Futebol e Imaginação

  • por Ordep Jose Trindade Serra
  • 7 Anos atrás

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Na última quarta-feira de abril deste ano de 2013, tive séria dificuldade para dormir. Sentia meu pensamento embaçado, muita cinza nas ideias, uma espécie de enjoo nos olhos. Mas conheço o remédio certo para isso. Tranquei-me no escritório, escutei a Missa em Dó Maior de Mozart, peguei um bom livro e comecei a ler. As páginas trágicas, porém luminosas, da Teoria Geral do Esquecimento me envolveram com sua beleza. Na manhã seguinte, eu já nem me lembrava da aflição noturna, muito menos de sua causa. A lembrança retornou por volta das dez, no café de uma livraria de um shopping que fica perto de minha casa. É que lá encontrei dois amigos acabrunhados. Eles ainda estavam mergulhados no poço azedo de que Mozart e Agualusa me livraram. Suas caras de coruja depenada, com uma fúnebre expressão de gia agonizante, logo me trouxeram a recordação indesejável de um jogo muito feio. Por sorte, eu já tinha esconjurado o sentimento ruim, a náusea estética. Mas concordei quando eles me disseram que tinham visto uma calamidade: dois times descerebrados a correr de forma errática, sem qualquer vislumbre de inteligência ou imaginação, num tenebroso festival de falhas. O amigo que chamo de Jiló declarou com amargura: 

– Nunca vi tantos passes errados na minha vida, tanto desacerto técnico e tático, tamanha desarmonia como nessa maldita partida. Em campos de várzea, já assisti a peladas mais interessantes. Porém o que mais me impressionou foi a incompetência dos chilenos: qualquer equipe de segunda arrasaria facilmente o timeco de amarelo. Só hoje encontrei sua justificativa: a seleção lá deles não estava completa. Faltavam muitos titulares. Creio que botaram no lugar dos faltosos a turma da cozinha, o massagista, o roupeiro… 

Ousei retrucar que a nossa seleção também não era a verdadeira, foi só um teste com possíveis candidatos a integrá-la. Mas meu outro amigo, o Paciência, cortou logo:

– Belo teste! Se era para valer, todos foram reprovados. Inclusive os já escalados na seleção que você chama de verdadeira, mas eu pessoalmente acho danada de mentirosa.

Eu pedi calma ao Paciência e perguntei pela saúde dos amigos, pois só então notei que estavam tomando Alka-Seltzer em vez de café. No entretempo, veio a nosso encontro uma amiga em comum que nos deixou preocupados. Ela parecia aflita por motivo que também se relacionava com a medonha partida. Arranquei-lhe das mãos o Tratado do Desespero e aconselhei: 

– Deixe essa leitura pra outro dia, menina. É uma obra genial, eu concordo, mas imprópria para o momento. Procure alguma coisa que melhore seu humor. Não fique abatida. Você é jovem e bonita, sadia, recém-casada, com certeza vai superar o trauma. Lembre-se, foi só um joguinho.

– Só um joguinho não seria problema. Essa porcaria está afetando meu casamento. Meu marido é doente por futebol, que nem vocês. Ultimamente, quando tem jogo da seleção ele fica num estado lamentável. Não era assim, eu juro. Desde que nos conhecemos, foram muitas as partidas que assistiu, sozinho ou comigo, tanto no estádio como pela tevê. Eu nunca tinha do que me queixar. Quando seu time ganhava, era uma festa; até nas derrotas, a gente curtia, compensando a tristeza com uma folia erótica. Agora, a seleção o deixa sempre… Como direi? Amorosamente imprestável. Pensei que a goleada na Bolívia ia render uma noite gloriosa, mas sequer teve o segundo tempo. E ontem nem o Viagra funcionou. Para um homem de vinte e sete anos… 

– Pegue leve, garota! – Paciência ponderou: – Tem nada não, isso é coisa passageira. Não cobre tanto o rapaz, vá com calma, nem toda noite é de festa. Enquanto o Felipão não acerta, tome umas duchas e pense em outras coisas, tenha fé em Deus. 

Jiló recomendou terapia de casal:

– Vocês dois não podem continuar assim, dependendo do Neymar para sua vida amorosa.

– Vocês não estão me entendendo! – protestou a jovem. – Não tem nada de cobrança, eu amo meu marido e fico preocupada com ele, é isso. Dá-se que ontem a miséria foi grande. Ele não conseguiu dormir e, já de madrugada, quando pegou no sono, teve um pesadelo horroroso: sonhou que eu o traía com um argentino. No que me contou a porcaria do sonho, eu me ofendi, fiquei muito zangada, tivemos uma briga feia. Hoje de manhã, ele saiu sem despedir-se, pela primeira vez não tomamos juntos o café. 

A conversa estava nesse pé quando chegou sorrindo o Chico Teoria, irmão gêmeo de Jiló, de temperamento oposto. Ele confortou a jovem senhora:

– Parabéns, querida! Briga de recém-casados é uma glória, acaba logo e tem um rendimento maravilhoso. Você vai ver. 

Dito e certo: quase na mesma hora tocou o celular da moça. Era o marido. Não ouvimos muito da conversa melodiosa, pois logo ela se afastou discretamente, toda risonha. Acenou para nós, jogou um beijo para o Chico Teoria e sumiu numa nuvem de sonhos. Chico encheu-se de autoridade:

– Estão vendo? Chega de De profundis. Vocês estavam no caminho errado, lendo a partida com olhos tortos, por pura ignorância. Sua incapacidade teórica afetou até o conhecimento das coisas do amor. Três homens idosos e inexperientes, que coisa! Aposto que, em vez de ajudar, desorientaram a pobre garota.

Jiló atalhou, irado:

– Ignorantes? Inexperientes? Diga lá, Poço de Sabedoria: foi por acaso uma bela partida essa da qual a gente estava falando? Foi por nos ouvir que o marido dela brochou na noite fatídica de ontem? Você tem coragem de defender, de glorificar aquele arremedo de futebol? 

– A partida não foi das melhores, concedo. Mas vocês só enxergam a superfície da coisas. Não perceberam o que se passou no vestiário, pouco antes do jogo. 

– Nem nós nem você, que também assistiu pela televisão, não teve acesso a vestiário nenhum. Eu vi o desastre a seu lado, em sua casa, e me lembro de que você tampouco estava satisfeito, por sinal, não deixou minha cunhada assistir ao segundo tempo.

– Não deixei porque ela está grávida de sete meses. Não quero meu filho exposto à influência negativa de jogos fracos. Minha preta nem devia ter assistido o primeiro tempo. Foi uma temeridade. A compreensão do feto ainda é limitada, que nem a de vocês. Ele podia ficar mal impressionado. Eu, porém, tive acesso à conversa dos bastidores graças a meu dom de mediunidade lógica. Por isso, entendi o que vocês nem de longe perceberam. 

Jiló aproximou da têmpora o dedo indicador e o fez girar num gesto significativo, enquanto Paciência e eu pedíamos a Chico que nos revelasse o que captou com sua extraordinária intuição.

É simples. Felipão, grande estrategista, pediu a seus pupilos que desembestassem, isso é, que gastassem todo o seu potencial de besteira naquele jogo. Foi para isso mesmo que o programou. Para gasto de ruindade. Todos, inclusive os melhores craques, têm seus momentos de perna-de-pau, pois ninguém é tão lúcido que não faça na vida alguma bobagem. Sim, podem crer: mesmo bons jogadores trazem junto com o talento o que chamo de potencial de besteira – no seu caso muito reduzido, porém efetivo. Pensem em Cerezo e na tragédia do Sarriá. Se Telê tivesse tido a mesma previdência do Felipão, recomendaria a seus craques um desembestamento e, com isso, a gente não perderia aquele jogo. 

– Sua tese é interessante – admiti.

– Mas, nesse caso, – ponderou Paciência – Felipão deve ter combinado com o treinador chileno. O time do Chile não é tão ruim como ontem se apresentou.

– Tem razão. Foi de comum acordo – sentenciou Chico -. Jogo de compadres, entendem? Convenhamos que ambos os times seguiram à risca a orientação dos técnicos. Do nosso lado, que eu me lembre, somente o Pato teve um deslize, fez uma jogada bonita. Com certeza, foi censurado. E, do lado chileno, Vargas também errou, aquele gol foi um pecado. Garanto que o pobre camarada levou um puxão de orelhas. 

Nessa altura, o pessoal das mesas próximas entrou na conversa, de modo que a tese de Chico passou a ser discutida em todo o café. No calor do debate, algumas xícaras foram derramadas, teve gente engasgando com o capuccino e eu dei graças a Deus que a conversa não era num boteco, sabe-se lá como evoluiria o debate se fosse regado a pinga, com os argumentos temperados em espuma de cerveja. A fim de atenuar a zoeira, botei o assunto em votação:

– Quem concorda com Chico Teoria, por favor, levante a mão.

Para minha surpresa (e indignação de Jiló) a hipótese de nosso filósofo triunfou: foi aprovada por boa margem de votos. Eu aproveitei o clima de assembleia e expus minha tese fundamental: sustentei que o mais importante no futebol é a imaginação, como provam os atletas criativos. Houve quase unanimidade, apenas um cético objetou que, se fosse assim, não precisaria de bola nem campo, cada um sonharia sua partida e ficaria tudo por isso mesmo. Condenei esse solipsismo, dizendo que a imaginação não prescinde do real, apenas vai além dele e, na volta, o enriquece, com uma lucidez que transcende a percepção. 

– Transcende a percepção? De que modo? Dê um exemplo. 

Eu aceitei o desafio:

– Não preciso ir muito longe. O exemplo que dou é de dois cavalheiros de nossa terra, os mais extraordinários torcedores que conheço. Um deles torce pelo Bahia, o outro pelo Vitória. Um é cego, o outro surdo. Eles são amigos, vão juntos ao estádio e curtem o jogo, cada qual em sua ala. Curtem de verdade. O cego maravilha-se, o surdo canta e aplaude, sentindo a inefável música da partida. Ninguém desfruta melhor o jogo do que eles dois.

Jiló balançou a cabeça com ar severo:
– Meu caro, a gente sabe que você é ficcionista, mas vamos devagar, tudo tem limite. 

Eu protestei:

– Não se trata de ficção, é a pura verdade. Se não acreditam, vejam o documentário “Futebol além dos Sentidos”, de Priscilla Andreata e Luciana Queiroz, um curta-metragem maravilhoso, que mostra os dois magníficos torcedores num Ba-Vi. O projeto de que resultou esse filme foi vencedor de um edital da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, iniciativa do IRDEB – Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia. A narrativa fílmica é permeada por imagens e escuridão, sons e silêncio. O resultado é uma pequena obra-prima.

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Por sorte, um casal que merendava numa mesa próxima já tinha visto o filme e confirmou o que eu dizia, jurando por todos santos. Demorou um pouco, mas afinal ficaram todos convencidos. Chico Teoria se entusiasmou:

– Meu caro professor, como adepto de sua tese, vou lançar uma proposta: façamos aqui um abaixo assinado dirigido à CBF pedindo que esses dois heróis sejam incorporados à Comissão Técnica do nosso selecionado.

A proposta foi rejeitada, mas a assembleia do café encontrou um substitutivo: propôs um voto de louvor aos torcedores eméritos e me encarregou de tornar pública essa homenagem. Cumpro aqui a missão.

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Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).