Crônica de um sonho passado

  • por Leandro Lainetti
  • 8 Anos atrás

Os sonhos fazem parte da infância de qualquer torcedor. Imaginar, olhar o futebol pelo lado lúdico é sempre uma forma sadia de criar histórias e personagens próprios. Quando jogava bola nos paralelepípedos mal encaixados da minha rua, eu tabelava com os melhores jogadores, fazia os gols mais bonitos e a torcida gritava meu nome. Isso tudo brincando sozinho, com os balanços da pracinha ao lado a me observar.

Quantas vezes aquelas pedras não foram o gramado mais perfeito, no qual a bola rolava como uma mão deslizando por um lençol de seda? Quantas vezes fui Pelé, Ronaldo, Romário. Fui também Taffarel, Julio César, Rogério Ceni. A cada dia eu me transformava em um craque, fosse ele de qualquer posição. E, claro, jogava no Maracanã ou, como eu costumava chamar, no Maraca. As arquibancadas estavam sempre lotadas, eu era ídolo. Ídolo no Maraca. Que sonho. Assim como eu, quantos meninos não foram Ronaldo e Romário? Zico, Dinamite, Sócrates, Rivelino, Tostão, Reinaldo? Uma porção. Todos jogavam em seus campos mágicos. Mineirão, Morumbi, Pacaembu, estádios com nomes, com histórias e que, naquele momento, viam moleques de todo o Brasil desfilando pelos seus gramados, mesmo que só no imaginário.

Até as meninas podem sonhar em ser craques do futebol | Foto: Leandro Lainetti

Até as meninas podem sonhar em ser craques do futebol | Foto: Leandro Lainetti

Mas o tempo passou, eu cresci, os moleques do Brasil cresceram. Meus sonhos continuam, devaneios distantes de quem não conseguiu ser jogador de futebol e transformar aqueles lances que aconteciam na minha cabeça em realidade. Fomos substituídos, eu e os moleques. Nos nossos lugares entraram outros tantos com os mesmos golaços, dribles desconcertantes, passes magistrais, uma nova legião de craques.

O tempo passou de novo e essa segunda geração dará lugar a uma terceira. A diferença é que os novos sonhadores serão obrigados a jogar nos mesmos lugares, campos e gramados, sejam eles no norte ou no sul do país. Agora eles jogarão nas Arenas. Arena Maracanã. Arena Pantanal. Arena Fonte Nova. Arena Pernambuco. Arenas. Um termo cheio de formalidade que funcionará exatamente como o oposto. Quer coisa mais impessoal do que todos os estádios terem o mesmo nome? Arena isso, Arena aquilo. Pode parecer apenas uma questão de padronizar nomenclaturas, mas é bem mais do que isso.

Arena Fonte Nova, um dos símbolos da modernidade que acaba com sonhos | Foto: Reprodução

Arena Fonte Nova, um dos símbolos da modernidade que acaba com sonhos | Foto: Reprodução

É arrancar alguém do Maracanã, do Mineirão, do Morumbi, do Palestra Itália, de onde for, e colocá-los, todos juntos, em uma única Arena. Sonhos têm o espaço infinito e, assim, todos podem caber na mesma Arena. Mas imagine o quão chato é dividir o gramado, a torcida, os craques para fazer a tabela, com tantos outros jogadores como você?

Estádios não são Arenas, nem podem ser. Sonhos se contam, mas não podem ser divididos. Que cada menino, assim como eu, possa jogar onde quiser, e não junto com outros tantos milhares. Afinal, sonho bom não é na Arena Maracanã. É no meu Maraca, onde eu sou o único rei.

Comentários

Jornalista trabalhando com marketing, carioca, 28 anos. Antes de mais nada, não acredito em teorias da conspiração. Até que me provem o contrário, futebol é decidido dentro das quatro linhas. Mais futebol nacional do que internacional. Não vi Zico mas vi Romário, Zidane, Ronaldinho, Ronaldo. Vejo Messi e Cristiano Ronaldo. Totti é pai.