O Derby Eterno

  • por Vicente Freitas
  • 7 Anos atrás
Derby de Belgrado

O fervor da torcida sérvia

Neste sábado, 18 de maio de 2013, realizar-se-á, mais uma vez, o mais que tradicional e tenso “Derby de Belgrado”, o “Derby Eterno”, entre Partizan Belgrado e Estrela Vermelha. O clube alvinegro joga em casa e lidera o campeonato sérvio com 64 pontos, dois a mais que seu histórico antagonista, faltando apenas 3 rodadas para o fim do certame.

Ao longo da história, já ocorreram 232 confrontos, com ampla vantagem alvirrubra: 104 x 79 vitórias. Os Crveno-beli também têm mais troféus: 1 Mundial de Clubes (1991), 1 UEFA Champions League (1991), 25 campeonatos e 24 copas nacionais (contando-se desde a época da “Iugoslávia” e do período como “Sérvia e Montenegro”). Já os Crno-beli contam com um vice-campeonato de UCL (1966), 24 campeonatos e 12 copas nacionais. Porém, nos últimos cinco anos, supremacia absoluta do Partizan, já que o clube detém o atual pentacampeonato sérvio.

No entanto, esse é um dos clássicos do futebol mundial em que o jogo é como um pano de fundo de algo maior e assume o papel de uma simbolização de um contexto político e histórico muito maior.
Esse é, com certeza, um dos jogos de futebol com maior carga política na constituição de sua rivalidade.

Ainda sob os escombros de uma Europa esfacelada pela maior demonstração da bestialidade humana – a Segunda Grande Guerra Mundial -, ambas as equipes foram fundadas em 1945, já que, a partir daquele ano, todas as instituições dos países anexados ao Reich III, caso da Iugoslávia, tiveram de ser desfeitas. Coube então a refundação, em moldes diferentes dos vigentes. 
O Estrela Vermelha foi fundado sob influência da onda antifascista, nos moldes soviéticos vigentes à época, e do nacionalismo étnico sérvio, tendo como base o antigo SK Jugoslavija. Já o Partizan foi fundado por oficiais do exército comunista do Marechal Tito (croata), que governou a Iugoslávia de 1953 a 1980, num comunismo peculiar, mesclado com um nacionalismo iugoslavo (ignorando divergências étnicas entre sérvios, bósnios ou croatas), com ligação com a antiga agremiação BSK Belgrade. Foi nessa forja que começou a acidez da rivalidade, já que a ideologia de supremacia sérvia ia cada vez mais se tornando a força-matriz ideológica do “clube estrelado” e as pregações separatistas eram cada vez mais fortes, em contraponto ao entendimento de “Grã-Iugoslávia” que balizava o governo do Marechal.

Mais informações : Croácia x Sérvia – muito mais que um jogo

Essa tensão aumentou mais e mais com a morte de Tito (em maio de 1980), que mantinha a Iugoslávia unida (a ferro e fogo, bem ou mal, mas mantinha). Com a perda de vigor político, o país se tornou alvo das manifestações étnico-nacionalistas que visavam ao desmembramento da Iugoslávia em outras nações, em seis repúblicas independentes, hoje: Croácia, Eslovênia, Montenegro, Sérvia, Macedônia, Bósnia e Herzegovina.

Essa tensão política promoveu as bases para que os encontros entre torcedores rivais se transformassem em batalhas, literalmente. Os “Coveiros” (Groberi), torcedores do Partizan, e os “Delije” (Intrépidos), torcedores do Estrela Vermelha, protagonizaram lamentáveis eventos de cunho bélico, pavimentando o caminho para o estádio com muitos cadáveres (estima-se a morte de 11 pessoas em decorrências de brigas entre as “torcidas”, na última década).

Mesmo sem o brilho de outrora, quando conseguiam galgar degraus mais altos no nível europeu, os dois mais populares clubes de Belgrado ainda propiciam um espetáculo digno dos grandes e épicos embates futebolísticos.

Vejamos o que acontece neste sábado e quem erguerá a taça ao fim do certame.

 

Comentários

Pernambucano. Formado em Direito, pela UFPE. “Sofredor” do Santa Cruz FC e apaixonado pelos Aurinegros de Dortmund, acompanha o Tottenham Hotspurs na Premier League. Germanófilo e Eslavófilo, apesar de não saber nada em alemão, muito menos em russo, tcheco ou polonês. Entende que o futebol perfeito seria uma mistura de verticalidade e disciplina tática alemã, técnica e elegância argentina e raça uruguaia. É fã de Nedved, Pirlo, Zidane, Romário, Kahn, Messi. Tem raiva de não ter visto Puskas, Heleno de Freitas, Cruyff, Pelé, Maradona, Sammer e nem Beckenbauer jogar.