O fator Cuca

O fator Cuca

Já se pode dizer que Alexi Stival é uma figura bastante conhecida no futebol brasileiro. Como jogador, teve uma carreira curta e, de certa forma, discreta: teve passagem marcante pelo Grêmio, além de ter atuado em outros grandes clubes como Inter, Palmeiras, Santos e Coritiba; e chegou até a atuar na seleção brasileira. Como treinador, já realizou alguns trabalhos dignos de destaque, que marcaram a memória do torcedor brasileiro ao longo da última década.

Os exemplos são muitos: o Goiás de 2003, que saiu da lanterna do Brasileirão para terminar o campeonato em 9º, após uma campanha surreal de recuperação em que o time passou de saco de pancadas a temida força ofensiva. O São Paulo do ano seguinte, espinha dorsal do campeão do mundo de alguns anos depois. O “carrossel botafoguense”, em que extraiu o máximo de jogadores limitados, deu sinais de que brigaria pelo título e frustou a todos que, um dia, tenham sonhado com essa possibilidade. O Fluminense dos guerreiros, que se agarrou e se entregou aos 2% de chances que ninguém mais achava que ainda existiam. Ou o Cruzeiro de 2011, que fez fantástica primeira fase na Libertadores e caiu logo nas oitavas. Todos eles fizeram sua história no futebol nacional, mas levarão para sempre consigo o “selo Cuca”: se entregaram, se doaram e encantaram, mas simplesmente não levantaram taças.

Como sempre, a um passo do topo

O fatídico episódio do "chororô": assim têm sido os times comandados por Cuca.

O fatídico episódio do “chororô”: assim têm sido os times comandados por Cuca.

Para o treinador gaúcho de 50 anos, futebol e troféus não costumam andar juntos. Como jogador também foram poucos: o de maior destaque é a Copa do Brasil pelo Grêmio, na qual marcou o gol decisivo do título contra o Sport. No mais, apenas alguns campeonatos estaduais. Na carreira de técnico, ele ainda não conseguiu um título de expressão nacional. Entre Cuca e as conquistas, sempre parece haver um obstáculo intransponível – no Botafogo de 2008, foi a arbitragem. No Tricolor paulista (como no Cruzeiro) foi o Once Caldas; no carioca, a LDU. O fim tem sido sempre o velho, surrado e já descreditado “quase”.

No Atlético Mineiro, Cuca montou mais um time insinuante, envolvente e extremamente qualificado. Conseguiu levar o Galo, após treze anos, ao seu quarto… vice-campeonato nacional. O “quase”, então, foi o pragmático Fluminense, que disparou na reta final do certame e ficou com a taça. Mais uma vez, o treinador não resistiu ao roteiro que o vem acompanhando durante toda a sua carreira de treinador. No entanto, mesmo a frustração da sina recorrente não foi capaz de abalar a confiança da fanática – e paciente – massa atleticana. Ela soube esperar. Porque sabia que Bernard, Jô, Ronaldinho e a volta do ídolo Diego Tardelli fariam cada minuto de expectativa valer a pena.

O Galo da Libertadores é intenso. Tem a tradicional vibração que Cuca sempre injetou em seus times, e possui um nível de talento que o treinador jamais teve em mãos. A começar por Ronaldinho, o Mágico, o fantástico ilusionista, cujos lampejos frequentes têm lembrado seus dias mais inspirados. Tem também Bernard, o jovem mirrado e arisco que já é visto como um dos mais promissores do futebol brasileiro, e dois homens de área que vêm sendo letais: “Don Diego”, o ídolo, e Jô, o “patinho feio” que conquistou a torcida alvinegra e se tornou peça fundamental nas estratégias do time. Some-se a isso um sistema defensivo seguro – e em grande fase! -, um goleiro de alto nível e um elenco pleno de opções em quase todos os setores, e está aí um time que poucos hesitariam em apontar como franco-favorito em qualquer competição do continente. Hesitariam – se o clube em questão não fosse justamente o Atlético e seu treinador, justamente ele, Alexi Stival.

Tempo de reescrever a história

No Atlético, Cuca tem material humano como nunca antes. E tem Ronaldinho.

No Atlético, Cuca tem material humano como nunca antes. E tem Ronaldinho.

Mas o que há de tão irresistível nesse triste roteiro? O que lhe tem faltado para superar o famigerado e, até então, intransponível “quase”? Poucos são os que se arriscam a tentar explicar, e menos ainda são os que resistem a tachá-lo de “cavalo paraguaio”, “pipoqueiro”, entre outros rótulos não muito elogiosos. Seu estilo passional e enérgico é muitas vezes visto como sinal de desequilíbrio psicológico – um traço que, até hoje, foi a tônica de quase todos os seus times, mas que ainda não apareceu na Cidade do Galo. Até o momento, o alvinegro time tem sido tudo aquilo que Cuca tem de melhor: jogando à flor da pele e empurrado pela massa atleticana, faz campanha irretocável, simbolicamente marcada pela goleada de hoje sobre um dos tradicionais “bichos papões” da competição.

Em 2013, talvez nenhum outro clube tenha encantado tanto quanto o Atlético. O futebol envolvente apresentado já faz sua torcida sonhar com o inédito título da Libertadores, e a fartura do seu elenco dá o máximo de tranquilidade ao treinador Cuca – que, até agora, não teve uma razão sequer para se deixar abalar no projeto de conquistar a América. Com um time sólido, agressivo e cada vez mais temido, o Galo viverá mais alguns dias de delírio. Parte agora rumo às quartas de final, carregando um favoritismo que cresce a cada grande atuação coletiva. Hora de esquecer os tristes roteiros do passado, fartamente repetidos, e abraçar, com a paixão de sempre, a oportunidade de escrever um final novo e glorioso.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.