Manoel Francisco, “Mané Garrincha”

  • por Lucas Amaral Nunes
  • 8 Anos atrás
O irreverente Mané, amigo do povo e frequentador de bares

O irreverente Mané, amigo do povo e frequentador de bares

Depois da Copa do Mundo de 1962, no Chile, Garrincha virou celebridade mundial. Era o seu segundo triunfo na competição e neste se tornara o melhor jogador do torneio. Cumprindo uma promessa que fizera, ele iria disputar um jogo festivo, em uma cidade pequena no Rio de Janeiro. Os organizadores armaram uma festança para a participação do ilustre jogador, com carreatas, foguetes, premiações, banda e uma multidão agitada aclamando seu nome.

No entanto, Mané não compareceu. Pelo menos no horário marcado. Enquanto isso, em um dos bares da cidade, uma aglomeração se formava. Preocupado, um dos empregados foi incumbido de verificar o que acontecia por lá.

Voltou sorridente, para tranquilidade do patrão desconfiado.

– Pode ficar tranquilo, doutor. Tem um cara lá no bar, bebendo com os peões. Mas não é o craque que vocês esperam, não. Esse veio no caminhão dos pedreiros, e tá só bebendo pinga e comendo torresmo com a moçada.

Nilton Santos e Mané Garrincha, estrelas do Botafogo e da Seleção

Nilton Santos e Mané Garrincha, estrelas do Botafogo e da Seleção

Embora haja grande dificuldade em diferenciar lendas e fatos acerca de Mané, essa história relata perfeitamente o quão modesto era o material que compunha o melhor jogador do mundo. Um homem humilde, amigo do povo, apreciador de botecos e da boa e velha cachaça brasileira. Justamente aquilo que o tornara irreverente viria a ser, um dia, o pivô de sua perdição.

Mas antes, nasceu o menino Manoel Francisco dos Santos, no município de Pau Grande, Magé, em 1933. O lugarejo não tinha cartório, nem um teatro, não tinha estádio, farmácia e nem trem. Toda doença era cuidada a base do cachimbo. Filho de pais simples, mas com fartura de irmãos: ao todo, compartilhava a mesa de jantar com quatorze irmãos, embora fosse o quarto mais velho. Um matuto, criado e crescido às portas da miséria. Ali mesmo viraria Garrincha, um pássaro de pernas finas muito popular na região.

A família era unida, sim. Mas a aura da tragédia sempre esteve junto à família dos Santos. Seu Amaro, o pai, morreu de cirrose. Mané perdeu dois irmãos e um sobrinho, ainda jovens, como era comum às crianças no submundo de Pau Grande. Nesse mesmo ambiente marginal, arranjou o primeiro emprego, empurrando carrinhos de mão. Logo, começou a atuar pelo time local, uma equipe amadora da fábrica na qual trabalhava. O primeiro grande golpe viria a seguir.

As pernas arqueadas, para a medicida, o impediriam de jogar futebol

As pernas arqueadas, para a medicina, o impediriam de jogar futebol

“Não”, diziam os médicos, “você não pode jogar bola”. Magrelo, miúdo, fumante e perneta, Mané não tinha exatamente o visual que se esperava de um promissor jogador de dezessete anos. “Sim”, dizia ele para os médicos e às condições impostas pela vida. Poucos diriam que este cabo de guerra entre a teimosia e a consciência resultaria em um dos maiores gênios da história do futebol. E, assim, tentou ingressar nas categorias de base do Flamengo, Fluminense e Vasco, sem nenhum sucesso. Os outros problemas até poderiam ser ignorados, mas uma distrofia brutal de seis centímetros de uma perna para a outra, o que impediria alguns homens até de andar, não. E o arco que formava um grau em ambas as pernas era perceptível, pra não dizer notório. Alguns diriam que era duplamente canhoto e, portanto, impossível se tornar jogador. Garrincha não fazia sentido, e nem precisava fazer.

Aos dezenove, entretanto, recebeu uma chance no Botafogo. Os dribles de Mané eram circenses. Uma finta era capaz de deixar dois, três jogadores ao chão. Mané dava um passo para um lado, ao passo em que o adversário, confundido, dava dois para o outro. Dava aos pés a perícia de um malabarista. Entre aqueles que o observavam de um ângulo reto estava ninguém menos que Nilton Santos, uma estrela do selecionado brasileiro, que logo pedira sua contratação. “Eu não queria ter que enfrenta-lo de novo”, viria a declarar algumas décadas depois.

Assim, o clube alvi-negro o contratou em 1953, mesmo com a garantia dos ortopedistas de que o craque teria prazo de validade. Dois anos mais tarde, já exibiria o seu futebol moleque, divertido e que inspirava cronistas na seleção brasileira. Irreverente, Mané colocava os adversários em situação de uma desordem quase cômica, o que dava ao espetáculo do futebol a junção perfeita entre diversão e competividade. Em 1958, na Suécia, traria o primeiro caneco brasileiro da Copa do Mundo, ao lado de Didi, Vavá, Zagallo e um até então menino Pelé. Quatro anos depois, repetiria o feito, dessa vez sem a contribuição do futuro rei do futebol, lesionado. “De que planeta veio Garrincha?”, estampavam jornais chilenos à época.

Garrincha e Pelé: nunca perderam jogando juntos

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Em 1966, o Brasil seria eliminado precocemente da seleção, embora a lenda de Garrincha já estivesse estabelecida e encantado aos grandes poetas do país. A “Alegria do Povo”, como ficou conhecido. O “Anjo das Pernas Tortas”, definiria Vinícius de Moraes. “Passarinho”, utilizara Nelson Rodrigues. Carlos Drummond de Andrade explicava Garrincha como um “Deus irônico e farsante, incumbido de zombar de tudo e de todos nos estádios”. Sobre seus dribles em espaço curto, “Mané dá a um guardanapo dimensões de um latifúndio”, escreveria Armando Nogueira. Outros o chamariam de “O Rei dos Reis”, “O Manco Maestro”, “Maior de Todos os Tempos”. Sim, há aqueles que o considerem maior do que o rei Pelé, com quem, junto em campo, jamais perderia uma única partida em mais de oito anos.

Porém, quis o destino que tomassem rumos divergentes na carreira. Enquanto Pelé entrava em seu auge da performance física, Mané era visto aos tropeções em vielas e bares, com o alcoolismo a consumi-lo. Jogou na Colômbia, Uruguai, Argentina e Itália, sem o mesmo sucesso, onde comumente era visto com diferentes mulheres e frequentemente faltava a treinos e jogos. Uma figura outrora fascinante se tornara motivo de compaixão e até desprezo. Daí pra frente, tornaria-se folclore. Internações, tentativas de suicídio, acidentes de automóvel, agressões. Esquecido, morreria em 1983, aos 49 anos. Garrincha, o pai, deixaria quatorze filhos de seis esposas diferentes.

Mané exibia lances plásticos que deixavam tontos os adversários

Mané exibia lances plásticos que deixavam tontos os adversários


Não existiria outro alguém como Mané. A técnica, velocidade, o regozijo com o qual se apresentava em campo. O Brasil não teria outro craque à altura, capaz de fazer festejar nos mais simplórios dribles e fintas. Outros dribladores natos surgiriam, mas nenhum tão efetivo ou tão brasileiro quanto Mané. Como descrito em sua lápide, com o perdão do trocadilho: Foi-se com Mané a alegria do povo.

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Lucas é jornalista desde 2011, mas o fanatismo pelo futebol o acompanha desde o berço. Aficionado por história, jogadores antigos e contemporâneos e causos e contos sobre o mais famoso esporte bretão. Participou de sites como o cruzeiro.org e o fanáticos por futebol. Atualmente atua como editor do futebol mineiro na Doentes por Futebol, onde também é o responsável pela coluna “Lendas do Futebol”.