Futebol, belezas e pragas

  • por Ordep Jose Trindade Serra
  • 7 Anos atrás

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Sim, sou doente por futebol. Nem precisava dizer, minha participação neste espaço já o torna claro. É que me alegra confessar. A quem estranha essa alegria, faço um esclarecimento, peço que reflita. Mesmo os amantes mais felizes sabem que toda paixão dói seu tanto: não raro, os amorosos ficam “dolentes” (sentem-se doloridos), segundo podiam dizer os antigos romanos, usando a palavra que originou o nosso termo “doente”. Ainda assim, o apaixonado não quer curar-se. Eu por mim não lamento quem sofre dessa aflição, por mais alucinado que se mostre. Tenho pena mesmo é de quem nunca se apaixonou.

Ao contrário do que dizem, é o desamor que é cego, não o amor. Eros sonha com os olhos abertos e tudo vê. A loucura amorosa pode trazer-nos lucidez. Mas para tanto temos de merecê-la, cuidando bem do sentimento. Quem trata mal sua paixão, com ela embrutece.

O doente por futebol, o apaixonado que se preza e dá bons tratos à bola nada tem de tolo. Cultiva a inteligência admirando a beleza do jogo. Faz desatinos, sim. Às vezes fica desvairado. Com frequencia delira. No entanto, nunca faz papel de besta: como legítimo amoroso que a beleza comove, detesta a brutalidade. Em vez de maluquice tem boa loucura. (Como veem, a própria língua que falamos, dona de antiga sabedoria, faz essa distinção sutil, subliminar: “maluquice” vem de “má louquice”, o que supõe a existência da loucura boa. E Platão já falava de delírios divinos).

Bom, agora chega de digressão, percebo que os leitores já estão reclamando. Direi logo onde quero chegar: os doentes por futebol não podem ser confundidos com as bestas que atrapalham o mundo da bola, maltratam com sua torpeza a bola do mundo. Nada temos a ver com hooligans e assemelhados, com fanáticos obtusos, sem amor e sem humor. O hoolligan é um mero imbecil. Não se interessa realmente por futebol, apenas faz do futebol um pretexto para extravasar sua bestialidade.

Num pequeno livro que recomendo muito (A violência no futebol, publicado pela Editora Saraiva, de São Paulo, em 2012), o professor Maurício Murad trata deste assunto com base em sólida pesquisa efetuada nos anos 2009-2010 por equipes da UERJ e do Mestrado da Universidade Salgado de Oliveira. Essa importante pesquisa mostrou que os baderneiros, protagonistas de atos violentos acostumados a criar tumulto nos estádios e em seu entorno, por ocasião de grandes jogos de futebol, são minoria da minoria, fração muito reduzida no universo dos torcedores: somam cerca de 5% a 7% do contingente das torcidas organizadas, em que eles se infiltram.

Foto: capa do livro "A Violência no Futebol" de Mauricio Murad

Foto: detalhe da capa do livro “A Violência no Futebol” de Mauricio Murad

Vejam bem: minoria de minoria. 

Como observa ainda o professor Murad (à página 32 do referido livro), esses bagunceiros infiltrados “nem mesmo gostam de futebol”: são motivados pelo desejo brutal de violência, pelo gosto do ultraje e pelo arreganho da covardia. Geralmente são jovens desocupados que dispõem de recursos virtuais e conhecem as técnicas necessárias para a manipulação de sites de relacionamento: utilizam o Orkut, por exemplo, para provocar seus rivais e combinar embates. Em suma são doentes por confusão e porrada. Organizam-se de forma paramilitar e treinam artes marciais, geralmente em academias clandestinas. Sua glória máxima é figurar no noticiário policial.

Estudos realizados no Rio de Janeiro, em São Paulo, na Bahia e em outros estados já mostraram que esses grupos violentos infiltrados nas torcidas procedem de facções do crime organizado, que buscam fortalecer com a penetração insidiosa na massa futebolística. O consumo excessivo de álcool e de drogas ilícitas os estimula e favorece suas práticas bárbaras. A conexão entre esses segmentos e as organizações criminosas é bem conhecida, mas até agora não foi objeto de medidas sérias por parte das nossas autoridades, que se limitam à repressão direta nos confrontos, não se empenham em preveni-los com ações de inteligência, mostram-se lenientes e omissas em face dos distúrbios repetidos, sistemáticos.

Dá-se que no Brasil segurança pública e educação não são – nunca foram – verdadeiras prioridades para os governantes. Muito pelo contrário. Tal como sucede com a saúde pública, constituem prioridades retóricas, afirmadas só nos palanques. Isso explica porque o hooliganismo prospera aqui. Já ultrapassamos Itália e Argentina no particular: somos hoje o país em que mais ocorrem distúrbios graves dessa ordem, o país que contabiliza o maior número de mortes em decorrência de semelhantes tumultos, nada esportivos.

Ora, uma coisa é certa: o hooliganismo PODE ser controlado. Será vencido sempre que houver vontade política, trabalho sério e competente. Na Inglaterra, onde grassou com um ímpeto sinistro, ele foi debelado. Aqui essa praga se sustenta e prospera graças poderosos estímulos: somos o quarto país mais violento do mundo, municiamos o crime com impunidade e corrupção.

Na Europa, não foi só o governo inglês que se empenhou de maneira ferrenha em acabar com o hooliganismo: outros países do continente encararam o problema com seriedade e a UEFA adotou medidas severas. Houve forte reação coletiva ao descalabro, à altura do quadro calamitoso que se desenhava. Aqui estamos muito longe disso. A única preocupação de nossos governantes é conter as manifestações dos baderneiros durante os dois grandes torneios que em breve terão lugar em nossa terra: a Copa das Confederações e a Copa do Mundo. Segundo se proclama, nossas autoridades não querem que justo nesses momentos de espetáculo global se difunda uma imagem negativa do país. Claro: isso danificaria a imagem deles, dos mandatários. Aí está a única coisa que os incomoda de fato.

Quanto à turma da CBF, nem isso os abala. Afinal, que imagem tem Marin? Danificar o que mesmo? O perfil moral dele não pode ser piorado. Nossos governantes o desprezam, com toda a razão. Aí está um fato curioso que a turma do Olé bem poderia explorar (A propósito, curto o Olé e a guerrinha de gozação que frequentemente nos movem os caros hermanos de La Plata: é muito divertida. E sabemos retribuir, não é mesmo?). Anotem, hermanitos: o presidente da Confederação Brasileira de Futebol foi posto para escanteio. No que toca a decisões sobre a Copa do Mundo a realizar-se no Brasil, nem os gandulas o levam a sério. Nossos governantes sequer o enxergam.

Está errado: as autoridades do governo brasileiro não deviam ignorar de todo o ilustre despresidente, digno sucessor do fugitivo Ricardo Teixeira. A Justiça e a Comissão da Verdade bem que o podiam convocar.

Foto: Mowa Press / Divulgação

José Marin | Foto: Mowa Press / Divulgação

Por certo não somos o único país onde o futebol se acha entregue a cartolas infames. A máfia que assola o esporte espalha seus tentáculos por todo o globo. E a Fifa dá o tom, com sua politicagem sórdida. Infelizmente, com destaque de brasileiros no que ela tem de pior. Todos se lembram de que o ex-presidente dessa entidade, João Havelange, e seu genro Ricardo Teixeira – ex-presidente da CBF – foram ambos condenados por um tribunal suíço por receber da extinta ISL (administradora dos contratos de marketing da Fifa), propinas no valor de 22 milhões, entre 1992 e 2000. O digno sucessor de Havelange, Joseph Blatter, ontem seu benjamin, hoje seu desafeto, lembrou-se de criar uma Corte de Ética na Fifa. Essa corte abriu um inquérito com base no qual Havelange e Teixeira foram condenados.

Não, nenhum dos dois foi punido. Talvez não o sejam nunca, nem pelos fifós nem pelos suiços. Alega-se que na Suíça, na época, receber propinas não era tipificado como crime. Que isso é safadeza, todo o mundo já sabia, mas a Suíça parece ter dificuldade histórica em associar desonestidade a crime.

Houve, é claro, o castigo moral. A Fifa deu ampla divulgação à notícia infamante. Que mais podia fazer? Ela tampouco tinha comissão de ética no passado, aliás por falta de ética mesmo. Isso por lá continua raro (Blatter, lembrem-se, foi aprendiz de Havelange), mas pelo menos tem hoje uma Corte, coisa chique.

A dupla infame sofreu só na imagem. Sofrimento pouco, visto como a sensibilidade moral dos dois não é grande coisa. Eles gozam tranquilos o fruto da rapina. Teixeira renunciou a um cargo executivo que tinha na Fifa e João Havelange deixou de ser seu presidente de honra. Renunciou perante a certeza da condenação, bem ao estilo Renan Calheiros. A esperada renúncia viu-se logo aceita, mas uma solução melhor fora possível: o certo seria designá-lo, a Havelange, Presidente de Desonra da Fifa. Teixeira, por sua vez, faz jus ao título de Condestável da Falta de Ética da Fifa e da CBF. O problema é Marin ficar enciumado.

Em nossa terra o futebol é com frequencia prejudicado pela brutalidade de falsos torcedores e vítima constante de refinadas raposas de colarinho branco. Essas duas pragas parecem relacionar-se de diferentes formas. Abusos de cartolas de vez em quando provocam revoltas em que torcedores indignados se deixam levar por hooligans profissionais e agem de maneira insensata. A revolta muitas vezes é legítima, embora dê lugar a procedimentos condenáveis, equivocados. O cabeça-quente é induzido ao vandalismo pelo companheiro criminoso e julga que assim ajuda a consertar as coisas.

Isso aconteceu recentemente aqui na Boa-Terra. O Esporte Clube Bahia tem uma bela história. Arrancou um título nacional das mãos do poderoso Santos de Pelé e repetiu a façanha anos mais tarde, derrotando o Inter, de modo que foi por duas vezes campeão brasileiro. Ganhou duas Copas do Nordeste e tem quarenta e quatro títulos estaduais. Já disputou a Libertadores e já fez bonito em excursão pela Europa. Tem uma torcida ardorosa e fiel. Mas tem tido diretorias infames que não o respeitam. Ultimamente tornou-se um feudo, uma capitania hereditária, passando do contestado Marcelo Guimarães a seu digno filho.

Este último procura superar o pai em tudo quanto há de prática nociva ao clube e à sociedade. Ele tem muito a ver com as derrotas acachapantes sofridas pelo Bahia. Protestos contra sua desastrosa gestão se justificam. Os torcedores que o puseram à venda no site Mercado Livre por R$ 1,00 só erraram na atribuição de um preço excessivo. Mas esses pelo menos agiram com bom humor. Outros erraram no método. Os caxiroleiros deram vexame: vocês se lembram, na derrota de 5 x 1 para o Vitória, os torcedores indignados do Baêa, como o clube é amorosamente chamado, fizeram chover cachirolas no campo, tentando atingir os jogadores – os menos culpados pelo vexame. Recentemente, em nova derrota para o mesmo Vitória, dessa vez por 7 x 3, teve uma turma que exagerou: invadiu a sede do clube e promoveu um rápido quebra-quebra. Deram trabalho à polícia. Não é por aí que se pode melhorar o time, purificar o clube. Outros torcedores agiram com mais sabedoria. Marcelo Guimarães Filho e Paulo Angioni (Diretor de Futebol) foram alvo de uma denúncia-crime protocolada em Brasília pelos advogados Antonio Rodrigues Machado e Marcus Tonae Silva, indicando-os como protagonistas de possíveis crimes de lavagem de dinheiro, estelionato e formação de quadrilha. Temos de torcer para que tudo se apure e também para que se façam mudanças democratizantes no estatuto do clube baiano, de modo a permitir a eleição de uma diretoria capaz, séria, interessada em futebol.

O descalabro do Bahia, um time de massa arruinado e humilhado, não é, infelizmente, uma exceção no Brasil. Apesar de sua grande beleza, o futebol brasileiro anda infestado por pragas das piores. É contra elas que temos de lutar.

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Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).