Mundo há 24 anos, em 1970, pouco tempo antes de um dos grandes narradores do país iniciar sua carreira, de modo que vinha de inúmeras frustrações guardadas na garganta. Com Galvão Bueno, surgiu o “Vai que é sua, Taffarel”, um dos jargões mais famigerados da televisão nacional, dessa vez dirigido não apenas aos ouvidos de Cláudio, mas aos de milhares de cidadãos que vibravam com suas defesas. Suas atuações sensacionais, juntamente com a fatalidade das jogadas da dupla Romário e Bebeto, trouxeram esperança ao povo brasileiro, que vislumbrou a oportunidade de novamente ser campeão.

Cláudio Taffarel a serviço da seleção

Cláudio Taffarel a serviço da seleção

O Brasil de Taffarel chegou à final. Novamente, a Itália de seus avós aparecia em seu trajeto, dessa vez como adversária. Em um dos jogos mais apreensivos de todas as Copas, o placar após o tempo normal e a prorrogação permanecia em um 0 a 0 imutável. A primeira cobrança seria executada pelo também lendário defensor Franco Baresi. De lados opostos, dois ícones que marcaram gerações em seus países. Ele bate por cima. A chama no coração dos brasileiros se ergue como um verdadeiro incêndio. Desolado, o capitão celeste, melhor em campo durante os 90 minutos, cai ao chão, sendo consolado por… Taffarel. Mesmo em mantos distintos, ali prevalecia a amizade e o caráter, característicos de ambos os ícones de suas equipes.

Na sequência, Pagliuca impediria a vantagem brasileira, ao defender o chute de Márcio Santos. Albertini, Romário, Evani, Branco. Todos marcaram, deixando as cobranças empatadas e aumentando a apreensão. Mas o Brasil tinha Taffarel. O goleiro defendeu a cobrança de Massaro e sussurrou palavras ao capitão Dunga, que bateria a seguir. Dessa vez, Pagliuca não pegou. A última cobrança coube a Roberto Baggio, a estrela do combinado italiano. Galvão Bueno pôde, finalmente, desprender o verbo agarrado há tantos anos na garganta. “É”. “É tetra!”. O letal atacante oscila diante da figura impávida de Taffarel e finaliza por cima.

Promovido a mito, glorificado com honrarias e títulos normalmente conquistados por camisas de numeração elevada, Taffarel tornou-se um dos maiores nomes do futebol brasileiro. A camisa verde número um passou a ser vista pelas ruas, ao lado das, mesmo antes, comuns amarelas com onzes, noves e dezes. O Homem das Mãos Santas, como viria a ficar conhecido, ainda teria uma carreira sólida pela Seleção até 1998, quando perdeu apenas na final para a França. Jogaria ainda por Reggiana (ITA), Atlético Mineiro, Galatasaray (TUR) e Parma (ITA). De menino prodígio a heroi nacional, Taffarel resolveu levar a sério as palavras de Galvão: agarrou sua vaga na história. Essa é sua, Taffarel!

Ao fim do jogo, Taffarel consola o último italiano a perder o pênalti

Ao fim do jogo, Taffarel consola o último italiano a perder o pênalti

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Lucas é jornalista desde 2011, mas o fanatismo pelo futebol o acompanha desde o berço. Aficionado por história, jogadores antigos e contemporâneos e causos e contos sobre o mais famoso esporte bretão. Participou de sites como o cruzeiro.org e o fanáticos por futebol. Atualmente atua como editor do futebol mineiro na Doentes por Futebol, onde também é o responsável pela coluna “Lendas do Futebol”.