No aniversário da Abolição, ainda não é tempo de comemorar

Paulo César Caju

“Dia 13 de maio em Santo Amaro

Na Praça do Mercado

Os pretos celebravam

(Talvez hoje inda o façam)

O fim da escravidão

Da escravidão

O fim da escravidão”

(Caetano Veloso)

Há exatos 125 anos, o Brasil saía de uma era de escuridão em que vigia uma política pública de segregação e submissão dos afrodescendentes a uma reduzida elite branca que dava as cartas no país. A canetada da Princesa Isabel foi um passo importante, mas que pouco alterou a situação dos negros no país. A maioria absoluta deles deixou de servir a um senhor para cair na marginalidade, tornando-se escrava de uma exclusão social que ainda está longe de se resolver. Boa parte dos brasileiros de pele escura continuam alheios ao processo de distribuição de renda que vem tendo lugar no país ao longo da última década, mesmo com os esforços do governo no sentido de amenizar a profunda desigualdade que ainda nos assola.

Site de empregos em que os "senhores" podem escolher seus servos pela cor da pele.

Site de empregos em que, em pleno 2013,  os “senhores” podem escolher seus servos pela cor da pele.

No Brasil, a pobreza segue sendo uma sina quase implacável para os negros. As estatísticas provam: menos de 25% dos brasileiros com ensino superior completo têm a pele preta. Eles ainda representam a maioria esmagadora da nossa população carcerária, e seu acesso ao mercado de trabalho – principalmente aos cargos mais qualificados – ainda é bastante restrito, se comparado ao que os brancos experimentam na disputa pelos principais empregos. É por essas e outras que, ao se deparar com um negro rico, boa parte dos brasileiros logo pensa se tratar de um jogador de futebol. Afinal, é um dos poucos mercados em que o profissional negro é valorizado de acordo com o que efetivamente vale o seu trabalho – evidentemente, dentro do contexto do esporte. Não, entretanto, sem encontrar algumas dificuldades.

Zagueiro Manoel, do Atlético Paranaense, prestou queixa na delegacia contra o também zagueiro Danilo, que o chamara de "macaco". Para alguns cegos, o racismo no Brasil "não existe".

Zagueiro Manoel, do Atlético Paranaense, prestou queixa na delegacia contra o também zagueiro Danilo, que o chamara de “macaco”. Para alguns cegos, o racismo no Brasil “não existe”.

Mesmo com a predominância quantitativa dos negros no futebol brasileiro, não é raro ouvir casos de demonstrações explícitas de racismo, alguns deles acompanhados de grosserias e agressões físicas. Imediatamente, vem à memória o acontecido com Grafite, que atuava pelo São Paulo e ouviu do zagueiro argentino Leandro Desábato provocações de cunho racista. O caso foi parar na delegacia, e o atleta “muy hermano” chegou a passar dois dias preso. Outro acontecimento recente envolveu os zagueiros Danilo, à época no Palmeiras, e Manoel, do Atlético Paranaense, que ouviu ofensas pesadas e descontou com violência, pisando no jogador palmeirense. Ambos foram suspensos e, em mais uma ocasião, o racismo (que alguns afirmam não existir por aqui) saiu dos campos para os tribunais. As duas histórias são provas de que o preconceito de cor, que atingiu Friedenreich, Leônidas, Barbosa e Paulo César Caju, entre tantos outros, continua muito vivo na cultura do futebol brasileiro. E não pode mais ser minimizado.

Antes de ser ídolo de uma nação, Leônidas da Silva era tratado como marginal.

Antes de ser ídolo de uma nação, Leônidas da Silva era tratado como marginal.

Se ao longo do século passado o futebol se consolidou como inalienável patrimônio cultural do brasileiros, os pretos do país continuaram sendo vítimas da ignorância de uma minoria que representa uma fatia ínfima da população nacional. Seja vindo das arquibancadas ou até mesmo das cúpulas dos nossos clubes e organizações ligadas ao esporte, o preconceito ainda é nítido – principalmente para aqueles que dele sofrem diariamente. Ainda que alguns prefiram acreditar na fábula de que o Brasil é um país onde “não existe raça” e todos são “pardos”, as muitas evidências que o cotidiano nos dá não permitem essa omissão que, para a nossa “casa grande”, é bastante conveniente. Enquanto os negros do país seguirem vendo no futebol sua melhor possibilidade de ascensão social, é porque algo de muito podre continua rondando a nossa sociedade.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.