Não dá para ‘xingar muito’ no Twitter

O caso do zagueiro Escudero do Coritiba revela a necessidade dos clubes de estabelecer manuais de comportamento dos atletas

“Xingar muito no Twitter” não é uma opção para atletas. Pelo menos é o que comprova Sergio Escudero, zagueiro do Coritiba, punido em primeira instância por postar frases ofensivas na rede social. O caso ocorreu na semana anterior à final do Campeonato Paranaense 2013. Em sua página no microblog, o jogador dirigiu palavras que despertavam a violência entre as torcidas – “No domingo, vamos matar os porcos!”, escreveu o zagueiro. Na sequência, Escudero respondeu a um torcedor com termos impróprios.

Por tal afirmação, o jogador foi denunciado por incitação ao ódio e à violência. O atleta foi condenado à pena mínima que é de suspensão por 360 dias. Escudero também recebeu duas denúncias por agressão física na primeira partida da final do Estadual, mas não foi considerado culpado. O Coritiba pode recorrer do veredicto e a decisão poderá ser mantida ou atenuada, bem como o zagueiro ser condenado também pelos casos de agressão.

Escudero no TJD-PR: punição por incitar a violência entre as torcidas

Escudero no TJD-PR: punição por incitar a violência entre as torcidas

O procurador-geral do TJD-PR, Marcelo Contini, explica que Escudero foi condenado pelo fato de sua declaração ir contra todos os esforços que são feitos, hoje em dia, para combater a violência. “Existem os que se utilizam da paixão pelos clubes para alimentar uma rivalidade que beira o ódio e a intolerância. Isso exige, das autoridades, um trabalho constante de conscientização”, diz o procurador-geral. “Uma frase que contenha expressões que acirram ainda mais essa animosidade vai na contramão desse trabalho e prejudica consideravelmente o processo”, completa.

O problema é mais grave por se passar no âmbito cibernético. “Quando a frase é postada em rede social de largo e imediato alcance, como é o Twitter, é criada uma situação de perigo”, explica Contini. “Hoje, temos o absurdo de brigas entre torcidas que são marcadas através de redes sociais”, conta.

A abrangência das redes sociais e a liberdade que se tem no mundo virtual são pontos de constante questionamento entre os usuários da rede. A analista de mídia social Fernanda Musardo explica que não é possível separar a vida real do que acontece online. “Qualquer ambiente na internet é público e você sempre será responsabilizado por suas atitudes, como em qualquer outro lugar no mundo”, afirma Fernanda. “A ideia que se criou de que ‘tudo é permitido porque estou protegido por uma tela de computador’ é leviana e não condiz com a realidade”, relata a analista.

Quando questionada sobre a possibilidade de controle das redes sociais dos atletas, Fernanda diz que a autonomia nos perfis pessoais é saudável. “(O atleta) deve utilizar (as redes sociais), deve se aproximar do público. Só não pode perder o respeito pelo próximo e agir de maneira irresponsável”, indica.

O desconhecimento ainda é o maior inimigo do comportamento de clubes, dirigentes e atletas em relação às redes sociais. A ABEX, Associação Brasileira dos Executivos de Futebol, que tem em seu rol de membros dirigentes esportivos de todo o Brasil, condena, no código de conduta, o uso de tais mídias pelos executivos da bola. A proibição (“Jamais deve existir o relacionamento de um Executivo de Futebol através das redes sociais”) representa, inclusive, o tabu que se criou em torno dos meios. Talvez a medida seja vista como radical, mas a impossibilidade de se estabelecer um padrão de procedimentos online faz com que a melhor maneira de evitar problemas seja eliminar o mal pela raiz.

Em contrapartida, bons modelos têm surgido no meio esportivo. A Associação de Futebol (FA) da Inglaterra, por exemplo, não proibiu que seus atletas mantenham contas em redes sociais, mas estipulou um rígido manual de conduta. Depois de algumas confusões que envolveram colegas de time, como na ocasião em que Ashley Cole criticou dirigentes ao sair em defesa de John Terry, a FA optou por regular o uso dos meios. Em dias de jogos, os atletas não podem fazer comentários no Twitter. Os jogadores também não têm permissão para falar de outros companheiros, técnicos ou dirigentes. As punições disciplinares são levadas à risca.

Em relação ao processo de mudança de comportamento nas redes sociais, Fernanda diz que há muito a ser feito. “É um processo natural de amadurecimento”, exemplifica a analista. “Muitas pessoas ainda irão entrar em situações delicadas por conta da mídia social, mas isso é natural e faz parte do amadurecimento”, completa.

Contini conta que casos semelhantes – de postagens ofensivas no Twitter – já foram registrados pelo TJD-PR. Segundo o procurador-geral, no ano passado, dirigentes do Atlético receberam multas com valor entre R$ 2,5 mil e R$ 15 mil por tweets indiscriminados. Ao buscar exemplos a nível nacional, outros atletas já tiveram punições similares. “No STJD, atletas foram punidos por postagens no Twitter e dirigentes por entrevistas dadas após as partidas”, relata Contini. Em 2011, Neymar foi condenado a pagar R$ 15 mil ao árbitro Sandro Meira Ricci por mensagens indecorosas na rede social. O caso, entretanto, foi julgado no Fórum de Santos, já que foi movido pelo próprio Ricci.

O estabelecimento de normas para os atletas, como as dos jogadores ingleses, talvez seja a melhor solução para evitar que o problema continue a se repetir. Enquanto o pensamento dos clubes não se expande para compreender que o mundo cibernético é uma realidade no dia-a-dia esportivo, resta, ao menos, ensinar a gramática de Camões aos atletas. Escudero que o diga. A responsabilidade de condenar o péssimo uso da língua portuguesa, contudo, não é do TJD. “Deixemos isso para os professores”, finaliza, em tom de brincadeira, o procurador-geral.

Em tempo: você pode entrar em contato com a consultora digital Fernanda Musardo através do Twitter, do e-mail [email protected] e do site Musardo.com.br

A matéria foi publicada originalmente aqui.

Comentários

Desde pequena, arriscou no esporte. Foi jogadora de tênis, mas pendurou as raquetes ao perceber que sua vocação era nos bastidores das modalidades. Apaixonou-se por futebol aos 11 anos, quando o pai a levou ao estádio pela primeira vez. Terminou a gloriosa carreira no futsal aos 16 anos, depois de defender um pênalti na final da liga do Ensino Médio. Cultiva com orgulho, desde 2010, o blog "Entrando no Jogo". Apresentadora de TV, comentarista de rádio, boa tenista, goleira mediana e péssima nadadora.