Aldo Rebelo recebe blogueiros e defende futebol para o povo

Foto: Diego Garcia.

O Ministro Aldo Rebelo recebeu o DPF e outros dez blogs e sites. Foto: Diego Garcia.

Cerca de dez sites e blogs estiveram, hoje pela manhã, escrevendo um capítulo importante da história do jornalismo esportivo brasileiro. Pela primeira vez, o Ministério dos Esportes recebeu veículos de mídia independentes num evento em que o Ministro Aldo Rebelo esteve aberto para conversar e responder perguntas sobre a organização da Copa das Confederações e do Mundial. Era esse o foco do encontro, que irresistivelmente terminou rendendo discussões sobre vários outros temas contingentes aos problemas do futebol brasileiro.

Pontualmente, o Ministro chegou ao auditório da FSB Comunicações tentando descontrair o ambiente: “espero que o time de vocês tenha vencido no final de semana”, brincou. Seu semblante deixava transparecer tanto a satisfação pela vitória apertada de seu Palmeiras, quanto a tranquilidade de um político experiente e pronto para ser sabatinado por jornalistas que, assim como nós do DPF, trabalham por amor ao futebol e não precisam medir palavras ou seguir orientações editoriais.

Após uma rápida apresentação de cada um dos sites presentes, teve início a rodada de perguntas. E a primeira delas foi contundente: uma colega perguntou sobre os gastos do país na organização do Mundial. O ministro respondeu com uma ironia, afirmando que “se fosse para economizar, faríamos uma Copa apenas no estado de São Paulo”. De fato, por trás de tantos gastos desenfreados, concessões políticas e eventuais desvios no meio do caminho, há algo de razoável nesse raciocínio, já que a Copa é um evento brasileiro e não podia ficar restrito às regiões mais ricas do país. Levar o Mundial a cidades como Manaus e Cuiabá é também integrar, ao desenvolvimento nacional, regiões ainda alheias a este processo.

O Ministro ironizou a crítica à quantidade de sedes da Copa de 2014. Foto: Pedro Galindo.

O Ministro ironizou a crítica à quantidade de sedes da Copa de 2014. Foto: Pedro Galindo.

As arenas da Amazônia e do Pantanal são as duas principais representantes de uma categoria que se convencionou chamar de “elefantes brancos” da Copa de 2014. Ao lado do recém-inaugurado Estádio do Gama, em Brasília, os dois têm sido alvo de muita preocupação por parte da opinião pública (e crítica), já que se situam em praças onde o futebol não é tão popular. Em relação ao (ex-)Mané Garrincha, o Ministro garantiu que o estádio não fará parte desse seleto grupo de obras sem utilidade: “não creio que ele tenha vocação para elefante branco; eu sempre cito o exemplo de Wembley, que é um estádio com esse conceito de ‘monumento ao futebol’. Nele, acontecem de oito a dez jogos por ano. Wembley vive de eventos”.

O discurso cabe bem ao estádio da capital federal: em uma cidade dona de uma das maiores rendas per capita do país, é certo que uma arena com alto potencial de receber os mais diversos eventos dificilmente virará um espaço abandonado. Com a inauguração da Arena, Brasília entrará definitivamente na rota dos grandes eventos internacionais. Quanto às tardes de domingo, estas raramente passarão de alguns poucos momentos de futebol pobre e arquibancadas vazias. O mesmo não se pode dizer da Arena do Pantanal, em Cuiabá: em um estado com pouquíssima tradição no futebol e que tampouco costuma receber eventos de grande porte, a tendência é que a Arena fique mesmo abandonada às moscas. A não ser que alguma revolução se insurja dentro do futebol mato-grossense – algo que hoje parece bastante improvável.

Arena Pantanal, ainda em obras, corre sério risco de ser representante máxima da categoria "elefantes brancos".

Arena Pantanal, ainda em obras, corre sério risco de ser representante máxima da categoria “elefantes brancos”.

A esperança do Governo, não só em relação ao Verdão de Cuiabá mas também quanto ao Vivaldão e outras arenas, é a existência de projetos urbanísticos elaborados e pensados em função dos estádios: a ideia é que, como no exemplo citado pelo Ministro da Arena Pernambuco, eles sirvam como novos polos de desenvolvimento para as economias locais. O novo estádio do Náutico é emblemático: fica numa região ainda pouco habitada, mas que em breve receberá um porto, um aeroporto, um estaleiro e uma refinaria, além de uma fábrica de uma grande montadora de carros. Nos arredores da Arena, será construída a Cidade da Copa, um polo urbanístico que certamente será explorado com voracidade por incorporadoras e imobiliárias. O caso do Castelão, que abrigará a Secretaria Estadual de Esportes, também foi citado pelo Ministro para tentar provar que arenas como a de Manaus e Cuiabá não serão regozijo dos que aguardaram sete anos para chamá-las de “elefantes brancos”.

Outro ponto bastante discutido no evento foi sobre a tendência de “europeização” que os estádios brasileiros vêm sofrendo, mesmo à revelia dos torcedores, seus principais usuários. A recente proibição de bandeirões, tambores, entre outros itens, somada à tentativa de implementar no país hábitos aos quais o brasileiro nunca foi acostumado, vem fazendo crescer uma espécie de “resistência” daqueles que aprenderam a admirar um futebol mais desportivo, apaixonado e menos comercial. Em relação a esse processo de “pasteurização” das torcidas e dos estádios, o Ministro praticamente jogou toda a culpa na CBF: “pressionada pelo Ministério Público, a própria CBF fez uma série de concessões nesse sentido. Como é um evento da CBF, ela pode dizer o que permite e o que não permite”. Mas quando expôs seu ponto de vista, ele foi enfático: “a relação clube x torcedor não é uma relação de consumo”. Dentro desta lógica cada vez mais inerente ao futebol brasileiro, o maior responsável pela popularização do esporte no país está sendo alijado do próprio futuro da modalidade. Em um processo similar ao que Margaret Thatcher conduziu na Inglaterra, os pobres estão sendo afastados do futebol.

Aldo Rebelo afirmou que a CBF fez a maioria das concessões que vêm "europeizando" o futebol nacional. Foto: Pedro Galindo.

Aldo Rebelo afirmou que a CBF é a responsável pela maioria das concessões que vêm “europeizando” o futebol nacional. Foto: Pedro Galindo.

Quanto a essa exclusão social que vem sendo gerada pelo enriquecimento do nosso futebol, o Ministro demonstrou lamentá-la profundamente. “Nós não queremos que a Copa seja um evento para expulsar os pobres de suas áreas; pelo contrário: nós queremos que a população mais pobre seja valorizada, com a infraestrutura que pode alcançar as áreas onde ela mora, como metrô, ferrovia, ponte, avenida, etc”, disse ele. No entanto, não é bem essa a realidade que vêm vivendo as famílias que habitavam o entorno dos estádios. Boa parte delas vem sendo sumariamente despejada, algumas até sob violência física.

Para evitar que a parcela mais pobre da população seja definitivamente expulsa dos estádios e da festa do futebol, o Ministro apresentou uma proposta, que ele chamou de “subsídio cruzado”. Este mecanismo faria com que os ingressos mais caros ajudassem a custear os mais baratos – uma solução que tenta reincluir os pobres no esporte, mas que nunca conseguirá aliviar o sofrimento de famílias que perderam tudo em nome de um Mundial que eles verão apenas pela televisão.

Quando perguntado sobre a relação do Governo Federal com o Comitê Organizador Local, que vem sendo apresentada pela mídia como bastante conturbada, o Ministro foi veemente ao afirmar que a falta de diálogo entre o Ministério do Esporte e o presidente Marin não tem atrapalhado a organização do Mundial. “A cooperação entre o Governo, a FIFA e o COL tem sido muito boa. Nós temos um representante do Governo no Comitê Organizador (Luís Fernandes, secretário executivo do Ministério), que desempenha um papel-chave lá. O que há são diferenças de ideias, que não interferem na realização da Copa”. A resposta, tentativa de desmentir um pouco do que vem sendo dito pela imprensa, evidencia o “pacto de não-agressão” selado entre ambas as partes.

O Encontro de Blogueiros com o Ministro trouxe ainda várias outras declarações importantes e perguntas bem elaboradas, que foram devidamente anotadas e registradas em vídeo, com exclusividade, pelo Doentes por Futebol. O vídeo incluído neste post é apenas uma pequena demonstração do que virá ao longo desta semana: um outro vídeo, mais longo, sintetizando as principais frases e considerações do Ministro Aldo Rebelo a respeito da organização desses grandes eventos que ocorrerão no país. Um material simplesmente imperdível para todos aqueles que gostam de acompanhar não só o futebol jogado no campo, mas também tudo o que cerca o esporte. Continue acompanhando o Doentes por Futebol!

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.